O livro de mamíferos

A alegria pode vir das coisas mais inesperadas.

Estávamos na Recesso, em mais um dia de trabalho, quando a Gi nos chamou para vermos a planta da mudança. Nossa redação seria transferida para o outro lado do andar, e a gente devia escolher onde íamos ficar na disposição nova das mesas.

Papo vai, papo vem, memórias do caos da outra vez que a redação mudou de lugar afloram, e a Mô diz "Pôxa, ninguém achou ainda o segundo livro dos mamíferos?". Vários nãos desanimados vieram das repórteres.

Sendo a Recesso uma revista infantil, grande parte das pautas são baseadas em bichinhos. Desde capas sobre a existência do panda vermelho, até tira-dúvidas sobre como as girafas dormem, a tartaruga faz xixi ou qual o animal mais venenoso do mundo. E assim, me explicaram elas, acaba-se tendo que fazer muita pesquisa.

O livro dos mamíferos era uma obra em dois volumes de novecentas páginas cada um, em inglês, falando absolutamente tudo sobre todos os mamíferos, escrito por cientistas mundialmente reconhecidos e supermeticulosos. Assim, por um ano, elas foram felizes e contentes, pois a super-referência estava lá para ser consultada sempre que se tornasse necessário saber quanto tempo dura os dentes dos leões ou qualquer coisa do gênero.

Mas, na última mudança, o segundo volume, que tem mais da metade dos bichos listada, perdeu-se. Elas tentaram comprar apenas o primeiro na Amazon, mas só vendem os dois juntos. Em sites de leilão como o E-Bay, ironicamente, elas só encontravam o primeiro para vender. E assim, elas vertem lágrimas de saudade sempre que uma criança escreve perguntando como que as baleias amamentam.

Mal tinha a Mô me contado essa história, a coordenadora do website diz "ei, tem um monte de livro num canto do meu armário que eu não mexo porque deve ser de alguém…". Um brilho de esperança passou pelos olhos do pessoal de texto, mas por pouco tempo, pois não queriam se decepcionar depois. Seria bom demais para ser verdade.

Mas eis que ela vai até o armário, mexe lá por alguns minutos, e volta pouco tentando segurar um livrão. "É esse aqui, por acaso?". "SIIIIMMMMMM!!!", comemoram elas, mal acreditando no que viam. Aposto que nenhum outro exemplar desse livro foi tão festejado, abraçado e acariciado quanto aquele. E agora elas aprenderam a lição: quando começaram a empacotar para a mudança, a Mô fez questão de colocar os dois na caixa dela, a qual foi fechada por ela mesma. Chorar lágrimas de crocodilo por mamíferos, nunca mais.