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Três quedas e uma planura sem fim


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Ponte sobre o rio Missouri, Paige Avenue Extension

Dessa vez, cruzando a ponte sem risco de virar uma mancha no asfalto.

Pois bem, chegou o grande dia de fazer o projeto Katy Trail virar realidade. Hora de ver se todas as emoções, pesquisas e percalços valeriam a pena. Acordamos no já padrão horário das cinco da manhã, juntamos tudo e logo estávamos na estrada.

No mapa parecia supersimples, mas chegando na ponte superrecomendada por ter faixa especial para ciclistas e tal, descobrimos que a faixa é tão reservada que não se chega nela pela estrada. Com certeza tem um caminho menos arriscado por dentro da cidade que a gente desconhecia, porque os nativos chegavam por dentro pedalando tranquilamente para o acesso à ponte. Enquanto isso, eu e Lewis mais uma vez tivemos que erguer as bikes por sobre a cerca da estrada para chegar na parte segura da ponte. Infelizmente, por mais fortinho que eu esteja, essa manobra ainda é difícil pra mim, e assim que a bike estava do outro lado, eu fiquei sem um apoio decente, não consegui mantê-la de pé, e POF, lá caiu ela de lado.

Eu tenho um pouco de pânico da bike cair carregada, porque se entorta alguma coisa vai ser um saco consertar, mas ainda não foi dessa vez. Pulei a cerca, coloquei Angelana Paula de pé, tudo estava OK, lá fomos pela ponte sobre o rio Missouri – e dessa vez sem correr risco de morte.

A Katy Trail é exatamente o que prometeram: plana e arborizada, com um chão de packed gravel. Que, eu vim a descobrir, quer dizer terra batida com micropedrinhas. A proporção terra/pedrinha varia conforme o trecho, então em alguns pontos vira praticamente um asfalto. Em outros, você se sente na abertura de Mulheres de Areia, com poeira voando pra todos os lados, mas sem mulheres peladas.

Nessas horas se revelam os detalhes da personalidade do parceiro de viagem. Lewis, tenho que explicar, é bem mais ciclista do que eu. Eu pedalo por um misto de consciência ambiental, prazer do exercício diário, vontade de fazer economia e deleite em deixar os carros engarrafados para trás, tudo em porções moderadas. Lewis ama a bicicleta como conceito. Ele compete em provas de ciclismo na Inglaterra, conhece os modelos modernos e clássicos, e montou a bike com que ele viaja sob medida, com as próprias mãos. Toda vez que a gente para pra comer, ele senta em algum lugar que dê pra vigiar a bike dele pela janela. O xodó dele pela magrela é tanto que tenho certeza que, se alguma coisa acontecer que o faça escolher entre eu e a bike, a visão dos meus últimos segundos de vida vai ser ele dizendo “sorry, mate” e pedalando estrada afora enquanto minhas tripas fritam no asfalto.

 

Bicicleta empanada

Bicicleta empanada

Em meia hora de viagem pela trilha, estávamos os dois cobertos de pó. E isso não é figura de linguagem. Minha bicicleta, tão pretinha e lustrosa, estava marrom. A garrafa d’água estava impossível de beber, com o bico coberto de terra. Quando parei pra olhar pra mim, parecia que tinham me empanado de um lado e esquecido de me virar e me jogar na farinha do outro: eu estava com a parte da frente toda coberta de terra fininha. Isso tudo também se aplicava ao Lewis, com o detalhe de que os para-choques da bike dele são cromados e o quadro foi pintado à mão. O inglesinho não estava nada feliz.

Fiquei meio mal, meio preocupado, mas daí pensei bem: minha promessa foi de estrada plana e sombra com chão de packed gravel. O efeito colateral é meio triste, mas o que fazer. Ele é grande e não é nada que não se resolva com água e sabão daqui a uns três dias. Lá fomos nós, pedalando cada vez mais à milanesa.

A trilha era supergostosa de percorrer mesmo, tão plana e reta que você entra em piloto automático e se deixar começa a pensar no que a Carminha deve estar fazendo com a Nina nas últimas semanas, o UOL disse que a Nina foi enterrada viva mas como assim, será que rolou um lance Kill Bill, pensar que o Tufão já foi pai da Mel e agora ele está lá perigando querer catar a Nina, é muita vontade de se vingar se colocar pra lavar copos pra alguém que você detesta e… CAPUT, a bike caiu numa fenda no chão de terra, balançou pra um lado e pra outro, consegui segurar mas a garrafa d’água caiu no chão. Já fungando, brequei pra pegar a garrafa, brequei rápido de mais e CATAPLOF, Angelana Paula deslizou pro lado e caiu, saltei por cima dela e não me machuquei. Lewis, ouvindo rádio com fone de ouvido a 22 km/h, nem percebeu e lá se foi.

Ponte de madeira na Katy Trail

Pra provar que essa trilha já foi trilhos.

Ainda não foi dessa vez que minha intrépida bicicleta ficou desfigurada pra sempre, quando se colocou de pé continuou rodando por sobre as pedrículas como se nada tivesse acontecido. Quatro horas mais tarde ele me ligou pra saber onde eu estava, e calhou que eu me encontrava a 500 m de onde ele tinha parado pra almoçar. “É só você sair da trilha rapidinho, subir uma rampinha de terra pra chegar na estrada que cruza a trilha, estou no supermercado a 200 m do cruzamento”. Dava pra ver de onde eu estava, então lá fui eu, rampinha acima. Que obviamente não foi feita pra bicicletas cheias de malas. Sem problema, não é a primeira nem será a última vez que eu empurro a bike. Fui colocar o pé no chão, quem disse que o chão estava onde devia estar? Cê tá num barranco, animal, foi a última coisa que eu pensei antes de CAPUF, despencar com a heróica pela terceira vez do dia. E ainda assim ela resistiu inteira.

Depois do almoço chuviscou um pouquinho, só o suficiente pra grudar a poeira, e assim as outras horas do percurso foram mais fáceis. Terminamos num albergue à beira da trilha, um galpão cheio de beliches com uma cozinha simples, mas tudo razoavelmente organizado e limpo. Nesse esquema que só tem no interior dos EUA: a chave fica pendurada num poste, você vai lá, pega, dorme no albergue, e de manhã deixa sua doação na caixinha. Os brasileiros gersonianos viveriam lá todos os dias e ainda roubariam as doações que algum trouxa deixasse na caixinha. O resultado do primeiro dia de Katy Trail foi superpositivo: um recorde de 147 km percorridos num só dia.

O albergue da confiança

O albergue da confiança