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Little caipiras


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Placa de trânsito mandando compartilhar a estrada com um trator

Tratores também são parte do tráfego!

Existe uma pomada mágica que salva as bundas dos ciclistas. Ela se chama Chamois Butt’r. Quando se passa o dia inteiro sentado num selim, esfregando as nádegas dezenas de milhares de vezes por dia contra o assento, o traseiro pode ficar dolorido, assado e/ou pior. Espalhe Chamois Butt’r sem economia em toda a região afetada antes de pedalar, no entanto, e você termina a jornada oito horas depois com o derriére tão tranquilo como se tivesse acabado de sair da cama.

No único dia que eu esqueci, logo no começo da viagem, sentar no selim depois de horas de viagem ficou bem incômodo. Por isso que essa manhã, quando eu já tinha partido às cinco e meia da madruga, o dia mal tinha clareado, e eu percebi que tinha esquecido de aplicar a pomada salvadora, hesitei por dois segundos inteiros antes de parar a bike atrás de uma igreja de beira de estrada, num canto mais ou menos oculto, desenterrar o tubo da bagagem, abaixar a bermuda e espalhar Chamois Butt’r na minha bunda e coxas. O que são cinco minutos de atentado ao pudor na madrugada, perto de oito horas de sofrimento?

O terreno está ficando cada vez mais agradável conforme a gente vai chegando no meio do país; hoje o trajeto teve apenas dois ou três montes de escalada considerável, o resto foi o que o povo chama aqui de rolling hills, subidinhas de poucos metros em inclinação baixa, seguidas por descidinhas boas pra refrescar o corpo. A paisagem continua bastante verde, e estou absorvendo bem isso, porque se for como no Caminho de Santiago, quando se chega no planalto o terreno fica todo bege e o verdinho faz falta.

O Kentucky é o estado clichê que os americanos utilizam quando querem se referir à caipirada, e, como a maior parte dos clichês, tem seu fundo de verdade. Aqui a gente começa a trombar com placas que pedem pra você dividir a estrada com tratores, e nos postos de gasolina você encontra geladeirinhas que vendem iscas vivas para a pescaria – e chega-se ao requinte de poder-se escolher entre minhocas, grilos, gafanhotos ou sangue-sugas.

Dois mapas completados

Dois já foram, faltam dez

Chegamos no destino de hoje, Berea, Kentucky, num horário bem razoável, por volta das duas e meia da tarde. O local tem um significado extra para a gente também: é o fim do mapa 11, o que significa que já fizemos 2 dos 12 mapas que traçam a rota de costa a costa (como estamos indo do Atlântico pro Pacífico, a contagem é regressiva). De marco em marco desses, a gente vai ficando mais feliz e vai tendo a sensação de que está avançando, o que é sempre bom.

Louro e careca

Voltei a ficar inteligente

Com tempo de sobra depois de despencar toda a bagagem no camping da cidade, deu tempo de explorar as delícias da civilização como ir para o McDonald’s, visitar o Wal-Mart (que, sério, tem TUDO. E BARATÍSSIMO) e, para o meu alívio, cortar o cabelo. A ideia de pintar minhas madeixas de louro para a viagem me pareceu divertida, mas depois de quinze dias com aquilo pendurado no meu escalpo, eu já não estava me sentindo feliz. A cor estava ficando bizarra, a textura esquisita, eu estava me sentindo o boneco do Cascatinha. Então parei num salão barateiro, negociei um preço camarada e a mulher passou máquina zero na minha cabeça toda. “Quem me dera que todos os homens fossem simples como você”, ela me disse, “em geral eles vêm aqui e ficam cheio de exigências, é um inferno”. Eu, já careca, concordei sorrindo. Estava me sentindo como eu mesmo de novo.

Passadas as montanhas, o celular voltou a pegar direito de novo, o que significa internet 4G para o computador. Usei o fim da noite para fazer operações bancárias (a vida continua no Brasil), contatar quem tinha que contatar, e escrever posts (que não publiquei por canseira de separar fotos). Onze da noite, quando eu já tinha que estar dormindo, estava desligando o laptop quando vejo Pavel e a filhota Bianca chegando no nosso camping, exaustos. Eu tinha certeza que eles tinham parado em algum lugar antes, loucura pegar estrada de noite. Que nada. A garota puxou o pai até onde a gente estava. Minha teoria continua inconteste.