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Coração de banana


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Katy Trail, plana, arborizada

Conforme o prometido, uma trilha plana e arborizada a perder de vista.

No Caminho de Santiago, na fase final, quando eu já estava caminhando há três semanas, passado por bolhas, tendinites e, sem saber, carregava carrapatinhos pelo corpo, eu me encontrava num estado de sensibilidade tal que, como diria Zeca Baleiro, qualquer beijo de novela me fazia chorar. Até porque eu estava há semanas e semanas sem dar beijo qualquer que fosse, muito menos de novela. Isso se comprovou quando eu comecei a ver Mulan no voo de volta pro Brasil e meus olhos começaram a se encher de lágrimas.

Aqui, já pedalando há três semanas, sem dar beijo de novela ou beijo sem-vergonha que seja, longe de família e sem muita gente com quem conversar, já cheguei mais ou menos no mesmo ponto de sensibilidade, mas com um monte de viagem ainda por fazer. Com o iPhone Nano tocando por horas nos meus ouvidos, volta e meia você faz a curva e uma música ataca seu coração de banana. Uma listinha das músicas que já me fizeram chorar sobre duas rodas:

  • “Power of Two”, Indigo Girls, pelo casamento que ainda hei de ter.
  • “Por Onde Andei”, Nando Reis, ao imaginar o que vou dizer quando voltar pro Brasil.
  • “Não Vou Me Adaptar”, Nando Reis, porque minha mãe relaciona essa música ao tio Zé e isso me comove.
  • “Borboleta”, Zélia Duncan, porque a famiglia gosta e bateu saudade.
  • “O Tom do Amor”, Moska, porque acho ela linda e sou cheio de amores estupendos esperando pra crescer.
  • “Smile Boy”, Lee Seung-Gi & Yuna Kim, lembrando da versão que a gente fez pro maninho Anselmo quando ele voltou da Coreia do Sul.
Atravessando um túnel na Katy Trail

Atravessando um túnel! Uma foto bacana por acidente.

Menção honrosa para a lembrança de Lilo dizendo pra Stitch que “Ohana quer dizer família”, enviada por Ana Paula via Facebook, e me fazendo enxugar as lágrimas por trás dos óculos escuros.

E, não, eu não tenho carrapatinhos pelo corpo. Ainda.

Isso tudo vem aqui porque o segundo dia de Katy Trail foi um sucesso, tão plano, arborizado e menos poeirento que não tem muitos acontecimentos para relatar. O café da manhã tardio foi num café tocado por uma senhora que cobria o crânio sem cabelos com um lenço na cabeça. Devia estar batalhando um câncer, mas continuava servindo o chafé americano com disposição num restaurante todo decorado com peças do Elvis Presley e cinema dos anos 1950.

Lewis, sempre querendo evitar voltas desnecessárias, quando chegamos em Jefferson City propôs da gente sair da trilha e pegar uma estrada que iria direto para Sedalia, onde planejávamos encerrar o dia. Olhei bem para o céu de brigadeiro que já fazia naquela manhã, o calor que já se esticava sobre nós, pensei como é que alguém que não gosta de trânsito nem de calor em excesso como meu colega podia considerar isso, e respondi: “Mate, você pode pegar a estrada se quiser, a gente se encontra em Sedalia à noite. Mas vai fazer um calor do cão hoje, e eu prefiro pedalar na sombra.” Mil vezes pedalar 20 milhas a mais no plano, na sombra e sem carros, que pegar o asfalto com caminhões e sol no coco pra economizar caminho. Ele pensou um pouco e concordou em seguir comigo.

Mais pra frente, encontrei numa bicicletaria inesperada um tubo novo de Chamois Butt’r, e assim a maciez das minhas nádegas fica garantida por mais um mês. Eu e Lewis tínhamos o plano de fazer mais 150 km hoje, mas na hora do almoço olhamos um para o outro e chegamos à conclusão de que 120 km já estava mais que bom. Vimos no mapa que tinha uma cidadezinha por perto com um parque onde é permitido acampar de graça, e para lá fomos. Pude armar Iracema II, minha nova barraca, pra valer pela primeira vez, e confirmei que, perto da Iracema I, que era um sarcófago carinhoso, a segunda parece um palácio. Dá até pra sentar dentro dela, mal acredito.

A nova barraca, Iracema II

A nova barraca, Iracema II, um palácio

No fim da noite, inesperadamente, enquanto eu escrevia aqui no meu computador e Lewis no dele, o colega virou pra mim e disse “sabe o que é bacana? Que dá pra nós dois ficarmos cada um na sua, sem ninguém ficar puxando conversa ou falando o tempo todo. Cool, man.”. Ah, Joe, sua malice deixou traumas em mais pessoas além de mim. Mas fiquei contente, sinto que a companhia pra viagem vai durar um bom tempo ainda.