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Glória bike nas alturas


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Lewis in South Park City

Oh my god! They killed Kenny! You bastards!

O dia amanheceu novamente sem nuvens – vimos pela janela, já que dormimos quentinhos num quarto de hotel. Não importa. Dia claro é sinônimo de sol, e sol num céu de brigadeiro em grandes altitudes são os ingredientes para fotos lindas. É o que a gente precisava nesse dia que atravessaríamos a Hoosier Pass, custasse o que custasse.

Acordamos às seis e meia, nos fantasiamos rapidamente, e corremos para o restaurante aberto mais próximo para tomar um café da manhã veloz. Pena que o lugar era tão gostoso, fomos tão bem atendidos por uma garçonete gorda mas superlegal e solícita, acabamos demorando mais que queríamos por lá. Não importa: café tomado, banheiro visitado, estrada! Mas daí você passa por uma genuína vilinha de faroeste na saída da cidade, restaurada para visitação turística, com encenações de duelos e tudo. E a vilinha ainda se chama South Park. Como não parar pra pelo menos tirar uma foto? Não dava. Mas resisti a esperar pra ver o bangue-bangue.

Então, asfalto! Sobe sobe sobe! Doze milhas mais pra frente, você chega numa cidadeca que a) se chama Alma; b) é supersimpática; e c) tem o saloon mais alto do continente. O condicionamento britânico do meu colega não resistiu, e tivemos que parar pra ele tomar uma cerveja às nove da manhã. Pelo menos estava passando a final de vôlei feminino das Olimpíadas na TV, eu pude ver metade da vitória das garotas.

Sem mais distrações pitorescas no caminho, agora sim, só restava voar voar, subir subir. A estrada da Hoosier Pass é bem projetada, a inclinação nunca chega a ser absurda como algumas estradas no leste. Mas também é muito movimentada. Muito. Carros passavam perto de nós o tempo todo. E o ar vai ficando cada vez mais gelado e mais rarefeito quanto mais você sobe; não chega a ser como nos Andes, claro, mas é dureza, tem que se respirar rapidamente como se estivesse correndo a toda só pra manter a bicicleta rodando. Acostumado às velocidades altas da semana anterior, também foi um sacrifício se ajustar ao ritmo mais lento ladeira acima. Mas é pra isso mesmo que a gente está aqui: vai uma barrinha, vai uma aguinha, vai um gelzinho, pedala pedala pedala, roda roda roda, um minuto pro comercial, alô alô teresinha, com paciência, quando você vê, surge no alto da estrada o sinal: Hoosier Pass, elevation 11,539 feet, Continental Divide.

Lewis and Marcio at Hoosier Pass

Mal conseguindo respirar, mas felizes da vida

Bate euforia: de alcançar um dos maiores marcos do caminho todo, de saber que você subiu sozinho todos aqueles pés, de serotonina acumulada, de bobice, que seja. O sorriso entra na cara e não sai mais. Um grupo de três velhinhos do Arizona também estavam lá, ficaram assustados com nossa viagem, perguntaram de tudo, alugaram o Lewis pra caramba (que eu estava tentando ligar pro Louis pra ter pra quem contar que estava no teto do mundo, mas quem disse que ele atendia?), mas pelo menos tiraram fotos nossas. Momento Kodak registrado.

Daí veio a divertida hora da descida, e nessa estrada, tão bem projetada, deu pra curtir a gravidade a meu favor. Depois de um início de curvas fechadas, a rodovia se desenrolava sem grandes surpresas, deslizando montanha abaixo com segurança.

Pode ser impressão minha, mas de um lado da Continental Divide pro outro a vegetação muda muito. De repente, as árvores passam a ser pinheiros. Aos montes. A paisagem vira cartão postal, chega a ser meio bizarro. Ainda mais quando chegamos em Beckenridge, uma cidade toda turística, aos moldes dos Alpes, adaptada para receber o povo esportista que desaba lá pra esquiar, fazer rota de mountain bike, enfrentar corredeiras num caiaque… Muito linda, muito limpa, muito cheia de gente saudável, é só alegria.

Descida da Hoosier Pass

Pinheiros, descida tranquila e rápida: o outro lado da Divisa Continental

Paramos para um almoço comemorativo num pub de esportes, cheio de TVs que mostravam os lutadores de luta greco-romana se agarrando nas olimpíadas, os lutadores de UFC se batendo no octógono, e os desenvolvimentos do último tiroteio em lugar público porque afinal aqui é os EUA. Com algum esforço a gente terminou o almoço ainda num horário decente: o mapa mostrava que a estrada pela frente ainda seria em grande parte descida, e a gente precisava aproveitar pra compensar os quilômetros a menos do dia anterior.

Mas daí a meteorologia faz sua parte, as chuvas de fim da tarde vieram mais uma vez, e paramos num café na próxima cidade, a poucos quilômetros do nosso almoço, porque somos dedicados, mas não masoquistas. Duas e meia, três e meia da tarde, nada de chuva parar, ficou claro que não ia ter como alcançar Kremmling, como planejado.

Daí vem a parte de encontrar uma outra opção. Motéis em volta carésimos ou sem lugar, albergue na próxima cidade não tão caro mas não inspirava confiança… Santo WarmShowers proveu por nós mais uma vez. Encontrei uma alma caridosa em Silverthorne, a próxima cidade, liguei, pedi desculpas por entrar em contato em cima da hora, mas será que não dava pra hospedar a gente essa noite? Depois de um pouco de hesitação, a dona da casa topou. A chuva parou, e seguimos felizes para nosso próximo refúgio.

(Mas compramos antes um presentinho para ela, que somos educados e sabemos que não é mole receber visita inesperada assim em cima da hora.)

Touro e flamingo de aço

Não entendi bem o porque desses touros e flamingos de aço no meio da feira em Frisco, mas achei bacana e o blog é meu.

Passamos a noite na casa de Randy e Roberta, um casal de aposentados, em Silverthorne. Uma casa grande e linda numa cidadezinha cuja vida aparentemente gira também em torno de todos os esportes radicais que se pratica a seu redor. Quando eu me aposentar também quero ser assim: eles atravessaram os EUA de bike em 66 dias faz dez anos, continuam pedalando, esquiando, fazendo trilhas, e ainda ajudam em grupos comunitários, hospedam ciclistas viajeiros… Fiquei besta.

E o mais legal é que eles tinham passado pela mesma coisa que a gente. Nossos hosts em Chanute, por exemplo, eram muito bacanas, mas achavam esse lance todo de andar de bicicleta por milhares de quilômetros uma coisa muito maluca. Randy e Roberta não: eles acham que tem que mais que pedalar mesmo, se revoltam com a obesidade alheia, e eram cheios, mas cheios de histórias pra contar sobre as viagens deles. Que jantar bacanérrimo, tivemos. Ficava difícil sair da mesa, mesmo depois de comer o monte de macarrão que eles nos serviram sabendo que a gente tem que carregar no carboidrato. Eles deram conselhos sobre todas as estradas que viriam pela frente, recomendaram equipamentos, mostraram mapas… O imprevisto acabou proporcionando mais uma noite inesquecível nessa viagem.