Constanza

Cynthia uma vez me deu uma definição super adequada da Editora: "A Editora não passa de uma pequena cidade do interior vertical". E ela está certa.

Depois de alguns meses trabalhando lá, você pode ter certeza que já viu em corredores, saguões, elevadores e refeitórios praticamente todo mundo do prédio, e todo mundo já te viu alguma vez. Obviamente, você tromba mais com as pessoas que têm uma rotina mais semelhante à sua. Por outro lado, volta e meia você se surpreende descobrindo alguém que trabalha no seu andar a séculos e você ainda não tinha visto.

Por ser uma editora, acontece o fenômeno curioso da segregação entre Igreja e Estado. As pessoas sérias do marketing, financeiro e whatnot não costumam conviver muito com as pessoas das redações, a não ser nas transações inevitáveis entre uma e outra.

Isso se reflete principalmente na hora do almoço. Do meio-dia até uma e meia, mais ou menos, o refeitório fica repleto de pessoas de camisa social, terno, tailleur, salto alto – aqueles que têm profissões "sérias" almoçam em horário comercial, com o resto do mundo, já que também costumam chegar mais cedo. Entre quinze pras duas até as três e pouco, aproximadamente, os repórteres, designers e adendos descem pra filar a bóia. Daí você vê toda uma fauna de cortes de cabelo moderninhos (pintados ou não), piercings, botas, tatuagens, óculos de aro grosso, umbigos de fora e cuecas aparecendo porque a calça é baggy. Alguém de um grupo não se sente superconfortável almoçando no horário do outro – isso já foi constatado ouvindo conversas de pobres marketeiras que tiveram que almoçar mais tarde, e não conseguiram conter os comentários de espanto no elevador de volta para seu andar.

Descobri outro dia que todo mundo faz o que eu faço: começa a reparar em algumas pessoas específicas por alguma razão. No começo do ano, por exemplo, eu apelidei um carinha de Wally. Isso aconteceu porque eu comecei que, não importava a hora ou aonde eu estava indo, toda vez que eu descia para o térreo por alguma razão eu cruzava com ele. Depois de várias coincidências, eu comecei a procurá-lo na paisagem (daí o codenome), e, em geral, o encontrava.

Outra em que nós da Recesso começamos a reparar é uma mulher de quase cinquenta anos, provavelmente, toda estilosa e moderna. Toda vez que a gente ia tomar sopa na janta, aparecia ela. De tão estilosa, a gente considerava que ela devia trabalhar em alguma revista de moda ou algo assim, e a apelidamos de Constanza, em homenagem à Pascolato (existiam semelhanças). Para nossa decepção, porém, depois de algum tempo descobrimos que ela na verdade é revisora, e mais, frilava no nosso andar mesmo.

Semana passada, estou eu voltando para a redação, tarde da noite por causa do fechamento, quando passo pela Constanza e levo um susto. Tive que me segurar para não correr. Fui até a Cris e a Pri, que estavam sentadas na frente dos macintoshes, e disse "Gente, vocês não acreditam! A Constanza pintou o cabelo de laranja!! Deixou de ser Constanza!! Olha ali!!".

Nesse momento, como se fosse um filme, os três levantaram para ver a redação no fim do andar e "discretamente" observar a mudança na Constanza. E, claro, como num filme, ela estava olhando pra gente naquele exato momento. Continuando o padrão comédia B, a gente sentou na hora, morrendo de vergonha, e depois caímos na risada. Ela não deve ter entendido. Ou talvez, pior, deve ter entendido tudo.

Obviamente isso deve acontecer do outro lado também. Se alguém souber de algum apelido meu que as pessoas usam para se referir a mim a distância, por favor não me conte.