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Velho e Seminovo Oeste


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Lavanderia

Dia de folga se passa na função de lavar roupa.

Ontem nós tivemos um dia de folga. Por folga entenda-se um dia sem cair na estrada. As tarefas de que a gente se ocupa nos dias off são tantas que mal dá pra descansar.

Pueblo é uma cidade com mais de 100 mil habitantes, o que, para os nossos padrões, é algo gigantesco e inédito até agora. Ainda mais, é o marco do meio do caminho, o que significa que é a hora de colocar o equipamento nos trinques para a segunda metade.

Como tínhamos conquistado o direito à chave do apartamento do Rick, nosso host, não precisamos acordar às cinco e meia com ele como estávamos preparados para fazer. Acordamos por conta própria, comemos, e enrolamos nos computadores por um bom tempo, porque não é sempre que a gente tem internet superrápida.

Mas chega sempre a hora de cuidar da vida. Rick não tem máquina de lavar roupa, então a gente precisava ir pra uma lavanderia, que já fazia mais de semana que as vestes tinham visto sabão pela última vez. Deixamos elas no agito da coin laundry e fomos comer num Subway ao lado. Uma hora e pouco depois elas estavam prontas, recolhemos todas na esperança de terminar a viagem sem perder nenhuma meia, e nos dirigimos à bicicletaria. Eu queria dar uma geral na Angelana, Lewis precisava comprar uma bermuda de ciclista nova. Deixei a bike nas mãos dos profissionais e, enquanto esperávamos, paramos num café e comemos mais. Bike pronta, fomos para um shopping, eu comprei uma capa para o Kindle (que já apanhou um bocado nessa viagem, para a minha tristeza), Lewis comprou spray de pimenta para afastar os ursos que ele acha que podem nos atacar no caminho. E daí a gente comeu mais um pouco.

Essa vida de ciclista nos transformou em dois mortos-de-fome, que não fazem senão pedalar e comer. Na falta de pedal, só comer.

De volta ao apartamento, Lewis remendou as câmaras de pneu que furou nas últimas semanas, e eu fui tentar colocar o blog em dia. Tive apenas 50% de sucesso, porque bateu a canseira e tirei um longo cochilo. Desculpe, leitores, a mente quer, mas o corpo não deixa.

Quando o dono da casa voltou, ficamos de conversa furada enquanto aprontávamos a bagagem toda para retomar a estrada no dia seguinte. Rick perguntava pra onde a gente ia, ficava cada vez mais empolgado, olhava os lugares no Google Maps, até que virou e perguntou: “Meu, queria tanto pedalar com vocês até Beckenridge! Por que vocês não tiram mais um dia de folga aqui, e sexta, que eu não trabalho, eu parto com vocês?”

Tchan. Na hora eu disse que não dava, que nossa programaçnao é apertada, que não podíamos perder mais um dia, a gente tem passagem marcada pra voltar para nossos países. Nosso host ficou frustrado. Mais tarde, conversei com Lewis sobre isso, a gente considerou que o cara é legal e estava tão empolgado, a gente podia ficar mais um dia e levá-lo com a gente. E não seria nada mau ficar de folga mais um dia. Fomos dormir certos de que teríamos mais um dia em Pueblo, já planejando de que maravilhas da civilização a gente ia usufruir dessa vez.

Só que, cinco da madruga, quando Rick acordou e eu disse pra ele que a gente topava, ele não topou. Eu na esperança de voltar a dormir sem hora pra acordar de novo, tive que me resignar a seguir meu próprio plano original, colocar o uniforme e sair do apê antes das seis, junto com o dono. Ainda assim agradecemos imensamente, ele é superlegal mesmo. Não deu, não deu. De volta com a dupla estrangeira na estrada.

Horizonte com montanhas

Montanhas reduzindo o horizonte, que saudade eu tinha de vocês

E hoje foi a volta também das montanhas em nosso caminho. Dessa vez deixei de ser ingrato, encaro as subidas de bom humor, sabendo que muito pior é subida nenhuma. Afinal, depois de uma subida sempre tem uma descida, mais cedo ou mais tarde. E esses lados do Colorado, beirando as Rochosas, com largos vales e montes amigos, cria paisagens de cair o queixo. E tenho a impressão que só vai melhorar. O dia hoje foi em grande parte subida, mas as estradas desse lado do país, mais modernas, têm inclinações menores, então o sofrimento é bem inferior. Já estamos numa altura maior que a maior altura da costa Leste, e a sensação de esforço é bem pouca.

O ponto final hoje foi na cidadezinha de Guffey. Que vai entrar nos registros dessa viagem como a mais bacana e esquisita até agora. Superpequena, com sessenta e poucos habitantes, ela é habitada por um tal de Bill. Esse Bill (que não tivemos o prazer de conhecer) junta carros velhos, ossadas de cavalos e relíquias variadas do Velho Oeste ao redor de sua oficina mecânica. Figuraça local, desde que a rota foi criada em 1976 que ele hospeda os ciclistas da rota. Ele não estava, mas seu empregado/comparsa/whatever estava, e abriu para a gente as cabins rústicas nas quais hospedam os ciclistas. O banheiro é uma fossa sanitária, o chuveiro fica num barracão em cima de uma banheira quebrada (mas com água quente!), as portas das cabins dão para um viveiro de pavões e vários carros sucateados. Separadas, essas características geram desconforto, mas todas reunidas, provocam uma sensação de estar no lugar mais bacana que já se viu. É pra trombar em esquisitices como essas que a gente viaja, afinal de contas.

Carroça Cadáver

Esqueletos de cavalos e carroceiros, pra dar um toque especial pra cidadezinha

Cabin

Nosso quarto da noite, uma cabin que poderia ser legítima mas na verdade é feita de madeirite.

E, para uma cidade tão pequena, as opções de entretenimento são muitas. Além de um bar tem um restaurante/grill, e ainda um café que não fica aberto à noite. Depois de recompostos da viagem, Lewis e eu fomos para o restaurante jantar e recarregar as baterias – próprias e dos celulares. Assim que sentamos, chegou um trio que começou a tocar música bluegrass, ou seja, a legítima música dos faroestes. Comemos, bebemos, tomamos mais algumas, o trio abriu o microfone e uma mulher começou a cantar a capella. Eu fiquei com vontade de cantar, mas fiquei sem graça. Daí o trio voltou, cantaram mais algumas canções, e, pra finalizar, tocaram uma versão de “I Will Survive”. Eu não resisti, comecei a cantar junto, eles me passaram o microfone, e assim lá estava eu tentando lembrar a letra na frente dos nativos.

Jam session no bar

Dá uma olhadinha na cifra no celular rapidinho!

Depois que começaram a desmontar o equipamento, eu pedi pra brincar com o violão e eles deixaram. Lewis também toca, e a gente ficou revezando o uso do instrumento enquanto o povo do trio reclamava que a gente devia ter ido tocar antes, e não agora que todo mundo já tinha ido embora. Eu toquei todas as músicas que lembrava, Lewis ficou exibindo os solinhos que decorou, depois caçou umas cifras no celular e assim a gente acabou cantando juntos “Rolling In The Deep”, da Adele, que não está no meu repertório mas com certeza vai entrar.

Saímos do restaurante depois das onze, quando já devíamos estar dormindo faz tempo. Mas sem remorsos. Éramos unânimes: essa tinha sido a noite mais supimpa da viagem até agora. A gente tem que ter flexibilidade pra aproveitar os eventos bacanas que caem no nosso caminho.

One Response to “Velho e Seminovo Oeste”

  1. Rick Galvez

    I am jealous!! If I could have gone with you, I would have hit the road. Unfortunately I am out of shape and would have slowed you down. As it turned out (your presence here must have brought me luck!!) I went to work on Wednesday morning to the news that I have been promoted (I am part of the senior staff now) and now I have to work on Fridays also, so I would not have been able to go even if I had wanted to. But I do appreciate the offer. It is clear for the world to see that you and Lewis are quality people on a worthy quest that not many would even attempt. Keep on pedaling and may the good tailwinds be always with you, may your guiding light be strong, and may the Lord accompany you on your journeys.