20110526g

A saga das prateleiras

Como tantas outras coisas, tudo começou com boas intenções e um otimismo desmedido. Já fazia um tempo que eu me compadecia do meu roomie João Franco, sempre trancado no quarto, oprimido pelo espaço que eu ocupo no apartamento. Ele dorme e trabalha e vê TV em seu quarto, enquanto eu durmo no meu, uso a sala como escritório e me entretenho por todos os cômodos com aparelho de som, iPad, computador e a televisão flat screen que o João trouxe para o apartamento quando se mudou pra cá. Sem falar que a sala, nossa área comum, é apinhada por CDs, livros e quadros meus. O fato dos cosméticos do Johnny ocuparem a maior parte das superfícies do banheiro não compensa, really.

Irritado com o efeito Tetris da mobília aqui de casa (coisa demais pra espaço de menos) e com a consciência pesada por prender meu roomie no próprio quarto, armei um plano infalível. Simples: vou mandar instalar prateleiras no alto das paredes do quarto e da sala. Assim ergo todos os livros e CDs, me livro de todas as estantes, e com esse espaço remanejo a mobília. Trago o piano para a sala, levo a mesa para o quarto, e com pouco esforço deixo a sala mais housemate-neutral e renovo o quarto.

A busca pelo profissional

Comecei a caçar um marceneiro que fosse capaz de fazer as prateleiras e instalá-las no meu apartamento. Pedi indicação para inúmeros amigos, joguei a questão no Twitter, e recebi algumas recomendações. Bizarramente, todos ocupados pelos próximos meses. Quando finalmente eu consegui um que estava disponível para a semana seguinte, chamei na hora. Ele foi indicado por um amigo de muita confiança (que permanecerá anônimo), então o que pode dar errado, não é?

Seu Isaías veio aqui no apê num sábado, mediu as paredes, deu um orçamento salgadinho e garantiu que estaria tudo pronto em uma semana. Eu só precisava adiantar metade do valor para que ele comprasse as madeiras e as ferragens necessárias para fazer as lindas prateleiras que eu tanto queria.

Segunda-feira eu fiz a transferência. Liguei para avisar, e ele me prometeu vir na sexta. Quinta-feira pedi uma confirmação. O marceneiro diz que não conseguiu as peças necessárias e que só na semana que vem.

Segunda-feira seguinte, liguei de novo, e a data foi postergada para a quinta. E depois para a terça. E daí para a sexta. Quando ele mais uma vez remarcou para a terça, eu rodei a baiana. Que era um absurdo, que isso não se fazia, que tinha que dar uma data certa. “Seu Marcio, você não acha que eu tô dando golpe não, né?”. Achar achava, mas não podia dizer. Ele garantiu que de terça não passava.

Na manhã de segunda as madeiras chegaram. Não eram assim as madeiras dos meus sonhos, mas eram aceitáveis. Terça de manhã (mas não muito cedo) Seu Isaías chegou com um auxiliar. “Pode ir trabalhar sossegado, que vai ficar tudo certo, viu?”. E lá fui eu trabalhar, já pensando como organizaria meus livros.

Desastre bambo

Cheguei à noite e meu ânimo desolou-se instantaneamente. Pra começar, Seu Isaías não tinha terminado o serviço. Na sala, duas prateleiras das quatro prometidas. Apoiadas em grampos que estavam longe de serem perpendiculares à parede. No quarto, os grampos estavam mais tortos ainda, a prateleira de uma parede numa altura, a da outra mais alta, e para compensar a diferença e ligar uma à outra, um pedaço que – sério – foi colocado inclinado. Pedaços da viga onde a prateleira foi instalada tinham caído, a parede toda rachada, e as prateleiras, sustentando-se em apoios mínimos, balançavam por qualquer empurrãozinho.

Já todo tristonho, fiz o teste de colocar alguns dos livros que iriam nas tais prateleiras. Fatal: quinze minutos depois, as prateleiras desabaram num estrondo, caindo em cima do Lampinho, estragando os livros caríssimos, riscando o piano e estilhaçando meus quadros de pôsters de filme, tão queridos.

No dia seguinte Seu Isaías voltou. Já recebi ele de cara feia e comecei a esbravejar sobre o serviço mal-feito. Ele respondeu que eu não devia ter colocado o peso ainda. E se negou a admitir que estava tudo torto, por mais claramente troncho que tudo estava. Resolveu que ia colocar uns grampos mais grossos e que daí tudo se resolveria. Eu mandei ele tirar tudo das paredes do quarto e voltar quando soubesse o que fazer.

Ele marcou para voltar na outra sexta. Duas noites olhando para os buracos desastrosos nas minhas paredes. Quando o dia do retorno chegou, o desgosto já era tanto que eu resolvi que não dava mais. Liguei pra ele e disse pra não vir. Ficasse com o dinheiro que já tinha recebido. Agora eu tinha que consertar os estragos.

Cãozinho fugido

Convoquei o pintor que costuma fazer serviços aqui no prédio. Com o coração apertado e dor no bolso, orcei a reforma; entre consertos das prateleiras e servicinhos de pintura que deviam ser feitos há tempos, quase o apartamento inteiro tem que ser repintado. Comprei as tintas e mandei entregar na segunda-feira de manhã. E comecei a torcer para que dessa vez pelo menos as obras fossem mais tranquilas.

Segunda deixei um recado para a faxineira avisando que iam chegar as tintas e talvez começasse a pintura. Liguei para ela às onze. Ela me atende meio atarantada, dizendo que os caras da loja de tinta estavam no outro lado da rua, se recusavam a cruzar para a outra calçada e queriam que ela mesma descesse e carregasse as latas para o apartamento. Pasmo, lá fui eu ligar para a loja, fiz mais um pequeno escândalo, e ficou garantido que as tintas seriam entregues sem minha faxineira ter que carregar uma lixa.

Dia seguinte, deixei a chave para Seu Luís, o pintor. Fui almoçar com o pessoal da agência, todo satisfeito… quando o celular toca, identificando o número de casa. Era Seu Luís.

“Seu Marcio? Então, pois é, seu cachorro. A gente abriu a porta, e ele saiu correndo! Desceu pela escada numa disparada, cê nem sabe, e foi pra rua! Algum amigo seu foi atrás, agora seu cachorro está no posto de gasolina!”.

Nem tinha começado a comer, larguei tudo, catei o primeiro táxi que apareceu e lá fui eu correndo para meu prédio. O pintor na entrada da portaria, meio aflito, contando como aconteceu, que o Lampinho não deixava ninguém chegar perto. E que tinha ido naquela direção. Desci a Heitor apertando o passo, na esperança de localizar meu cãozinho, mas nem sinal.

Voltei para casa e peguei meus cartões de visita. Saindo do elevador, eu, que sempre fui tão calminho, tive que subir nas tamancas mais uma vez, esbravejando para os porteiros que era inconcebível que eles vissem o cãozinho sozinho e o deixassem sair. “Mas ele saiu junto com uma senhora, seu Marcio!”. Que consolo. “Fica tranquilo, que ele já voltou duas vezes!”. Soltando fumaça, saí pelo bairro de novo, antes que eles tentassem consertar a situação mais uma vez e eu ficasse ainda mais irritado.

Passei uma hora andando pelo Sumarezinho, perguntando se tinham visto um cãozinho branco e dourado, peludinho e bonitinho, de rabo bem peludo, mas nem sinal. Cartões para todos os vigias, jornaleiros, atendentes de balcão e velhinhos de esquina que eu encontrava. Andando, suando, e convencido de que jamais o encontraria assim, com o medo de que um cãozinho tão lindinho não seria devolvido para o dono, apesar do número de celular na medalhinha da coleira.

Felizmente, Lampinho voltou pela terceira vez, parou tremendo na frente do prédio e, quando abriram a porta da garagem, ele entrou sozinho. Recebi a ligação pouco depois, dizendo que ele já estava em casa. Voltei correndo para o prédio, cheguei no meu apartamento e lá estava meu cãozinho, sorrindo aliviado.

E os serviços de pintura continuam. Hoje foi o dia de pintar a sala, o que exigiu que eu levasse todos os livros de lá para o quarto. Quilos e quilos, colocados em cima da minha cama. Voltei de noite… ainda faltava terminar a sala, e os livros todos lá onde eu tinha deixado. Já resolvi que não vale a pena tirar tudo da cama de volta pra estante, pra depois ter que tirar da estante e colocar de volta na cama. Vou dormir no sofá da sala. Depois que pintar tudo, daí lá vamos nós colocar as benditas prateleiras. E a saga continua.