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Bizarramente, quando eu tenho hora pra acordar, meu relógio interno me desperta antes de medo que eu perca a hora. Isso já me aconteceu várias vezes na vida, mas nesse caso, em que eu preciso dormir bem e profundamente mais do que tudo, tanta precaução do meu subconsciente me incomoda. Mesmo estando um colchão bacana no albergue e tendo ido dormir dez e meia, eu acordei às duas, às três, às três e vinte, até finalmente levantar de vez às três e cinquenta. Desliguei o alarme pra que ninguém mais no quarto acordasse, e procedi com a preparação toda de café da manhã, uniforme e malas no escuro.
A recomendação do roteiro é de pedalar pouco hoje, 50 e poucos km, porque é o primeiro dia de montes de verdade. Eu também tenho outra razão pra pedalar abaixo da média de 80 km por dia hoje: depois de Afton, onde eu parei hoje, tem uma subida de elevação realmente grande. Com o calor que está por aqui, subir a pirambeira passando no calor é muito sofrimento junto. Então resolvi parar logo antes, e amanhã de madrugada subir a ladeira no escuro.
Outra coisa divertida do dia de hoje foi a presença de vários ciclistas matinais, que cruzavam as estradinhas da trilha com as mesmas fantasias de ciclista que eu estou usando, mas em bikes muito mais fininhas, levinhas, e acelerando morro acima e morro abaixo como se fossem tirar a mãe da forca. Eu, na minha vida de caramujo, baixando a marcha pros níveis mais baixos e pedalando pacientemente que uma hora a subida vira descida. Mas os bikers são simpáticos, em geral cumprimentavam. Um deles, enquanto me passava, perguntou “Você vai pra onde?”. “Pro Óregon”, eu respondi. “Uau, ok, espero que você chegue antes do almoço!”. É, dá pra rir.
No finzinho, já chegando em Afton, tive um preview do que vai ser amanhã: uma subida constante, que sobe sobe sobe, sobe mais um pouco, e quando você pensa que parou de subir, a estrada faz uma curva e continua subindo mais. Dez e qualquer coisa da manhã, a temperatura subindo, eu suando por todos os poros, trombei (felizmente) com o endereço da Cookie Lady, que eu já tinha contatado no dia anterior.
A Transamerica Bicentennial Bicycle Trail, que estou seguindo, foi estabelecida em 1976, quando os EUA comemoravam 200 anos. Desde 1976 que June Curry dá uma forcinha pros ciclistas que passam pela porta dela. No início ela dava água, depois começou a fazer cookies pra ajudá-los ladeira acima (daí o apelido pelo qual ela é famosa, “Cookie Lady”), até por fim ela converter a casa ao lado da dela em um mini-hotel para os bikers. Todos os guias, mapas e referências da jornada falam sobre ela quando chegam nesse trecho.
Eu tinha conversado com a nova responsável (que, descobri depois, é a nova proprietárias das casas) no dia anterior, e, como combinado, ela tinha deixado a chave da bike house debaixo de um vaso vazio ao lado da entrada. Que maravilha essas comunidades onde as pessoas confiam. Assim que cheguei, ainda zureta do calor e da subida, as pessoas que passavam perguntaram se eu estava procurando a tiazinha dos biscoitos, e apontaram que ela estava na sacada dela. Parei na frente da casa, e lá estava ela, velhinha de tudo, conversando com uma amiga. Falei um oi do chão pra ela na sacada do segundo andar, a amiga me apontou pra ela, e ela se agarrou na bengala, fez força e foi tremendo até a beirada. Eu com uma cara de pelamordedeus, deixa a velhinha sentada na cadeira dela que eu não mereço tanto esforço, mas a amiga garantiu que ela fazia questão e ficava feliz de ver quem passava.
Abri a casa dos ciclistas e entrei no santuário do esforço sobre rodas. A casa tem quatro salas, um banheiro (sem chuveiro) e uma cozinha. Todas as salas têm as paredes literalmente COBERTAS de cartões postais, cartas de agradecimento, roupas de ciclista, retratos, luvas, câmaras de borracha, pneus, para-choques, capacetes, desenhos, recortes de jornal… Não tem uma superfície sem algo interessante. Dá pra ver que nesses 36 anos a tiazinha dos biscoitos foi acumulando um tesouro de goodvibes deixadas pelos ciclistas que passam por sua rua e, de alguma maneira, levam ela pra viajar consigo.
O triste é que tenho uma sensação de que peguei o fim da lenda. A última assinatura no guestbook é de duas pessoas que passaram por aqui 15 dias atrás. A casa cheira a guardado, e claramente ninguém passa uma vassoura nela há mais de um ano. Do que eu vi a miss June, ela ainda é contente e tal, mas não tem mais condições de fazer cookies pra ninguém.
Cheguei, comi um pouco das minhas reservas, troquei de roupa e puxei o ronco, feliz da vida. Dormi tanto que fiquei até lento. Horas depois, fui procurar algum lugar pra comer qualquer coisa, e descobri que realmente não tem NADA aqui. Bati numa loja de antiguidades bem mais pra baixo na rua, e a senhora que me recebeu disse que realmente não tem onde comprar nada. Mas mandou a filha dela fazer um sanduba pra mim, bem gostoso. Voltei pra casinha empoeirada e fiquei descansando, lendo e cochilando mais um pouco, pela primeira vez sem ter que fazer funções como montar barraca, ir no correio nem nada.
Às cinco da tarde a fome começou a apertar de novo, e, com o sol mais ameno, fui descobrir onde se conseguia algum vívere numa distância razoável. Resposta: num posto de gasolina minúsculo, com uma conveniência pequenota, a 10km de distância. Morro abaixo. Lá me fui, comprei a melhor comida que dá pra encontrar num lugar desse (ou seja, enlatada), e pedalei a ladeira toda de volta.
Nenhum outro intrépido ciclista apareceu, então eu tenho a casa toda pra mim. Depois de enfrentar a ladeira toda duas vezes, estava suadão, precisava de um banho mas não tinha chuveiro. Oh well, a torneira da cozinha soltava água, lá fui eu tomar um banho em 10 suaves prestações na pia da cozinha, me sentindo como se competisse nA Fazenda. Dava um medo da nova dona da casa surgir pra saber como eu estava e trombar comigo ensaboado no meio da cozinha, mas não aconteceu, então tudo bem. Até porque tenho certeza que eu não sou o primeiro viajante a tomar essa decisão drástica lá.
Não consegui falar com a tiazinha dos biscoitos, o que é uma pena. Vou deixar um bilhete bem bacana pra ela adicionar à coleção. É o mínimo que ela merece por criar esse espaço tão incrível pra quem precisa.



