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O bêbado da vila


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Alce no quintal

“Olha só, chegou nosso cortador de grama!”, disse Kevin

Eu achava que seria difícil qualquer estado dos que eu estou atravessado competir com o Colorado em termos de paisagem, mas devo dizer que o Wyoming está alcançando seu irmãozinho adjacente.

Não que sejam parecidas. Pelo contrário. O Colorado faz jus a seu slogan, e é todo colorido. O Wyoming tem uma palheta de cores limitada a tons pastéis amarelados e verdes e vermelhos queimados. Mas eu me surpreendo tirando fotos o tempo todo, mais do que tirei no Colorado, porque a paisagem é surpreendente. Você está tranquilamente percorrendo o planalto, paisagem pacata, montanhas no horizonte, quando vem chegando um rochedo, e atrás desse rochedo se revelam outros em formas mais incríveis ainda, formações incríveis e inusitadas as quais a câmera não faz justiça. Ou vales imensos cheios de colinas, fazendo sua visão 3D funcionar ao máximo para tirar seu fôlego. E tudo desolado, desolado. Não tem plantação, não tem casinha, só cercas e cercas dos ranchos, muitas vezes sem cavalos nem vacas pastando, o que só aumenta a sensação de vazio. Não é difícil entender por que a Annie Proulx, que vive aqui, é capaz de gostar tanto da região e escrever tantas histórias sobre ela.

Acertando o timer da câmera

Acertando o timer da câmera

Lewis pegou o hábito de sair na frente e sumir-se pelo caminho. Antes a gente andava mais ou menos na mesma velocidade, quem estivesse na frente esperava o outro. Eu sou mais devagar que ele em situações normais, mas antes o calor compensava em meu favor. Agora ele vai ganhando distância, ganhando distância, e se der sorte a gente se encontra na hora do almoço no único restaurante na única cidade no meio do caminho. Não tenho tanto problema em pedalar sozinho per se, mas gostava da sensação de parceria de pedalar acompanhado. Não magoa, Marcio, não é com você o problema.

Wyoming e seus ranchos vazios

Wyoming e seus ranchos vazios

O trajeto foi mais maravilhas-surpresa do Wyoming, mas transcorreu sem dificuldades. A parada final do dia seria em Jeffrey City, uma cidade que teve um boom nos anos 1980 por conta da mineração de urânio, mas agora ninguém mais quer fazer nada lá e ela se reduziu a tristes 40 habitantes. Restam quatro ruas na cidade, cruzando a estrada, com a maioria das casas abandonada. Mas tem um bar com jeito de saloon que atende aos viajantes e caminhoneiros que não têm opção outra nessa desolação, e o mapa indicava que a gente poderia acampar por lá, e qualquer outra civilização ficava 50 km mais pra frente. Então era lá mesmo.

Cheguei um tempo depois de Lewis, entrei no saloon, e o encontrei sentado no balcão conversando com um cara de trinta e muitos anos, com uma cara meio demente. “Hey man!”, ele me cumprimentou, todo alegrinho, “descolei um lugar pra gente ficar, ele aqui disse que a gente pode dormir no trailer dele”. Olhei pra figura e lamentei imediatamente que Lewis tinha chegado antes. Barbado, jeito meio beócio, dava pra ver que era uma figura meio deplorável que ficava lá naquele fim de mundo bebendo porque não tinha mais o que fazer da vida. Eu jamais aceitaria compartilhar um quarto no Copacabana Palace com ele, muito menos um trailer no meio de onde Judas perdeu as esporas. Mas meu coleguinha já tinha acertado isso, e recusar baseado apenas na minha antipatia não ficaria bem.

O trailer em que fiquei preso

O trailer em que fiquei preso

O tio bêbado ocupa um galpão atravessando a estrada, onde ele vende cerâmicas que ele mesmo faz. Também trabalha no saloon, até porque a working force daquele buraco não deve ser muita. Ficou oferecendo água com uísque pro Lewis, que bebia um pouquinho por educação (e compulsão) britânica. Depois de comer, fomos pro tal do trailer, que obviamente estava caindo aos pedaços e não tinha água, mas pelo menos tinha tomadas funcionando. Lewis, nas suas paixões ciclísticas, resolveu que essa tarde livre seria ótima para lavar as peças da bike, e se pôs a desmontar sua magrela atrás do trailer e passar lenço umedecido entre todas as arestas. Eu, suspirando que não tomaria banho, entrei no trailer e usei meus lenços umedecidos para limpar as minhas arestas. Quando fui tentar sair, a porta não abria, e levou muito grito e muito soco na parede pro bebum parar de papear com Lewis e vir me resgatar. “Ô, foi mal aí, tenho que consertar essa porta! Já teve um monte de gente que ficou presa aí, alguns acabam saindo pela janela, até quebraram o vidro…”. Não, eu não estava feliz. Fui pro saloon usar o banheiro, voltei pro sofá empoeirado do trailer (com cuidado pra não fechar a porta completamente) e fiquei lendo o resto da tarde.

O galpão das cerâmicas

O galpão das cerâmicas

Quando começou a anoitecer, resolvi descobrir se meu co-ciclista ainda estava vivo. Saí do trailer, andei pelos arredores, e nem sinal dele. Mas o tio estava lá na frente do galpão, segurando uma máscara de borracha com cara de macaco e uma peruca, e insistiu pra que eu vestisse esse combo lindo para tirar uma foto. Me fiz de sonso e fui pro saloon.

Lewis se divertindo com a bike

Lewis se divertindo com sua bike

Lewis estava lá, usando o wi-fi do bar. Que parecia, aliás, ser a única maneira de entretenimento do lugar. A dona, uma gorda envelhecida com cara infeliz, equilibrava a buzanfa num banquinho desde a hora em que chegamos, clicando no Facebook sem animação o tempo todo. Internetei por um tempo, depois joguei (e perdi, claro) sinuca com Lewis, depois voltei a internetar. Já chegava as dez horas quando o cana-brava nos convidou pra fazer uma fogueira e fumar um baseado. Fiz minha cara antipática e disse que não, obrigado. Lewis, não sei se por inocência ou por real vontade de fumar com ele, aceitou. Apertei o control-F mais uma vez, paguei minha conta e fui entrar no meu saco de dormir dentro do trailer. Com sorte ele não sofreria um boa-noite-cinderela de uísque com água e não acordaria no dia seguinte numa banheira de cerâmica, sem os rins e com uma máscara de macaco na cabeça.

Felizmente, o cachaça dormiu no galpão com suas peças de cerâmica.