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O livro que eu e Lewis usamos de referência pra viagem (geralmente pra saber quantos dias à frente da programação deles nós estamos – no momento, já adiantei 5 dias), na descrição do trecho de hoje, dizia que o trecho inicial é uma estrada para o norte, e, como os ventos do Kansas costumam soprar do sul, a gente “voaria” nesses quilômetros.
Ah, se o mundo obedecesse os livros. À noite tinha ameaçado uma tempestade, com relâmpagos e tudo, mas não chegou a chover. O tempo estava mudando. E, para nossa infelicidade, isso queria dizer que o tradicional vento sul resolveu tirar uma folga e deixou o vento norte ocupar seu lugar, todo empolgado. O dia começava a clarear quando chegamos no trecho de estrada a que o guia se referia, e assim que viramos para a direita percebemos imediatamente que as próximas horas não iam ser nada divertidas. O vento soprava furiosamente contra a gente. Quase sem parar. Às vezes ele cedia um pouco pra retomar o fôlego e mostrar como seria muito mais saudável percorrer essa estrada se estivesse pelo menos sem vento. E daí voltava com toda a força e crueldade.
Fiquei puto, eu admito. Queria meu vento a favor que tinham me prometido. O problema do vento é esse: ele pode vir de todas as direções, e você só pode seguir uma; de todas as direções possíveis que se pode ventar, apenas uma é útil, a maioria atrapalha, e a que é oposta a você é uma tragédia. Na roleta da rosa dos ventos, fomos sorteados com a oposição total.
E assim não restava solução além de baixar a marcha, encolher o corpo e ir pedalandinho por algumas dezenas de quilômetros. Uma hora que eu estava descendo um dos minimontes do Kansas (que têm inclinações menores que rampas de calçada, mas se estendem por centenas de metros) eu experimentei parar de pedalar pra ver o que acontecia. Descida, certo? A bike começou a desacelerar. Acho que se eu levasse o experimento até o fim, ia começar a ser empurrado morro acima.
Depois que eu introjetei que não ia ter a felicidade do único vento a favor garantido da viagem, começou a bater a euforia ancestral do homem que luta contra os elementos. “Você não vai me vencer, Vento Norte! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH!!!” eu gritava contra a parede de ar que tentava atravessar. Comecei a provocar os elementos, cantando “Colors of the Wind” e Verônica Sabino (“Foi um vento que passou / que te trouxe e te levou”), oferecendo aquele refri chamado Noku para o vento, brincando de Jornal Hoje (“Que deselegante! Que inconveniente, esse vento!” “É verdade, Sandra!”), seguindo sempre lentamente. Depois de duas horas contra o vento, cheguei em Rush Point, onde voltaria a rodar para o oeste. “IN YOUR FACE, VENTO NORTE! Eu cheguei, lalalalala! IN YOUR FACE!!” Se eu tivesse forças, faria um bundalelê.
Quinze minutos depois Lewis chegou, desconsolado. Ele queria tomar um café e descansar um pouco, mas o único restaurante do buraco em que estávamos só abriria às dez e meia. Eram nove e quinze, eu não estava afim de esperar tanto. Já tinha descansado um pouco e me virado com algumas besteiras da máquina de refrigerante do posto de gasolina do lado. Mas ele não tinha tomado café da manhã ainda. Então falei pra ele ficar lá e a gente se encontraria em Ness City.
Entrei na rota 96, novamente numa linha reta de leste para oeste. Minha nêmesis, o vento norte, não se dava por vencido, ficou o tempo todo passando pra dar tchauzinho, cheio de vontade. A bike sendo empurrada para a esquerda, várias vezes eu tinha que me inclinar para a direita para compensar a força do vento. Cansa menos que vento na cara, mas ainda cansa um monte.
Cheguei em Ness City no começo da tarde. O parque da cidadinha seria o ponto final do dia. Ele me reservava uma novidade: dessa vez, o campo de baseball estava sendo usado para um campeonato entre times infantis. Dia de sol, pura alegria para as crianças, que corriam de um lado para outro nessas regras misteriosas do baseball que permanecem um enigma para mim. Eu sentei na arquibancada, na sombra, feliz que o dia tinha terminado. Lewis chegou meia hora depois.
Tarde adentro, o movimento não arrefecia, a criançada brincava no parquinho e os pais faziam churrasco no gramado. Lewis deitou em cima de uma mesa debaixo de um telhadinho e começou a dormir do jeito que tinha chegado. Tomei banho, depois montei Iracema e coloquei a capa impermeável nela pela primeira vez, porque era bom ter um pouco de privacidade. A essa altura, os pirralhos comentavam entre si, preocupados: “tem um tio desmaiado em cima da mesa!”. Felizmente não demorou muito pra ele acordar e elas poderem se preocupar com outras coisas. Depois de tudo guardadinho, tirei eu um cochilo dentro do meu iglu de poliéster; a criançada usava minha barraca pra brincar de esconde-esconde. Legal estar cercado de gente, pensei antes do primeiro ronco.



