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Lado de fora de um WalMart. Eu sentado num banco, olhando as bikes, esperando Lewis voltar do interior da loja. Chega um tio de bicicleta, camisa xadrez, cabelo um pouco longo e encardido.
– Hey! Você tá viajando de bicicleta?
– Tô sim. – Não é incomum que desconhecidos puxem conversa quando veem um cara fantasiado de ciclista, perto de bicicletas carregadíssimas.
– Vai pra onde?
– Pro Oregon.
– Uaaaaaau. Eu também adoro percorrer longas distâncias de bicicleta, já viajei 10, 20 milhas…
Poxa, faço mais que isso numa hora, pensei sobre o esquisito viajado.
– Mas na última vez que eu fiz isso, tiveram que me resgatar na estrada, porque eu desmaiei por causa do calor – ele continuou. – E de onde você é?
– Do Brasil.
– Verdade? De que parte do Brasil? Da Argentina?
Puta merda, não acredito que o clichê da falta de geografia está acontecendo de verdade.
– Não, de São Paulo – respondi, com cara de paisagem.
– Certo… Eu queria muito viajar o mundo, morar na Alemanha… Eu sou fã do Titanic, coleciono tudo sobre ele. Mas acho que não conseguiria entrar em outro país, eu tenho contravenções demais na minha ficha.
Acho que ele não bate bem. Melhor cortar a simpatia.
– Legal – respondi secamente.
– E você vai viajar por quanto tempo, ainda?
– Dois meses.
– Bacana. Qual é seu endereço? Não quer trocar cartas comigo?
– Não tenho endereço, só estou pedalando – menti, torcendo pra ele acreditar. Colou.
O dia tinha começado com um ato de rebeldia nosso. A rota oficial da ACA às vezes se esforça tanto pra nos levar a estradas seguras, vazias e lindas que nos faz ziguezaguear sem necessidade. Pode ser muito lindo e tal, mas com o calor no meu (agora careca) cocoruto do jeito que está, quaisquer 15 km a menos são uma dádiva. Então decidimos economizar na quilometragem e pegar duas estradas um pouco maiores para chegar em Carbondale, numa linha reta pro norte e depois em outra pro oeste.
Foi na pausa entre uma estrada e outra, na hora do almoço, que o diálogo bizarro acima aconteceu. Felizmente sem maiores consequências.
Carbondale é uma cidade até grandinha, de 25 mil habitantes, o que nessa viagem é uma metrópole. Conseguimos arranjar no Warmshowers um cara que concordou em nos hospedar por duas noites de graça. Lewis queria tirar um dia de folga e fez isso virar, de graça. Mas, antes, a gente tinha que chegar lá. E não foi delicinha. O problema da estrada não era bem o movimento – como ciclista paulistano, caminhões e ônibus passando a alguns centímetros de mim nem me abalam. E a estrada era boa e moderna. Tão moderna que não tinha uma sombrinha que fosse. 30 km de sol escaldante, aliviada apenas pelo vento da gente deslizando rapidamente pela rodovia. E ainda tivemos que encarar algumas obras na rodovia. Mas chegamos.
Já era o meio da tarde quando encontramos o endereço do nosso host, e só então descobrimos que íamos ficar numa república de universitários. Os outros moradores da casa estavam de férias, mas Quinn, nosso contato, tinha ficado pra fazer aula de Cálculo durante as férias. Alguns amigos dele estavam aproveitando a casa pra se divertir nas férias, e nós chegamos no meio disso tudo.
O ambiente era o típico de uma república de meninos: tudo meio largado, almofadas rasgadas no sofá, os poucos copos limpos ainda na lava-louça, micro-ondas na sala debaixo da televisão.
“Podem deixar suas coisas por aí, onde quiserem”, Quinn disse, antes de trazer uma cerveja pra cada um. E assim a gente foi se espalhando sem muita preocupação de incomodar o dono da casa, porque esse conceito não existia, obviamente. A noite se passou entre reclamações sobre professores universitários (do meu passado e do presente deles), comédias adolescentes e piadas como “Sabe o que é preto e grita? O Stevie Wonder atendendo o ferro de passar roupa”.
Acho que é o lugar perfeito pra nossa folga.



