View Larger Map
Os EUA têm esse atraso de utilizar milhas, onças, galões, polegadas, graus Fahrenheit, etc. Além do sofrimento inútil de ter que multiplicar unidades por 128, 1760 e 36, gera um sofrimento maior por simplesmente criar expectativas maiores.
Explico: o ser humano gosta de marcos em números redondos. Eu, que cresci com o sistema métrico, acho fazer 100 km lindo, quando faço mais que 100 km já me considero super superador. Mas pros gringos, 100 km são meras 62 milhas, um número sem graça. Os ciclistas que fazem a trilha todos têm a fixação por fazer 100 milhas. Mesmo a pequena Bianca Derka. Ela olhava para o pai e dizia “antes de acabar a viagem, um dia a gente vai fazer 100 milhas, né pai?”. Ele, num misto de orgulho e temor pelo sofrimento antecipado, concordava.
Lewis queria fazer pelo menos um dia com mais de 100 milhas. E, suspeito, ainda quer fazer mais. No nosso planejamento, resolvemos matar essa lombriga no dia que nos deixaria em Pueblo, Colorado. As razões eram várias: Pueblo é oficialmente o marco da metade do caminho; é uma cidade com mais de 100 mil habitantes, raridade na jornada; e tínhamos uma alma caridosa que tinha concordado em nos hospedar por duas noites. Se é pra fazer um esforço inédito, que seja antes de um dia de descanso.
Saímos do motel bem cedinho e voltamos para o posto de gasolina, único lugar onde conseguiríamos tomar um café da manhã por ali. E nem nos demoramos, que o dia seria longo. Sete e pouquinho estávamos de volta na nossa velha amiga estrada 96, sim, ainda a mesma, que ainda nos guiaria o dia inteiro até acabar-se em Pueblo.
Pelo menos, a essa altura do Colorado, ela deixa de ser chatíssima e começa a ter algumas curvas, porque o relevo já começa a se tornar mais criativos e começa a se elevar em montes e colinas, se aquecendo para as Montanhas Rochosas. As beiradas floridas da estrada permanecem, o horizonte começa a se tornar mais bonito, a temperatura começa a baixar… a qualidade da pedalada só melhora.
O combinado era fazer três paradas, mais ou menos a cada 25 milhas, sem demorar muito pra não chegar tarde demais. A primeira, num povoado ínfimo com um posto de gasolina imundo, deu certo. Já a segunda, em Olney Springs, falhou: a cidade nem era tão minúscula, mas por alguma razão que a crise econômica deve explicar, o mercado e o restaurante tinham fechado. Fon. Tínhamos estoques de água e barrinhas, mas um Gatorade a aquela hora viria bem a calhar. Não houve remédio senão seguir e aguardar ansiosamente pela próxima parada.
Para nossa alegria, o mercado da terceira parada, Boone, continuava firme e forte. Cansados, acabamos fazendo uma pausa mais longa do que o ideal, bebendo litros de Gatorade e comendo Snickers (não tinha uma barra energética decente, também tá querendo o que?). Quando conseguimos levantar as carcaças para encarar a última fase do projeto superação, começou a relampiar. Nuvens negras se viam no horizonte. Chuva não chega a ser um problema, mas tempestade não é legal, e com raio então, melhor estar em lugar coberto do que na estrada. Eram quase cinco, o mercado ia fechar, nos apontaram para um bar dois quarteirões para trás.
O bar parecia saído de um filme do Tarantino sobre o Novo Velho Oeste. Chão e paredes de madeira, uma jukebox cansada que tocava hits country, barman de descendência mexicana limpando copos levemente ensebados. Alguns locais matavam o tempo. Enquanto a chuva batia sem força do lado de fora, pedimos cervejas para comemorar a chegada do meio do caminho. O barman lembrou de quando dois coreanos, também ciclistas, pararam por lá e beberam litros e litros de cerveja; nós sugeríamos que ele colocasse uma placa decente na rua principal, porque a gente tinha passado reto do bar quando chegamos. Depois de uma hora à toa, falei pro Lewis que era melhor a gente entrar na chuva e tomar rumo logo, pra não chegar em Pueblo de noite. Os raios já tinham passado. Então lá fomos.
Cem milhas pode ser uma conquista importante na vida de um ciclista, mas não é nada divertido. O dia parece que não acaba nunca, o corpo reclama, a cabeça se recusa, tudo errado. E nesse caso, pior ainda: chegar numa cidade de 100 mil habitantes é bem distinto de chegar nas vilinhas que temos visitado até agora. Você chega na cidade, e daí ainda tem que pedalar e pedalar quilômetros até encontrar o endereço onde vai ficar. O sol já se escondia quando chegamos no prédio do Rick, nosso host pelos próximos dias. Quilometragem: 180 km.
A alegria de ficar na casa de alguém que se oferece pra te receber é que te tratam melhor que hotel cinco estrelas. Rick tinha comprado janta pra gente, preparou smoothies de banana com morango (“vocês precisam de carboidratos!”), ofereceu tudo da geladeira, liberou toalhas… E conversou bastante. Ele é um cara muito estudado e inteligente, contou como trabalhava em algum projeto secreto do governo relacionado à indústria de armamentos, mas não podia explicar muito porque, afinal, era secreto. Que emocionante. Ele entrava às seis e meia, saía pra trabalhar às 5:45h da madrugada, então tinha que dormir às nove. A gente ainda se segurou o quanto pôde antes de ir dormir, mas não muito. A canseira era excepcionalmente grande. O consolo é que não tinha hora pra acordar no dia seguinte.
E viva o sistema métrico.



