Relatório ao Rio

Do plano: Desde que eu comprei o disco da nova gravação d’A Ópera do Malandro que eu estava com uma vontade terrível de assisti-la. O problema sendo que ela estava sendo encenada no Rio de Janeiro. Mãinha, Pai e Ana Paula foram passar uma semana no Rio há uns dois meses, assistiram a peça, voltaram elogiando horrores, e minha vontade só aumentou. Então resolvi que iria passar um fim de semana no Rio para assisti-la de qualquer jeito, nem que minha instável situação financeira ficasse desequilibrada por mais um mês.

Da acompanhante: Cynthia Pimenta é fã do Chico Buarque e estava com banzo do Rio. Então, desde que contei de meu mirabolante plano, já se ofereceu para acompanhar-me, o que era uma boa, já que ela conhecia a terra e é uma ótima companheira de viagem.

Da data: O fim de semana foi escolhido em função de um show da Zélia Duncan, que a Tiana, amiga da Cynthia, ia ver. A gente poderia ficar no apartamento do amigo do tio dela junto com ela, e de quebra ainda assistir ao show.

Dos empecilhos: Devido a desinformações, má-vontades dos atendentes e nossos hábitos civilizados, na sexta-feira à noite ainda não tínhamos conseguido comprar os ingressos para a Ópera. Cynthia já entrou em desespero quando a Tiana avisou que não tinha conseguido comprar o ingresso. Eu tentei acalmá-la dizendo que sempre havia os cambistas, e que, além do mais, o mundo não seria tão injusto assim para frustrar meus planos desse jeito.

Da comunicação: Tomamos o busum à uma da manhã, e chegamos no Rio seis e pouco. Assim que assentamos os pés na antiga capital, concordamos que era melhor que Cynthia, com seu sotaque nativo, se encarregasse da comunicação com os aborígenes, já que meu sotaque de paulista do interiorrr poderia nos tornar alvos de singelos cariocas querendo sacanear otários.

Do roteiro turístico: Nossa primeira parada pós-rodoviária, a caminho do apê onde estava a Tiana, foi na praia de Botafogo, onde Cynthia matou a saudade da praia. Uma vez instalados, tomamos os três um metrô para Copacabana. O dia estava nublado, mas insistimos em fingir que estávamos pegando uma praia. De lá, fomos andando até o Arpoador (a caminho do qual encontrei Carlos Drummond de Andrade) e depois andamos a Vieira Souto inteira, debaixo de chuva, procurando um lugar para almoçar.

Dos cambistas: Em seguida fomos até o teatro tentar conseguir nossos ingressos. Estavam esgotados no guichê, obviamente. Havia apenas dois cambistas na entrada, pai e filho, que, se tinham ingressos para o dia seguinte, não quiseram vendê-los. Preferiram entregar um cartão em que se apresentam como promotores de shows e eventos, garantindo "os melhores lugares em espetáculos Nacionais e Internacionais, em São Paulo e no Rio de Janeiro". A esperança só não se foi naquele momento porque, decididamente, é a última que morre, e eu tinha que combater a descrença de Cynthia Pimenta.

Do show: Zélia Duncan estava lançando seu novo disco, Eu me transformo em outras, apresentando o show no qual o disco se baseava. O casa de shows, a Rival BR, é comparativamente pequena, mas muito bacana. A Tiana tinha chegado horas antes para conseguir uma mesa encostada no palco, onde ficamos instalados. O show começou com pouco atraso, e foi excelente. Me surpreendeu pela coesão, qualidade e estilo. Se já gostava da Zélia, fiquei gostando mais. Comprei o CD e, depois do show, fomos encontrá-la na porta do camarim, pedimos autógrafo e tiramos fotos.

Da balada: Encontramos Léo Favre mais à noite para matar a saudade (não o víamos desde o Curso, há um ano e meio), e resolvemos experimentar a night carioca. Acabamos parando num lugar que prometia tocar house. O som estava lá; as pessoas, não. Ficamos da meia-noite até às duas e pouco fazendo a voz contornar as batidas para conversarmos, sem ver sinais de que o lugar estava enchendo. Quando já íamos embora, resolvemos dar mais uma última chance para a pista de dança do segundo andar; descobrimos, surpresos, que esquizofrenicamente a danceteria tinha enchido na última hora, e que seus frequentadores tinham usado suas perícias de ninja para subir até lá sem que os víssemos. Dançamos um pouco, eu fiquei cheio do jeito blasé dos presentes, resolvemos ir embora e repousar para o dia seguinte.

Do folclore: Para um paulista (e praticamente paulistano) como eu, andar no Rio é uma experiência folclórica. Existem todas essas coisas das quais você ouviu a vida inteira, mas nunca se ligou de verdade que elas existem. A começar das inscrições do Gentileza no viaduto em frente à rodoviária, passando pelo 175 que o Gabriel o Pensador pegou na Central. Seguindo por Copacabana, e depois a lua deserta das pedras do Arpoador. Continuando pela Rua Nascimento Silva 107, a rua Toneleros onde o Getúlio começou a se ferrar, e a Rua-Saturnino-de-Brito-74-Jardim-Botânico-Rio-de-Janeiro. A noção de que barros de novela (como agora, por exemplo, o Andaraí) existem de verdade são demais para alguém como eu. Quando cheguei no Leblon, me senti praticamente dentro de Mulheres Apaixonadas.

Da cidade: O Rio de Janeiro é mesmo lindo – pelo menos a parte turística e linda à qual me restringi. Árvores por todos os lados, montanhas, mar, gente que insiste em te vender a mesma canga dez vezes quando você está na praia… a paisagem é fascinante. Os muros são menos pixados que em Sampa, e os corpos d’água poluídos deles (a lagoa Rodrigo de Freitas e o mar) são bem mais paisagísticos que os nossos rios Tietê e Pinheiros. Não se pode deixar de notar, no entanto, que o Rio de Janeiro é uma cidade feita para lidar com a terrível contingência de ser um lugar cheio de cariocas. Note-se, por exemplo, pela existência em grande parte das calçadas de pequenos postes ou "fradinhos", colocados lá para impedir que os folgados estacionem os carros sobre as calçadas. Não, não é apenas colocar duas rodas do automóvel sobre a guia, como eu pensei, mas sim, como pude presenciar numa calçada que não estava resguardada, enfiar o carro inteiro, e que se fodam os pedestres.

Do almoço com o vô: Era o grande programa da tarde de domingo. Eu não visitava o apartamento onde vô Anselmo mora com sua mulher, a Bianca, há mais de doze anos. Nesse meio-tempo eles mudaram de apartamento, um filho dela saiu de casa e outro voltou, e eles adquiriram outro apê em Juiz de Fora, além de dois cãezinhos que atendem pelos fenomenais nomes de Douglas Skywalker e Sheila Marta. Foi uma tarde agradabilíssima, em que Cynthia e Bianca dominaram a conversação, xingaram muito o Lula e trocaram figurinhas sobre intelectuais estrangeiros, enquanto eu e vô nos limitávamos a comer quietos nossas refeições e às vezes tentar inserir um comentário em trechos mais pé-no-chão do papo das duas. Depois de comer, fomos dar uma volta na praia, desafiando o vento e vendo as ondas rebentarem nas pedras, para depois sair correndo em direção à praça Tiradentes para tentar ver a peça.

Da Ópera: Chegamos tão em cima da hora que nem cambista mais para vender bilhete tinha. Mas, ainda disposto a tudo, parei na frente do guichê, fiz minha melhor cara de cãozinho paulista abandonado, e perguntei se não tinha como conseguir dois ingressos. Depois de negociações internas e um pouco de insistência, consegui os bilhetes, e entramos para realizar o objetivo último da viagem. Sentei no camarote e perdi apenas a primeira música. A peça é excelente, com ótimos atores, figurino impecável, cenário lindo e canções geniais. E é mais bacana ainda perceber novos significados para estas músicas quando inseridas no contexto da peça. Programão. E o melhor: vem para Sampa, tal e qual. Vou bater cartão nela várias vezes, com certeza.

Do desfecho: Depois de sairmos extasiados do espetáculo, carregando programas, CDs, marcadores de livros e ímãs de geladeira da Ópera (e compraríamos o que mais tivesse, se houvesse opção), convocamos Léo Favre novamente, que foi bacana de jantar conosco antes de rumarmos de volta à terra da garoa. Fomos para uma pizzaria na Lapa (o que me deu a impressão de sair da peça e cair no cenário dela, principalmente quando vi os Arcos da Lapa) onde comemos bastante e conversamos muito. Quase meia-noite, fomos eu e Cynthia de táxi para a rodô, onde adquirimos bilhetes para o busum da meia-noite e onze. Antes de dormir, a Cynthia ainda me mostrou outro ponto folclórico do Rio pela janela, a Favela da Maré, onde as pessoas ficam alagadas free-style.

Balanço final: Ótima viagem, que repetirei mais vezes esse ano, espero, para curtir mais meu vô, principalmente, e também terminar de sacar a cidade. Ainda resta muito turismo a ser feito por lá…