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O Google Maps tem uma opção que monta rotas para bicicletas, e em geral ela funciona bem. Mas existe uma razão por que eles frisam que essa opção ainda está em beta: a rota pode te levar pra uma superfurada. Hoje, por exemplo. Acordamos cedinho, ávidos para retomar o caminho no asfalto. Depois da trilha, o objetivo agora é voltar para a rota oficial, e para isso montamos o caminho no Google Maps. Logo fora da cidade, nossa rota indicava um atalho por uma estrada por dentro de um parque. Entramos na estrada, que logo começou a deteriorar, primeiro com asfalto quebrado, depois com estrada de terra, até esbarrarmos num sinal de “fim de estrada”. E uma passagenzinha por onde dava pra passar as bikes atrás da placa.
Estávamos lá tentando entender quando chegou um cara no outro sentido, passando pela passagenzinha. Essa estrada continua? Dá pra seguir de bicicleta? “Dá sim, não é muito fácil, mas dá”, ele respondeu. “Só cuidado aí pra não furar o pneu.” Ele virou as costas e foi embora. Dez segundos depois, Lewis avançou pela passagenzinha e PFFFFFFFF, uma viga pontuda escondida no chão furou o pneu de trás dele.
O bom humor foi pras cucuias, mas ele respirou fundo e trocou o pneu com muito mais habilidade do que eu teria se fosse fazê-lo na minha. Meia hora depois, pneu trocado, apesar de já achar uma boa ideia voltar atrás, ignoramos o bom-senso interior, avançamos um pouco e demos com o fim da estrada, e uma ponte meio metro abaixo da estrada, de alguma encarnação anterior da rodovia. Ainda atravessamos a ponte, mas do outro lado a “estrada” era uma estradinha de terra tão cheia de mato que até Diadorim pensaria duas vezes antes de enfrentar. Google, seu oráculo falhou. Voltamos pra estrada principal, tomamos o caminho mais comprido, porém asfaltado, e seguimos em direção ao Kansas.
O caminho ainda não estava nas planuras prometidas. O dia foi passando e ficando cada vez mais quente, com morros consideráveis, e então deu pra computar que, tão importante quanto a falta de ladeira, a Katy Trail tinha nos dado três dias de preciosa sombra, a ponto de ignorarmos as temperaturas chocantes que vem fazendo e pedalarmos o dia inteiro. Por volta das duas tarde, já quase na fronteira com o Kansas, meu iPhone-velocímetro começou a dar umas mensagens esquisitas. Parei a bike pra ler com atenção, e lá estava: “Alerta: iPhone em alta temperatura, espere ele esfriar para que funcione normalmente.” Quando está tão quente que a Apple pede arrego, é pra se preocupar mesmo. Encontramos um restaurante numa cidadícula chamada Amsterdam, e lá almoçamos demoradamente, na esperança de que a temperatura baixasse.
Não baixou, pelo contrário. Mas o destino estava lá, a poucos quilômetros, um parque logo depois de entrar no Kansas. Vamos nessa, a gente segue, tira uma foto na fronteira do estado, rapidinho, e daqui a pouco estamos no parque. Que nada. Os poucos quilômetros, num calor de fazer carioca desistir de praia, pareciam infindáveis. Apesar do pouco glamour, cheguei a ficar feliz que não tinha placa nenhuma indicando a passagem do Missouri pro Kansas, assim não tinha que passar um segundo no sol além do necessário. Infelizmente a entrada do parque era numa lateral perpendicular à estrada em que estávamos, uns quatro quilômetros acima. Nos arrastamos até o portão, e ainda tivemos que insistir montes nos caminhos dentro dele pra achar o prédio da administração.
Que estava fechada. Fechava às quatro horas, e eram quatro e meia. Too bad! Ganhamos um dia de camping grátis. Voltamos pra área de camping, localizamos um pedaço na sombra perto de uma torneira e de uma tomada, e lá nos instalamos. Se alguém vier cobrar, a gente paga. Mas, domingão, obviamente ninguém nem tchuns pra gente. Tomamos banho, comemos e voltamos a ser gente.
Lewis, com seu amor pela bicicleta, começou a lavar a magrela dele, que era algo que eu também já queria fazer desde que saímos da trilha. Ele passou água pela supermáquina dele e liberou a torneira pra que eu usasse. Estava eu lá tirando o barro da minha, quando vejo ele tirando a roda de trás da bicicleta dele e passando lenços umidecidos entre as engrenagens. Poxa, boa ideia, peguei os meus (que estão à espera do trágico dia que eu não consiga tomar banho), retirei a roda e comecei a limpar as engrenagens da minha também.
É um exercício legal e carinhoso, limpar a bike com mais cuidado. Comecei a pegar os lencinhos e, seguindo o exemplo do comparsa inglês, fui limpando uma roda, outra, os pedais… O problema, obviamente, é que quanto mais você olha, mais sujeira acha, e o trabalho só fica maior. Depois de 20 minutos disso, já tinha tirado todo o grosso da poeira de três dias de trilha, mas quanto mais reparava mais encontrava cantinhos empastelados com terra. Só restava uma solução: parei de olhar. Já tinha escovado os dentes da intrépida, mas ela ia ter que seguir viagem sem passar fio dental.
Lewis, com um suspiro de satisfação, me disse: “assim que eu terminar a travessia, vou desmontar minha bicicleta inteirinha e limpar cada cantinho”. Com um sorriso, respondi: “assim que eu terminar a travessia, vou pagar pra alguém fazer isso pra minha”. Vai ser um trabalho muito melhor do que se eu fizesse, certamente.



