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Contava as horas pra trás


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Bike em dois fusos horários

A intrépida bike Angelana Paula com uma roda em cada fuso horário

Atravessar um continente é uma empreitada gigante, e o viajante encontra incentivo em qualquer sinal de avanço. Hoje a trupe resolveu pedalar menos que a média, encerrando o dia num parque estadual. Mas nesse percurso mais curto estava um marco inédito até agora: a linha da mudança do fuso horário. É engraçado pensar que já pedalei o suficiente pra mudar de fuso horário, dá uma noção melhor de distância. Dá pra considerar que o que percorri até agora é o mesmo que sair de São Paulo e ir de bicicleta visitar minha prima Aline em Goiânia.

Acordei mais cedo que Joe e Lewis, aprontei tudo e, quando estava pronto pra sair, eles estavam começando a preparar o café da manhã, recém-acordados. Me despedi e combinei de encontrá-los no paradeiro final. E lá me fui rodando pelo terreno cada vez mais plano, contente da vida.

O mapa indicava que a mudança de fuso horário se daria na fronteira dos condados de Breckinridge e Hardin. No meio da manhã eu já estava alerta para não deixar a ocasião passar, quando a estrada fica sem asfalto. Sabe como é, quando raspam o asfalto antigo para recapear, e fica aquele cimento todo irregular? Pois é. Cinco quilômetros disso. Fui andando mais devagar, afastando pedregulhos perfurantes do caminho das minhas rodas com o poder da mente (rá), pacientemente aguardando a chegada da fronteira. Muitos minutos exasperantes depois, ao fim de um morro mais íngreme que a rua Purpurina (sim, eu empurrei a bike), cheguei à fronteira dos dois condados. Dava pra ver certinho onde era, porque as obras no asfalto acabavam exatamente onde uma placa indicava que o condado de onde eu vinha acabava. As duas administrações com certeza não trabalham em conjunto.

Aproveitei a clareza da fronteira na estrada pra tirar fotos, fiz uma pausa, e segui. O dia já estava ficando quente, e depois de mais uma horinha fiz um pit-stop num posto pra beber um Gueitô. Daí de repente chegam Joe e Lewis. “Sabia que ia te alcançar, cara!”, disse o Joe, todo satisfeito. Basicamente ele tinha vindo correndo esse tempo todo, porque era uma questão de honra me alcançar antes que eu chegasse no parque. Parabéns, Flipper!

Acampamento à beira do lago de Rough River

Nosso lindo acampamento à beira do lago

O acampamento não estava muito longe dali, e terminamos por encerrar o dia bem cedo, por volta do meio-dia. O parque de Rough River Dam, onde ficamos, é superbonito, delimitado ao redor de um lago. Não tinha ninguém da administração quando chegamos (hora do almoço), então estacionamos num lote vazio e aprazível perto da margem do lago, e ficamos lá relaxando deitados na sombra, praticamente de férias. Tirei um cochilo, acordei, peguei o Kindle pra ler, e depois de umas duas horas de leseira, convoquei Lewis, que seria a outra parte pagante, pra ir comigo no escritório do parque para regularizarmos nossa situação.

Fomos atendidos por um velhinho bacana, e conversa vai, conversa vem, o tiozinho deve ter ficado comovido com a história do brasileiro e do britânico se esforçando tanto pra cruzar o país dele sobre duas rodas, porque nos deu um lote de graça. Que alegria, estou gastando bem menos do que pensava.

Ciclistas prestes a jantar

Uma imagem vale por mil palavras.

E assim tivemos um dia de colônia de férias: depois de montar as barracas, fomos nadar no lago, busquei comida num mercado não muito longe, e depois tomei banho sem pressa. Estava voltando do chuveiro quando um guarda do parque veio avisar que tinha uma supertempestade chegando, que era melhor a gente preparar o material antichuva. Lá fui eu pregar minha lona por sobre a barraca, um trabalhão que resultou numa proteção triste e meia-boca. Mas ia ter que servir no momento. Entrei no meu sarcófago embrulhado decidido a comprar uma barraca melhor assim que possível. Ainda tem dois meses pela frente, é melhor ter algo decente pra se abrigar.

Ventou muito, chuviscou um pouco, deu um sustinho, mas a tempestade não aconteceu. Depois de um tempo saí da minha panqueca de plástico e me uni aos meus comparsas pra comer. Estávamos lá comendo uns cachorros-quentes quando um arco-íris apareceu por cima do lago. Tão feliz.