View Larger Map
Ontem corri para terminar o post do dia porque ia começar a chover. Pois bem, choveu. Não chegou a ser uma tempestade, mas era uma chuva respeitável. E foi nessa hora que eu descobri que Iracema, minha acolhedora barraca-sarcófago, não era a prova d’água.
Não era como se não tivesse nada entre eu e a chuva, mas era uma situação bem ruim. A água começou a se infiltrar pelo tecido, acumular e pingar dentro da barraca. O ambiente começou a ficar úmido, o chão dentro da tenda, molhado. A maior parte dos meus badulaques já estão dentro de sacos plásticos anyway, então eu não tinha que mega me preocupar com o efeito da água nos meus pertences. Mas era muito desconfortável, e, principalmente, irritante. Eu não conseguia dormir, e precisava. Então, num ímpeto, saí na chuva que tinha amainado um pouco, e levei todas as minhas tralhas pra uma área de churrasco coberta logo perto. E daí desmontei a tenda, pendurei o tecido molhado no mourão do telhado, coloquei meu colchão inflável no chão, entrei no saco de dormir e tentei puxar o ronco.
Mas, é claro, daí eu estava à mercê dos insetos, e fui acordando ao longo da madrugada para aplicar mais e mais repelente de insetos cada vez que levava uma picada. Não foi uma noite feliz. Quando o despertador tocou, às quatro da manhã, eu quase fiquei contente.
Consegui sair do camping às cinco e meia da matina, e lá fui eu descendo a Virgínia, rumo à trilha oficial da TransAmerica Trail. O caminho foi quase todo em estradinhas locais que ligam as cidadecas-subúrbio da região entre si. Pouco movimento de carros, longos trechos arborizados, asfalto djoia pra se pedalar. De notável, a quantidade enorme de pickups com eixo erguido para caber aquelas rodonas que mal conseguem fazer curvas e matam seus donos. Cada vez que eu via uma, tinha vontade de dar umas dicas de segurança pro dono e perguntar se ele estaria overcompensating por alguma coisa, masalas, isso é impossível.
Já na hora final do trajeto, a bateria do iPhone estava chegando ao fim (esse negócio de usá-lo para registrar o trajeto come uma bateria danada), e eu resolvi usar minha cara-de-pau e pedir para um dos nativos deixar eu usar a tomada por meia hora. Escolhi uma moradia que tinha um casal cuidando dos gramadões de sua fachada, parei com a bike, pedi pra usar a tomada e eles disseram sure.
Na minha fase de preparação para essa viagem, eu li Across America by Bicycle, um livro em que duas senhoras recém-aposentadas, Alice e Bobbi, relatavam a viagem que fizeram cruzando os EUA de costa a costa, mas pelo norte, e do Pacífico para o Atlântico. Me ficou a impressão de que elas carregavam peso demais, falavam o tempo todo de comida e desistiram do conceito de acampar no terceiro dia, mas mais importante, numa hora elas comentam como resolveram “aceitar a ajuda de estranhos quando nos é oferecida”.
Quanto mais longe dos grandes centros, maior a chance das pessoas se oferecerem pra ajudar, e eu já estou comprovando isso. O casal deixou que eu ficasse lá comendo na varanda deles enquanto o celular carregava, me trouxeram uma garrafa de água geladinha “pra ajudar contra o calor”, e colocaram os quatro cachorros para dentro para que eles não ficassem me cercando. Pensando na enchente pessoal da noite anterior, eu perguntei pra esposa se havia alguma loja de material de acampamento nos arredores. Ela respondeu que talvez na cidade de Louisa, a umas dez milhas dali. Fiquei pensando com os meus botões se iria pra lá ou se esperaria uma loja surgir no caminho.
Quando eu finalmente terminei de comer e empacotei comidas, cabos e tudo mais, o dono da casa trouxe mais água gelada para repor meus estoques, e eu já fiquei superagradecido. Me despedi, e já estava pedalando pro meu destino final, quando eu ouço ele me chamar. Ele se aproximou com uma lata de spray enorme na mão. “Minha mulher me disse que você está precisando impermeabilizar sua barraca. Não vai ter loja aberta em lugar algum hoje, por conta do feriado. Então leva isso aqui.” Era um spray impermebializante, para tecidos, couros e lonas.
Nessa hora me deu um flashback do Caminho de Santiago e me veio aquela sensação feliz (que minha querida amiga Andréia Moroni também sentiu) de que as pessoas são essencialmente BOAS, e capazes de atos de generosidade para com estranhos quando a gente menos espera. Meio pasmo, agradeci ele mais mil vezes. Ele disse pra eu tomar cuidado com a estrada, e lá fui eu, todo comovido, para as dez milhas finais do dia.
Mais um sinal da bondade alheia? A cidade em que parei hoje, Mineral, permite que você acampe de graça no gramado do Corpo de Bombeiros. O oficial que me recebeu me mostrou onde acampar, me levou pra dentro do prédio deles, me mostrou onde eu podia ir pro banheiro, onde ficava a cozinha, onde tomar banho… Tudo de grátis. Feliz da vida, montei Iracema no sol, e gastei a lata inteira de impermeabilizante em todo seu corpinho protetor. Depois transferi ela pra um lugar com sombra. Vamos esperar a próxima chuva, mas eu tenho fé no spray que The Powers That Be providenciaram pra mim.
Mais tarde, chegou outro ciclista, um coroa que descobri ser alemão. Ele também está fazendo a TransAm, mas no sentido oposto – ou seja, ele já está na reta final e logo mais chega no oceano Atlântico. Conversamos um pouco, ele me contou o que vem pela frente, e colocou sua barraca num lugar muito mais inteligente que o meu – nesse momento, ele está feliz na sombra, enquanto a minha tenda está de volta no sol, por conta do entardecer. Meses de experiência extra dele, I guess. Invejei.
Agora, fim de tarde, estou terminando todos meus escritos, em breve guardo o escritório de volta na mochila e vou descansar. Estava com esperança de ver uns fogos de artifício hoje à noite por conta do feriado, mas me disseram que não fazem mais fireworks aqui em Mineral porque há alguns anos umas casas pegaram fogo por conta de gente sem noção, então ficou proibido. Que peninha.



Oi Marcio, tudo bom, é bom ver vc escrevendo e contando tudo o que acontece, assim, lendo tudo eu fico bem mais tranquila de saber q vc esta bem.
Pensei em fazer tipo um blog pra minha viagem pro canada, mas eu sei que não vai ter coisas tão emocionantes e legais para contar como vc.
Bom, saudades, fico preocupada com vc, continue escrevendo.
Beijos!!!! <3