View Larger Map
A Virgínia tem subidas. A Virgínia tem ondas de calor. A Virgínia tem chuva aos montes. A Virgínia tem esse nome por causa da rainha Vitória, que nem virgem era. Nem tudo é culpa do estado per se, mas não tô nem aí. Depois de tantos dias pedalando pelo estado, numa rota que faz zigue-zague por seu território como se fosse de propósito pra deixar a gente com mais raiva ainda, hoje era o dia de finalmente atravessar a fronteira do estado e chegar no próximo, Kentucky.
Mas tinha um tantão de Virgínia pra encarar ainda, então deixei o parque com o Joe cedinho. Principalmente porque antes de sair do estado sem fim, ainda tinha uma megassubida de uns 3 km logo antes do parque de Breaks. Mas a essa altura, já não há mais subida que não se encare se for cedo pela manhã, a marcha estiver baixa e a paciência, alta.
Mesmo com a chuva, escalamos a ladeira numa velocidade bastante razoável, e às dez e meia da manhã alcançamos a linha entre a Virgínia e o Kentucky. E ainda tinha uma placa bacanuda para tirar foto. O tempo estava feio de dar dó, nós molhados e cansados, mas a alegria de sair da Donzelínia era tanta que a cena ficava bonita.
A diferença entre os estados é bem nítida: você entra no Kentucky, e começa a ver casas bem pobres e largadas não muito longe de mansões. Cães de guarda por todos os lados, que vão seguindo a bike e tentam te pegar de qualquer jeito. Joe, que tem medo de cães, é a vítima preferida. Eu aplico o que César Milan ensinou, me concentro em projetar uma aura de confiança e calma, e eles pouco se abalam comigo.
As pessoas têm mais aquela cara de caipira de filme também, e tem muita gente mal-encarada. E, aparentemente, o meio de transporte preferido dos nativos é uma moto de quatro rodas, muito barulhenta, parece um jipe miniatura. Adultos, crianças, homens e mulheres, todos correm em cima desse monstrinho.
O plano da noite era ficar num albergue ao lado de um centro social da igreja metodista na cidade de Council. Chegamos no lugar e não tinha ninguém. Mas estava fazendo um solzinho, era horário comercial, então achamos que era melhor esperar os responsáveis chegarem, que deviam ter saído mas já voltavam. Aproveitei os primeiros raios de sol da semana pra espalhar as roupas todas pelo chão, e no processo espalhei quase tudo, mal havia algo que não estivesse úmido na minha bagagem. Fiquei esperando e assistindo Avatar, The Last Airbender, as horas passaram, e nada do povo da igreja. Já vendo no que ia dar, fui com Joe ao mercado ali perto, comprei a janta tosca e o café da manhã do dia seguinte, e voltamos a esperar.
O sol baixou, a lua subiu, e ninguém chegou. É triste se sentir sozinho no mundo, mas se sentir sozinho no mundo sem um banho depois de pedalar por ladeiras é bem pior. Ah, se eu tivesse alguém que me quisesse bem… Mas não tinha quem oferecesse um banho, nem quem dissesse desiste, essa busca é inútil. Com perfeita paciência, montei a barraca, inflei o colchãozinho, coloquei os pertences dentro dela que já ia chover, e estiquei meu corpinho imundo enquanto via as primeiras gotinhas baterem no teto (agora bastante impermeável) da Iracema. Fui dormir abatido, desencantado da vida.


