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Friozinho em linha reta


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Estrada tão chata, vazia e reta que dá pra sentar no meio.

Estrada tão chata, vazia e reta que dá pra sentar no meio.

Cinco da madrugada. O despertador toca. Eu olho pra fora da barraca, um breu de tudo. Sonado, eu penso “ai caralho, que frio”, caço minha fantasia de ciclista do dia na barraca, pego o casaco que me serve de travesseiro e visto, e saio pro primeiro xixi do dia tremendo. “Ô friaca, que dureza”. Daí uma sinapse bateu com a outra, e eu me dei conta: “está FRIO!”. Até então, toda manhã estava fresquinho, dava pra levantar do colchonete só de regata – ou seja, presságio de dias calientes. Mas minha brejeirice brasileira não conseguia encarar essa madrugada sem o casaco. Gritei pro Lewis: “meu, tá frio! Vamos dormir mais uma hora?”. Ele, que não tinha saído da barraca ainda, respondeu imediatamente com a alegria de quem estava pensando a mesma coisa: “vamos!!”. Voltei pro saco de dormir na fantasia de ciclista mesmo, e dormi até as seis.

Chegamos na estrada que vai nos levar direto ao Colorado, a rota 96. Uma estrada que atravessa metade do Kansas em linha reta. Eu, que no sobe-desce da Virgínia não via a hora de ter horas de planuras no Kansas, agora tento não reclamar. Mas é dureza. A paisagem não muda, por mais que mude. É sempre uma plantação à esquerda, outra à direita, com horizonte traçado a régua láááá longe. Você se sente dentro de um desenho da Hanna-Barbera, com o fundo se repetindo sem parar.

Estrada 96, no Kansas

Passa a régua.

Nos resta tentar passar o tempo. Pedalando em linha reta, eu conto no mapa as estradas de terra que cruzam a estrada em que estou, e fico conferindo quantas faltam. Outra brincadeira que ajuda a entreter é tentar manter a bicicleta em cima da faixa branca da estrada. Se estivesse sem vento pelo menos a gente conseguia acelerar e acabar com isso logo, mas o tradicional vento sul (que tanto fez falta no dia anterior) continuava a toda, então você tem que ficar segurando a bike pra não cair da estrada.

Hora de almoçar, conseguimos encontrar um restaurante tocado por uma família mexicana, que estava mostrando os jogos olímpicos na TV. Que alegria, estou perdendo menos dos jogos do que eu pensei. No mesmo restaurante estavam almoçando três motoqueiros, que haviam estacionado as Harleys na frente das nossas magrelas. Três tiozões, calças jeans e botas de couro; descobrimos depois de um pouco de conversa que estavam indo para algum evento de motocas. Ficaram impressionadíssimos que a gente estivesse viajando assim, pelas próprias pernas, a meros 20 km/h. A gente pegou mais água, espalhou protetor solar e vestiu os óculos escuros. Enquanto isso, os três olhavam em volta pensando em que motel eles iam encerrar o dia, porque “já tinham feito bastante esforço”. Começamos a pedalar, um deles disse “uau, que força! Pena que depois de tanto tempo em cima do selim, não vão conseguir fazer filhos”.

Motoqueiros e ciclista

Moto grande, pinto pequeno

E você não consegue ver seu pinto quando toma banho por conta da pança, pensei de volta, mas já estava longe.

Seguimos pedalando pela 96, num caminho tão divertido quanto pegar fila no Poupa-Tempo. Horas depois, chegamos em Leoti, onde esperávamos conseguir tomar banho na piscina municipal. Mas a gente acabou enrolando mais do que devia nas pausas, e chegamos no parque onde ficava a piscina às sete e dez da noite. É verão, estava de dia ainda, mas a piscina fechava às sete. Que desolação, será que teremos que ficar sem banho? Tomaremos banho na torneira? Lewis já estava chatiado.

Olhei para as casas em volta, vesti a cara-de-pau que anos de prática de cantadas e foras me renderam, e bati numa casa na esquina. Uma velhinha me atendeu. Fiz uma carinha de bom moço, exausta e poeirenta, expliquei que éramos dois estrangeiros pedalantes cruzando o maravilhoso país deles, íamos tomar banho na piscina mas chegamos tarde demais. Será que dava pra gente tomar banho na casa dela, rapidinho?

“Eu moro sozinha…”, ela respondeu. “Tudo bem, não tem problema”, eu disse com um sorriso triste mas compreensivo. “Espera um pouco, vou chamar minha nora pra ficar aqui comigo”, ela decidiu, e assim pudemos nos transformar novamente em seres civilizados e limpinhos. Depois de deixar de ser sapo, me sentei todo príncipe na sala dela e fiquei conversando enquanto Lewis tomava banho. Nessas ela me contou que era viúva, o marido dela tinha servido cinco anos na Segunda Guerra Mundial, e que quando eles namoravam ela tinha ido visitá-lo no navio de guerra em que ele ficava. E que era horrível, os garotos viviam tristes, cinco anos no mesmo navio, no mar, no meio do nada. Serve pra colocar as coisas em perspectiva quando se está pedalando por apenas um mês.

2 Responses to “Friozinho em linha reta”

  1. Kika

    “Você se sente dentro de um desenho da Hanna-Barbera, com o fundo se repetindo sem parar.” Isso me lembra mais o jogo de Enduro do Atari, em que a paisagem era sempre a mesma…

    • Marcio Caparica

      Putz, é verdade! Vou guardar essa imagem pra se tiver a infelicidade de cair nesse purgatório na terra de novo. :-) Saudade!