Estella, 16:55h
Agora sim eu sei porque você pode passar pela porta lá em Santiago e ficar sem pecados. Com certeza você já pagou todos eles no caminho.
Antes de dormir ontem fui num restaurante e pedi um menu del peregrino. Veio uma salada até bacana, uma chuleta com batata frita gordurosas, e um sorvete de limão duro, regados a água. Por acachapantes 9 euros. Assim não dá.
Depois me reuni com la juventud no quintal do albergue, e tentei acompanhar as conversas. Tem gente de montes de países aqui, dá pra falar espanhol, francês e inglés, o problema é a ginástica mental que tem que fazer pra responder na língua certa.
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Já estava todo confiante do meu preparo físico quando parti esta manhã. Mas logo no começo da caminhada senti qual seria o drama do resto do dia. Estão construindo ou ampliando uma rodovia que passa pelo caminho em vários trechos, então os responsáveis arranjaram para os peregrinos vários “desvios provisionales” que o aumentou em cinco quilômetros de subidas cruéis. Fui pegando raiva de cada placa de desvio que eu via no caminho.
Num desses, no alto de um morro, começou a ventar ferozmente, e eu, praticamente um barco a vela com minha mochila nas costas, tinha que compensar pra não ser empurrado pro lado.
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Outra peculiaridade do comércio aqui está me irritando. Os correios só abrem das nove às onze. Se você acontece de estar na estrada nesse horário ou numa cidadezinha que não tem correio, azar o seu. Eu não consigo encontrar um correio aberto, não tenho como mandar os postais que já comprei, a situação é complicada.
Na primeira vila por que passamos hoje, Mañeru, tinha uma tiazinha que vendia café da manhã. Fui lá perguntar o que tinha, mas nada me agradou muito, então perguntei se tinha um correio. Ela me perguntou o que eu ia querer, e eu disse que nada, só queria saber onde era o correio. Ela me respondeu por que raios então eu tinha feito ela dizer o menu inteiro se só queria saber isso. Mas explicou onde ficava. O povo aqui fica ofendido muito fácil.
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Minhas meias não secaram de ontem pra hoje, e tive que levá-las penduradas na mochila com um prendedor, junto com a cueca que também estava úmida, para que fossem secando no caminho. Logo antes de chegar em Mañeru a cueca e uma das meias caiu e eu não notei; felizmente a Ana, da Espanha, as pegou pra mim, deu um grito e veio entregá-las para seu constrangido dono. Então passei a carregá-las penduradas na frente, onde poderia vigiá-las.
Pelo meio da jornada meu pé esquerdo começou a doer como se eu o tivese torcido, o que, pelo menos pelo que me lembro, não aconteceu. Ele reclamava a cada passo, mas eu expliquei pra ele que não adiantava, que eu não ia parar até chegar em Estella. Ele não foi muito compreensivo e ficou resmungando o tempo todo. Nos últimos quilômetros me peguei naquele esquema “rio, rio, rio, rio pra não chorar”, era desesperador.
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Cheguei fétido e miserável no albergue em Estella, foi uma alegria num mundo de água quente tomar banho. Fui deitar no beliche e notei uma bolha gigantesca entre o dedão e o segundo dedo do pé esquerdo. Passei agulha e linha por ela sem dó.




