Retratos

Não sei se pra todo mundo é assim, mas eu sempre prestei muita atenção nos retratos que se espalhavam à minha volta.

Na casa da Vó Maria, por exemplo, tinha um retrato do Vô Dico vestido de jogador de futebol, agachado no gramado, olhando pro infinito. A foto era em preto-e-branco, com o uniforme dele pintado de verde. O que sempre me deixou com uma interrogação na cabeça, já que o Vô Dico sempre foi corintiano.

(Isso sem mencionar um quadro na sala da vó, de um pescador escurinho e triste, que eu demorei até uns onze anos pra sacar que não era um retrato do meu vô, também pescador.)

Por um bom tempo, no corredor de que casa fosse que a gente estivesse morando, teve um retratão preto-e-branco de Mãinha, novinha em folha, que eu sempre achei muito bacana, mas ela não. Um belo dia o colchão ortopédico do Danilo quebrou no meio e o retrato sumiu. Descobrimos mais tarde que o retratão foi enfiado dentro do colchão, pra dar suporte à madeira quebrada que o fazia ser ortopédico.

Quando o tio Benê ainda tinha esperança de fazer de nós corintianos, tiraram um retrato meu e do meu irmão com a camisa do time, que virou uma folha de retratinhos 3×4 com vários níveis de exposição. Uma tirinha dessas fotos sobrevive até hoje na minha estante.

Mas, sem dúvida, o retrato mais legal de todos é um não fotográfico. Enquanto o Vô Anselmo teve o Locanda, um hotel em Nova Viçosa, sul da Bahia, Pai, Mãinha e filhotes iam passar o Ano Novo lá.

Me lembro de algumas coisas dessas viagens, a começar pelo suco de saquinho que nós bebíamos durante a viagem: pai enchia uma garrafa térmica enorme de gelo, e conforme o dia de viagem passava, a gente parava o carro e fazia qui-suco com a água que tinha derretido.

Uma vez a gente passou à noite numa ponte de madeira e corda, sem guarda lateral, que parecia que ia virar. Pai passou a pé por ela antes, pra testar sua resistência. Sei lá o que fariam se a ponte não resistisse aos pulinhos que ele deu e ela caísse como num filme do Indiana Jones.

Já no hotel, Pai saía pela praia e achava argila. Lembro de ele uma vez fazendo um pato meio com cara de homem, o que me impressionou muito já que eu só conseguia fazer minhocas. O pato ficou na prateleira da sede de praia do Locanda muito tempo.

A gente ficava sempre no mesmo quarto, o que eu achava muito chato. Os cafés da manhã eram enormes, cheios de sucos de frutas que eu não gostava, manteiga e geléia em potinhos redondos muito engraçados, e frutas que eu não comia. Em compensação, os funcionários do hotel faziam misto quente no Tostex pra mim sempre que eu pedia (o fato de eu ser neto do dono deve explicar isso). Um dia Vô Anselmo apareceu no café da manhã de camisolão, o que eu achei muito estranho. Em época de novela Roque Santeiro, a gente infernizava o povo do balcão de entrada, tocando a campainha em imitação à abertura da novela cada vez que passávamos por lá.

E, um belo dia, não sei da onde, como ou por que, um tio lá fez caricaturas da gente. Sei que o cara chama Jorge Braga porque, afinal, está assinado no desenho. Foram dois desenhos, posteriormente fotografados, ampliados e colocados na parede da sala: um de Mãinha, outro de Pai, eu e Meirmão. O de Mãinha era mais caricatural, com ela de duas bolinhas pretas de olhos, cabelo curto, bocão, dedicado à "mamãe gaga". Não durou muito o quadro desse; Mãinha logo deu sumiço na reprodução (percebemos um padrão aí?).

Já o dos meninos da família ficou muito, mas muito semelhante mesmo aos modelos. Lá está Pai, ainda cheio de cabelos pretos, com cara de paizão, uma mão no ombro de cada filhote, e cada filhote com cara de bobo e dentuço de dar dó. Eu sei que eu sou o da direita porque eu tinha feito um machucadinho no alto do nariz alguns dias antes, e o cara registrou para sempre no desenho o que, de outra maneira, seria apenas mais uma casquinha na minha vida. A dedicatória se explica pelo desenhista brincar que o pipi de Pai havia gaguejado fazendo a gente, razão de termos saído gêmeos.

Ironicamente, meu cabelo no momento, por indefinição de corte, está assustadoramente parecido com o que eu exibo no desenho, feito há exatos vinte anos. Queria ver o desenho que Jorge Braga faria hoje da gente. Se é que ele ainda faz isso.