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O final da viagem está se aproximando, os mapas vão passando, chegou num ponto que dá pra fazer as contas e meio que prever quanto tempo vai levar pra terminar. Eu e Lewis já estamos fazendo as contas há alguns dias, mas hoje resolvi oficializar a data de chegada no Pacífico. Mas não vou escrever ela aqui, vou deixar no suspense, eheheh. Basta dizer que hoje, durante o café da manhã no saloon em Jeffrey City pude roubar um pouco da internet da proprietária gorda e triste e reservei todas as passagens para visitar todo mundo que quero visitar nas duas semanas antes de voltar para o Brasil.
A pedalada de hoje seguiu o padrão dos últimos dias, com Lewis saindo na frente e sumindo pelo asfalto, eu firme no meu ritmo, determinado a não sofrer pra seguir a velocidade alheia. Encontrei ele quando alcancei um rest station na beira da estrada, mas ele já estava de partida. Já conformado com a ideia de que essa parceria está chegando mais pro lado de ter alguém pra rachar as despesas eventuais de hospedagem do que uma companhia no caminho, dei tchauzinho e fiz meu lanchinho na sombra.
Depois de horas bastante gostosas vendo as rochas do Wyoming se desdobrarem ao longo da estrada, cheguei em Landers, onde tinha ficado combinado de encerrar o dia. A cidade tem McDonald’s, fonte de comida trash-mas-barata e wi-fi grátis, então tinha certeza que ia encontrar Lewis lá, e estava certo. Mas mais uma vez ele já estava zarpando, que a cidade tinha bicicletaria e ele precisava comprar pneus novos de qualquer jeito. Tem razão, vai nessa, te encontro lá daqui a um tempinho. E fui comer um número 2 enquanto ele comprava pneus.
Uma hora depois cheguei na bicicletaria, e o encontrei no fundo da loja, com os olhos brilhando. “Man, isso é amazing, eles me deixaram usar a oficina deles, vou aproveitar e desmontar as engrenagens, limpar entre as peças, tirar esses parafusos que estão tortos e…”.
“Certo”, respondi. “Quanto tempo isso vai levar?”
“Ah, uma hora ou duas…”
“OK, OK.” A gente tem que acampar, despencar as coisas, melhor ir junto, mas não vou ficar aqui olhando o coleguinha passar cotonete entre os elos da corrente. Atravessei a rua, entrei numa livraria-café, tirei o Kindle da mochila e me pus a ler o livro da Annie Proulx que eu ganhava mais.
Na livraria, além de ter a alegria de brincar com o cãozão de uma cliente e suspirar de saudades do Lampinho, encontrei uma brasileira. Ela mora nos EUA há muitos anos já, notava-se pelas palavras que vinham mais fáceis em inglês que em português, apesar do sotaque da Paraíba continuar intacto. Ela trabalha numa empresa que faz treinamentos de liderança ao ar livre, como professora, e tinha acabado de voltar de um curso de 72 dias nas montanhas do Wyoming.
Prestatenção nisso. Pessoas civilizadas pagam pra passarem SETENTA E DOIS DIAS no meio do nada lutando pela própria sobrevivência a fim de desenvolver seus leadership skills. E depois dizem que cruzar o continente de bicicleta é doideira.
Lewis chegou não muito depois. No fim das contas, quando o pessoal da loja ofereceu a oficina, era só pra ele trocar os pneus velhos pelos novos, não esperavam que ele empolgasse e passasse fio dental nos aros da roda. “Eles começaram a fechar a loja e eu tive que ir embora, nem deu pra terminar de ajustar os freios…”. Paciência. Fomos para um motel que nos tinha sido recomendado por deixar acampar no terreno atrás e permitir o uso dos chuveiros. E tinha wi-fi, sempre importante.
A área de camping não tinha eletricidade, mas isso não me detém mais, fui de laptop e tomada para a tomada mais próxima na área externa do motel, puxei uma cadeira de plástico e montei o escritório do dia. Pretendia escrever no blog, mas comecei a conversar com minha mãe pelo Facebook e assim fizemos reservas de albergues em Seattle pra quando eu encontrar minha lirousis Ana Paula depois do fim da travessia. Essa viagem vai encerrar com chave de ouro.



