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Hora nova, estado novo


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Na frente da placa que indica o novo fuso horário

Dessa vez pelo menos tinha placa pra comemorar.

Diz a lenda que a frase mais poderosa que existe é “This too shall pass”, ou “Isso também vai acabar”. Tudo que é bom acaba, tudo que é ruim acaba, e pode não parecer, mas felizmente o Kansas também acaba. Tudo bem, a Virgínia levou uma eternidade pra passar também, mas é mais porque a gente gasta quase duas semanas atravessando a Encabaçadínia em zigue-zague até trocar de estado pela primeira vez e entrar no Kentucky. Já o Kansas passa em uma semana se você se dedicar, mas pelamor, é uma dedicação tão instigante quanto se dedicar a contar grãos de areia. Hoje, finalmente, chegou o dia de trocar de estado.

A estrada ainda é a mesma 96 dos últimos dias, naquela mesma linha reta eterna. Antes de cruzar a divisa do estado, nos esperava outro marco, mais uma mudança de fuso horário, nos limites entre um condado e outro. O Brasil é mais prático nisso, muda de fuso horário na fronteira do estado, os EUA ficam com tecos de estado em fusos diferentes do resto. Pelo menos esse tinha uma plaquinha indicando a mudança de fuso, atração turística que a mudança de fuso anterior não tinha.

Quando se aproxima da fronteira com o Colorado, há uma plaquinha dizendo “Deixando o Kansas! Venha novamente!”. Tudo que eu conseguia pensar era “não, obrigado”. O que provavelmente será verdade, devo dizer que Kansas não me deixa saudade. Poucos metros mais pra frente, uma placa de madeira gigante dizendo “Bem-vindo ao colorido Colorado”, o que já dá uma alegria só de ver. Dorothy, você queria voltar pro Kansas, mas porque sua família morava lá, senão, tenho certeza que ia ficar em Oz.

Entrando no Colorado

Colorado, seu colorido!

A diferença de um estado pra outro nota-se imediatamente. O terreno não muda muito, mas por alguma iniciativa inspirada as beiras da estrada são cheias de florzinhas. Dá pra ver que é algo de propósito, porque são as mesmas duas ou três flores na estrada inteira. Não devem ter plantado uma por uma, mas jogado as sementes nas beiradas, o que vingou, vingou. Que bem faz pra vista esse toquezinho de cor, no entanto. Já dá mais disposição pra seguir na mesma linha reta, que segue ininterrupta por um bom tempo ainda. Outra boa surpresa são as plantações de girassol. Um mar de girassóis, dos dois lados da pista, se estendendo até onde alcança a vista.

Também nota-se outro elemento da paisagem que é bem menos feliz e, espero, seja temporário. Já começava no fim do Kansas, e continuou no Colorado: a seca. Quantas e quantas pontes eu cruzei que deviam ter riachinhos correndo sob elas, mas não tinham nada, apenas mato que avançava sobre o leito sem água, ou às vezes uma vala vazia mesmo. É bem triste. Paramos pra almoçar numa cidadezinha chamada Sheridan Lake, fundada ao lado do tal lago Sheridan. Não era um lago pequeno, pelo contrário. Mas no lugar onde ele deveria estar, apenas o buraco vazio pedindo água. Mas não precisa se preocupar com o aquecimento global, viu.

Girassóis a perder de vista

Girassóis a perder de vista

Chegamos em Eads já no final da tarde, sofrendo um pouco com o calor. Pretendíamos seguir mais um pouco, pra uma cidade que tinha um camping, mas achamos por bem nos poupar um pouco e passar a noite num motelzinho mequetrefe dessa cidade xinfrim. O dia seguinte seria longo. Ocupamos o quarto, tomamos banho pra virar gente de novo, e atravessamos o estacionamento para chegar no único restaurante. Bobeamos: já eram oito e quinze, e eles só serviam até as sete. Se demos mal. Tivemos que andar mais um pouco até a loja de conveniência do posto de gasolina, e lá comprar um triste jantar de amendoins, batatinhas, biscoitos e outras bobagens.

One Response to “Hora nova, estado novo”

  1. debora murbach

    Foi tão ruim assim, o Kansas? Não rolou nem um rock’n’roll em “Kansas City here I come”, por exemplo? Brincadeirinha…. adorei sua foto de capacete/camera. E toca jantar antes que os passarinhos durmam! Beijos e boa viagem.