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Num sol de quase dezembro


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Na estrada antes do sol nascer: sucesso

Na estrada antes do sol nascer: sucesso

E hoje, pela primeira vez nos 18 dias em que estamos viajando juntos, o despertador de Lewis tocou e ele não apertou o botão snooze. Quatro e dez da madrugada, breu total, e nós dois nos movimentando pra montar as bikes e começar a viagem do dia o quanto antes. Sucesso. Acho que passar mal de calor convenceu meu coleguinha britânico de que vale mais acordar cedíssimo pra pedalar sem sofrimento que meia hora a mais deitado no colchonete.

Saímos do parque cinco e meia, e ainda escuro total. Mas pelo menos estava fresquinho. Nos zigue-zagues pelas estradas em linha reta do Kansas, o plano hoje era subir um tanto pro norte e depois seguir direção oeste até a cidade de Newton. Estando no meio do sertão, começa-se a sentir os problemas de atravessar as regiões onde Judas perdeu as meias: lugares para se comer ficam cada vez mais raros. Pedalamos quase duas horas até chegar na primeira cidade que prometia ter um restaurantezinho. Mas FON, na cidadícula de três ruas, o estabelecimento só abria das onze às duas da tarde. Eram oito e pouco, nos demos mal.

Nasce o sol no sertão

Nasce o sol no sertão

Mas nessa hora você tem que ativar a cara-de-pau. Vi uma movimentação numa igreja católica quase na saída das três ruas, cheguei perto, eram dois caras consertando o telhado da igreja. Pedi pra usar o banheiro, que estava prestes a ter que fazer uso do matinho. Eles deixaram, e começaram a conversar com Lewis, e conversa vai, conversa vem, nós muito simpáticos, eles também, ganhamos águas, um bolão de canela e muita admiração dos telhadeiros. Mais uma vez, as pessoas são boas, é só permitir.

Coluna de nuvens

E aí, chove ou não chove?

Retomamos a rota pro norte e encontramos dois cinquentões vindo na outra direção de bike, com aquele jeito que permite reconhecer de longe que estão atravessando o país também. Paramos, felizes em trocar figurinhas, eles contaram do que vinha pela frente, a gente recomendou a Katy Trail e o albergue mais maravilhoso do mundo em Hindman, e cada um seguiu em sua direção. O tempo nublado com jeito de chuva, dez minutos depois começou a ventar de um tanto que, estando no Kansas, já esperava vir uma casa voando pelo céu, devolução de Oz. Obviamente, vindo do norte pro sul, ou seja, uma hora pedalando contra o vento. Caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento é muito bacana pra MPB, mas pra ciclista é terrível. Você pedala, pedala e parece que não sai do lugar, faz uma força digna de 25 km/h mas o velocímetro só mostra 12. Chega a ser deprimente.

Mas não tem aflição que não acabe, e por fim chegamos em Cassoday, mais uma cidade minúscula que tem o orgulho de ser a capital da galinha sertaneja do mundo. Dessa vez o único restaurante estava aberto. Sentamos, esperamos dar onze e meia e traçamos o buffet de almoço. Exaustos depois de tanto vento, eu e Lewis quase dormimos em cima da galinha frita. A vontade que dava era parar e acampar lá mesmo, mas o vento que soprava lá fora me fazia suspeitar que a barraca não ia se segurar no lugar e eu ia virar figurante do Twister.

Cassoday, Prairie Chicken capital of the world

Cada cidade se orgulha do que pode…

Ficamos ocupando o restaurante até fazer um pouco de digestão e o tempo começar a esquentar, o que reduziu bem o vento. Respiramos fundo, tomamos um gueitô e partimos pro oeste. E não é que foi bacana? A linha reta pra Newton era megaplana, tudo quase sem vento, a temperatura ainda bem razoável, deu pra acelerar e seguir feliz pelos 60 e tantos quilômetros finais do dia. Até porque não tinha muito por que parar, 60 e tantos quilômetros sem um boteco sujo de beira de estrada que seja, onde já se viu.

Caminho encerrado às três da tarde, em mais um parque bacanudo com piscina. Deu até pra brincar de férias: tirar a poeira do corpo no chuveiro e daí dar um tibum. Já disse que é de graça? Pois então. Acordar cedo rende. Deu pra nadar, ir jantar, comprar café da manhã pro dia seguinte, voltar pro parque, tirar um cochilo, pular na piscina de novo, e botar o blog em dia. Lewis diz que a previsão pra amanhã é que o vento seja a nosso favor. Vai São Pedro, colabora com a gente, que daí a gente bate nosso recorde de quilometragem.