Cajaíba

Quando a Déia me mandou um e-mail convidando pra passar o Carnaval com ela numa vila de pescadores, sem luz elétrica nem água tratada, meu primeiro impulso foi dizer não. Não só pelo esquema meio "no limite", mas também porque deveria fazer economias se os planos que eu tenho para o resto do ano vão se concretizar.

Mas daí, ainda com as lembranças das praias em Floripa na memória, eu refleti melhor. Seria uma ótima oportunidade de conhecer um lugar novo, passar tempo com uma amiga querida, pegar um bronzeado e conhecer gente nova. Resolvendo me apertar pelos meses futuros, respondi que iria sim.

Uma semana depois, conversando com Cynthinha, ela disse que não sabia o que faria no Carnaval. Eu contei pra ela dos meus planos, e disse que se ela quisesse podia ir também que tinha lugar. Para minha surpresa, ela aceitou!

E foi assim que na sexta, dia 20, fugi do fechamento da Recesso (com o consentimento da Pri Chefinha) para pegar um busão às dez e meia da noite que nos levaria a Parati, numa viagem de seis horas, em média. Junto conosco ia Ruben, suas amigas paraguaias, Uana, sua ex-vizinha, e três amigas dela.

A viagem foi praticamente insone, com altos papos com Cynthia, e bastante rápida. Três e pouco da manhã estávamos na rodoviária de Parati, e carregamos nossas malas pelas ruas alagadas do centro histórico, pulando de pedra em pedra. Ruben conseguiu logo um barco que nos levasse até Cajaíba, a vila para onde íamos. Eu, que nunca tinha andado muito de barco, me surpreendi com o medo que senti da viagem de duas horas e tanto que iríamos fazer. Pegamos um chamado Mirage III, que saiu do cais ainda no escuro. Demorou vários minutos vendo os pontinhos fosforecentes que surgiam na água deslocada pelo barco pra eu me acalmar e deixar pra lá o que aconteceria se o barco balançasse e eu caísse no mar.

Chegamos em nosso destino pouco depois do dia raiar nublado. Íamos ficar numa casa amarela, na ponta da praia, feita de tijolos com puxadinhos de bambu em cima e ao lado. Me instalei numa cama do segundo andar, e peguei pra mim um mosquiteiro que estava lá dando sopa. Depois de comer um PF de lula típico, passei o resto do dia dormindo, me recuperando da viagem.

Havia quinze pessoas na casa, sendo a Déia o elo entre todos. O Luiz, marido da Déia, tinha comprado provisões barateiras para a sobrevivência sem geladeira: seis latas de leite em pó, quarenta pacotes de bolacha, R$ 0,50 cada uma, e alguns pacotes de macarrão que acabaram não sendo feitos. Logo aprendemos que andar de chinelo nas areias grossas da praia mais fazia mal que bem, e passamos a andar descalços.

No segundo dia de viagem resolvemos fazer uma trilha até a Praia Grande. Em teoria, em uma hora e meia chegaríamos lá. A verdade é que dias e mais dias de chuva haviam transformado o caminho, que já não era muito fácil, num lamaçal arriscadíssimo. Demoramos quase três horas pra chegar numa praia vizinha à que íamos, depois de encarar barrancos difíceis de subir e pior ainda pra descer, formigas canibais e raízes traiçoeiras. Nesse ponto, voltar a pé já era plano esquecido; metade do grupo ficou por lá mesmo, e seguimos nós, os destemidos bem-dispostos, até a tal Praia Grande, achar um barco que levasse todos de volta.

Mais uma hora e tanto pra chegar nela; meia hora pra chegar numa cachoeira, que era o objetivo de tanto esforço, onde perdi metade das unhas do pé esquerdo num escorregão numa pedra. Mais uma hora esperando surgir um barco que nos levasse de volta à nossa choupaninha, que àquela hora já nos parecia um Hilton. Quando o barco chegou na praia onde havíamos largado os outros, descobrimos que os facinhos tinham pegado o primeiro barco que passou e já deviam estar todos em casa. Só não ficamos com mais raiva porque as chaves estavam comigo, então todos passariam frio do mesmo jeito. Depois de quase cinco horas de sofrimento voluntário, a Déia não aguentou, e, tremendo de frio pela chuva que caía nela, somada ao vento inclemente (natural e do barco), começou a se castigar, dizendo "E eu que escolhi isso tudo!! Eu que escolhi!! AAAAAAA!!".

Os outros dias foram menos aventureiros, repletos de boas conversas, mosquitos famintos, banhos gelados, risadas calientes e nada de sol. No terceiro e quarto dias a Cynthinha descobriu a vida noturna da praia, o que a fazia sair de casa às dez da noite e voltar com o dia raiando. Se o protetor solar ficou quase inutilizado, o repelente de insetos foi essencial para nossa sobrevivência.

No último dia deu um mormaço (mas nada de sol), e eu não tive dúvidas: deitei na praia e fiquei lá cozinhando no vapor. Podia ir embora sem ver o sol, mas não ia voltar pra metrópole tão branco quanto fui. O plano deu certo; fiquei vermelhinho de um tanto que eu sabia que não ia nem descascar, e que no dia seguinte eu estaria mambo jambo como desejava.

Voltei para a civilização bastante feliz com meu feriado, contente por ter reforçado amizades antigas, ter feito algumas novas, e conhecido bastante gente. Não descansei tanto; disso aprendi que, para um ser urbanóide como eu relaxar, são necessárias luz elétrica e água tratada. Mas não voltei decepcionado nem tão pouco infeliz; como bem disse a Déia, "fui eu que escolhi!".