CS: Nájera – Santo Domingo – Belorado – San Juan

Fachada da igreja de Santo Domingo de la Calzada.
Altar dessa igreja.
O galo e a galinha que são mantidos vivos dentro da igreja por conta de um milagre atribuído a Santo Domingo.
Meus pés cansados descansam nas hawaianas enquando eu leio Isabel Allende.
Eu, Heather, Mara e Will no albergue em Santo Domingo.

San Juan de Ortega, 14 de outubro, 20:45h

Dei uma adiantadinha porque não aconteceu nada tão emocionante nos últimos dias além de que eu comprei outra caneta preta. Não se ofendam.

Dormi ontem em Belorado, e caminhei pela manhã até Valdecilla, onde encontrei um albergue que oferecia internet de graça. Sentei pra atualizar o Chão um pouco, e daí lembrei que a Heather, uma americana que estava andando com a gente, queria imprimir o absentee vote dela pra que ela pudesse votar na eleição pra presidente dos EUA à distância. Fui todo cavalheiro e ofereci pra que ela usasse primeiro, pensando que seria rapidinho. A maldita sentou no computador com outra americana, as duas ficaram uma hora e pouco procurando N formulários que precisavam (e que não era o mesmo pras duas, porque eram de estados diferentes), quando largaram eu já tinha colocado em dia as legendas das fotos, o diário e quase tinha começado a cortar as unhas. Quando finalmente pude escrever no Chão, deu pau no Blogger e não publicou nada. Fui embora meio revoltado.

O albergue em Belorado é limpinho e tão novo que não tinha cozinha ainda. À noite o povo organizou uma sanduichada, comi sanduiche de presunto, queijo, tomate e abacate, tudo regado a vinho, que aqui é muito mais barato que Coca-Cola. Foi outro daqueles momentos genuinamente felizes dessa viagem.

Peregrinos felizes se empanturram de sanduíche.

A caminhada hoje foi bem tranquila, solitária, passando por bosques que me lembravam a idéia que eu tinha da floresta de Sherwood. Diz a lenda que esse era realmente um trecho temido pelos peregrinos do passado, porque saqueadores armavam emboscadas no bosque e roubavam os pobres viajantes. Agora não acontece mais isso, não se vê viva alma. Foi floresta e mais floresta, a cidade parecia não chegar nunca, fiquei tão feliz quando ouvi o sino da igreja mesmo sem ver nada, e depois de mais alguns metros, fazer uma curva e ver a vilinha onde ficaria à noite.

Monumento aos fuzilados a caminho de San Juan de Ortega.
Floresta em torno do Caminho, onde os peregrinos de antigamente temiam ser assaltados.

Ela se chama San Juan de Ortega, por conta de um discípulo de Santo Domingo de la Calzada que está enterrado aqui. O albergue fica na casa do padre. Como dizia o superguia, não tem água quente. Como não queria ficar sem banho, provei que sou muito macho e tomei banho gelado mesmo estando uns 12 graus. Depois jurei por Tara, com um sabonete na mão, que jamais tomaria banho gelado novamente.

Vinte minutos depois, Ángel e as americanas chegaram, ele passou uma conversa na irmã do padre e ela ligou a água quente por alguns euros. Que queime nos mármores do inferno. Quando perguntada onde se podia lavar a roupa, ela disse toda desenxabida que poderíamos usar a fonte na frente da igreja.

A tumba de San Juan de Ortega.

No único bar do lugar, ao lado do albergue, o garçon é meio retardado, e não deixa sentarem mais de quatro pessoas por mesa pra não se confundir. Atendia às mesas numa ordem certa, e você tinha que esperar ele atender todas antes de poder pedir alguma coisa a mais.

A entrada do Albergue do Inferno onde peregrinos congelam no banho frio.

Hora de dormir, não havia calefação ou uma lareira sequer no albergue, me enrolei no saco de dormir o melhor que pude e torci pra que não ficasse muito mais frio que 10 graus, a temperatura indicada pra ele. Esse ficará para sempre conhecido como o Albergue do Inferno.