Cheque especial

Num dos livros do Neil Gaiman, Crowley, um demônio que vive na Terra desde a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, afirma que o homem é muito melhor em inventar coisas diabólicas e sem solução do que qualquer habitante oriundo das profundezas infernais. Eu tenho certeza de que um dos melhores exemplos disso é o cheque especial.

Não importa o quanto você se esforce, você acaba usando-o. E você jura que é a última vez e que mês que vem você vai segurar as pontas pra não cair no vermelho de novo. Triste ilusão. Na realidade, em geral se acaba usando quanto se tem de limite. Eu sei disso porque usava todo meu limite de duzentão quando tinha conta universitária. Agora eu tenho uma conta de gente grande, que, para meu desgosto, tem limite maior, que já foi usado inteiro várias vezes. Nada mais triste do que seu salário cair e mal cobrir o que você devia pro banco.

Volta e meia eu tenho surtos de anotar num caderninho (comprado especialmente pra isso) tudo o que eu gasto. Em geral não dura mais que algumas semanas. Até porque nunca a conta dá certa, com encargos do banco, CPMF, etc. e tal, daí o que já é mala de se fazer além de tudo fica frustrante. E, várias vezes, você esquece de alguma despesa, computa tudo errado, gasta mais que devia, e, quando vai ver, já está lá negativo de novo.

Mês passado, por N razões, eu estava no bico do corvo. Tão afundado no poço escarlate que não tinha como tirar dinheiro porque não ia sair nada mesmo. Fazendo valer o máximo possível a existência desmonetarizada que a Editora possibilita, me transportando só com vale transporte, comendo só no crachá. Tentando voltar antes de duas horas pra pagar uma condução só no bilhete único.

Tinha esquecido de pagar o telefone de um mês, e aguardava cair o pagório pra pagar essa e a atual, quando cortaram meu telefone. Não podia nem ler e-mail mais em casa. Nada mais deprimente.

Quarta-feira, com uma hora entre um compromisso e outro, morrendo de fome, resolvi tirar um saldo pra ver se dava pra espremer dérreal da sangria desatada que era minha conta.Fazia três semanas que não olhava pra minha conta pra não ficar deprimido. Longe dos olhos, longe do coração. Mas estava com tanta fome que estava desposto a comer uma coxinha com sabor de dívida. Entrei no banco sob os olhares cobradores dos caixas eletrônicos, me sentia mais e mais inadimplente a cada tecla pressionada, esperei segundos até imprimir o saldo, e… tinha cenlão na minha conta. Eu tava no azul.

O salário não podia ter caído ainda, só podia ser fraude. Tirei um extrato pra descobrir o que havia acontecido. E daí tive mais uma das experiências novas da vida adulta. Descobri que tinha caído minha restituição do imposto de renda. Dinheiro mágico assim do nada.

Fiquei tão feliz por não estar mais devendo nada que quase comprei uma revista francesa em comemoração. Mas tive que conter meus planos perdulários. Qualquer comprinha deve ser evitada até seus planos acontecerem, dizia eu. Comi um salgadinho sabor economia. Dois dias depois caiu o salário, e paguei tudo que devia à Telefónica, à Eletropaulo, ao condomínio, à loja de sapatos, e ainda sobrou uns troquinhos que estou tentando fazer durar o máximo possível. Segundo minhas contas, ainda devem restar vinte na beirada da conta corrente.

Correção. Fui conferir no site do banco. Tinha esquecido o pagamento do sapateado. Estou no vermelho outra vez.