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Sensação nova, essa de passar frio.
Durante o último mês, a minha preocupação maior foi lutar contra o calor. Você acorda de madrugada, carrega litros de água, só para na sombra. Se acostuma a acordar no meio da noite numa sopa do seu próprio suor, já que o saco de dormir tem a intenção de te manter quente, não fresquinho, e se você dorme direto no colchonete, bem, ele é de borracha e portanto também não absorve sua transpiração.
Mas agora, conforme a elevação aumenta, a temperatura baixa, e baixa, e baixa. Acordo às seis da manhã e está frio. Não faz sentido sair pra estrada muito cedo, já que vai estar um frio infernal. Estamos nos ajustando à nova timeline, ainda sem muito sucesso.
Guffey é uma cidade tão esquisita e fotográfica que ficou combinado na noite anterior da gente ficar lá esperando o único café abrir às nove, assim dava pra tirar fotos enquanto aguardávamos a bóia. Eu tirei mais algumas fotos estratégicas, e fui arrumar minhas coisas. Lewis passou bem mais tempo fotografando, já que carrega uma câmera profissional e duas megalentes consigo, então tem que fazer valer o esforço.
Encontramos também um ciclista que está fazendo o trajeto no sentido contrário e tinha dormido na cidade também. Acabamos os três tomando café da manhã juntos, conversando e trocando dicas sobre o que cada um tem pela frente. E a comida estava boa. Resultado: só reunimos coragem pra cair na estrada dez e meia. Nunca tinha partido tão tarde.
E não era por falta de pretensão para o dia. O objetivo era bem ambicioso: pedalar 92 quilômetros até o ponto mais alto de toda a rota, Hoosier Pass, e daí terminar o dia 17 quilômetros depois, em Breckenridge. Seria um dia praticamente inteiro de subidas, mas pelo menos a gente estava bem alimentado.

Fazendo minha parte para ridicularizar a humanidade, a fim de que o sacrifício do pobre do alce não tenha sido em vão
Outro encontro com destemidos pedalantes ocorreu na hora do almoço, quando paramos em Hartsel. Cruzamos com um casal de ciclistas que estava pedalando de norte a sul: começaram no Canadá e seguiriam de bicicleta até o México. Com uma observação: estavam fazendo uma rota de mountain bike, muito mais roots, o que significa dias e dias sem passar por uma cidadezinha que seja. “Vamos levar quatro dias até chegar na próxima cidade, então estamos carregando comida para cinco dias”, o cara me disse, enquanto a esposa concordava com uma cara de quem já desistiu de tomar banho todo dia faz muito tempo. Isso que é amor, o resto são pílulas.
Avançamos e avançamos numa inclinação ascendente e constante por mais algumas horas. A uns 20 quilômetros da famigerada Hoosier Pass, no entanto, o céu se encheu de nuvens negras, relâmpagos surgiram no horizonte, um vento frio começou a atacar nossas bicicletas… uma tempestade se achegava. É nessas horas que eu vejo por que minha parceria com Lewis dá certo. Assim que chegamos na cidade de Fairplay, eu parei no primeiro posto que surgiu na estrada, ele chegou logo depois, e sem grandes discussões a gente concordou que era melhor encerrar o dia por ali do que subir ao teto da rota debaixo de chuva. Até porque, como eu disse, Lewis carrega um ultra equipamento fotográfico e queria tirar fotos decentes do alto da montanha.
Sofremos um pouco pra achar um lugar que nos hospedasse pela noite sem cobrar o nosso couro, mas depois de passar num motel e num hotel encontramos um terceiro que tinha vagas e ainda por cima fez um precinho camarada para ciclistas. Nos deram um quarto cujo chuveiro mal tinha água, mas tendo TV a cabo para eu assistir MSNBC eu já fico contente e tomo banho num fio de água quente correndo pra ir assistir a Rachel Maddow. Mas o que o banho não conseguiu fazer, a fome fez: não aguentei, me conformei em ouvir o podcast no dia seguinte, e fui pra um restaurante jantar com Lewis porque o estômago rosnava.
Como sempre, saí pra rua de shorts e com a regata com a qual vou pedalar no dia seguinte. Depois de comer, quando voltávamos para o hotel, uma chuva gélida caía. O vento brincava de nitrogênio líquido na rua. Eu, sem blusa, fui correndo molhado, tiritando e batendo os dentes, de volta pro hotel. É, ainda tenho que me adaptar à nova e fria realidade.



