Se existe um lugar que veio ao mundo a trabalho, é Xangai. Porto comercial desde sempre, com um passado de puteiro da Ásia, hoje o maior centro financeiro da China, a cidade quer ganhar dinheiro, e não tem a menor vergonha disso.
Então não chega a surpreender que, andando pelas ruas de Xangai, você se sinta o tempo todo num mercado. Desde que cheguei por aqui, não consegui encontrar ainda uma área puramente residencial – elas devem existir, mas bem, bem longe. Sejam os shopping centers lindos e gigantes, sejam as lojas de comércio popular, sejam as barraquinhas ao pé da calçada, sempre tem alguém querendo te vender alguma coisa. À chinesa.
Quando você sai das lojas de grife para uma relação mais téte-a-téte com o vendedor, o preço passa a ser algo totalmente negociável. Por terem certeza que o comprador vai regatear, os vendedores jogam o preço lá em cima; por saberem que o preço proposto vai ser um absurdo, os compradores oferecem quase nada de volta. É um ovo ou galinha econômico. Com o tempo pode-se adquirir uma certa apreciação pelo teatrinho obrigatório na hora de pagar, mas é algo bastante desconcertante, principalmente para culturas como a brasileira que não costumam fazer esse tipo de negociação. O vendedor vai fazer drama, vai dizer que o produto é de ótima qualidade, que você quer acabar com o negócio dele, e o comprador tem que segurar firme, soltando a linha muito lentamente, não importa a choradeira, até chegar-se num acordo. Mostrar desprezo pelo que se quer ajuda. Ter uma atitude de desapego também: nem sempre a negociação dá certo e pode-se sair sem o produto, mas também sem pagar o preço absurdo. Uma boa medida é que se deve pagar entre 1/4 e 1/3 do preço que o vendedor ofereceu inicialmente.
Minha visita ao Fake Market, guiado pela Mari, teve exemplos primorosos disso. Seguindo o modelo StandCenter de comércio, o Fake Market é um edifício de uns oito andares, em que lojinhas se enfileram numa sucessão initerrupta de camisas, ternos, calças, tênis, óculos, relógios… todos das mais respeitáveis marcas, vendidos por frações do que custariam nas lojas. Nike, Adidas, Abercrombie & Fitch, Louis Vuitton… estão todos lá aguardando que se combine o preço certo. Não sabemos se são parcelas das produções dessas marcas que são desviadas (afinal, quem não tem produtos Made in China hoje em dia?), ou se são apenas cópias muito bem-feitas.
Um gringo andando pelo Fake Market é alvo de assédio constante. Os chineses vão te buscar no meio do corredor, entram na sua frente, imploram com vozes mais ou menos chorosas, tudo pra fazer você entrar em sua lojinha. Eu queria comprar bermudas, e fui andando com o olho atento para alguma em exposição que me agradasse. Quando encontrei o que queria (outra dica: nunca comece a negociação se não for levar), assessorado pela Mari, criei coragem e perguntei qual era o preço. Com valores já convertidos para reais:
– As duas? Posso te fazer por R$ 160,00, diz a vendedora.
– R$ 160?!? Que absurdo! Muito caro, respondo. Dou R$ 30.
– R$ 30? Não posso! Muito baixo! R$ 150.
– Não não. R$ 30 as duas, em dinheiro, agorinha.
– Essas são roupas de qualidade! Tecido bom!
– Não. R$ 30 ou nada.
– Você quer acabar comigo! Qual é seu top price?
– Hmmmm. R$ 40.
– Que absurdo! Eu baixo para R$ 120, pronto.
– Vamos embora, Mari.
Estávamos saindo quando ela nos chamou de volta.
– Eu posso fazer por R$ 100, disse a vendedora em chinês para a Mari.
– De jeito maneira, Mari respondeu em chinês. Já disse, R$ 40.
E viramos as costas e saímos da loja. Quando já estávamos quase virando a esquina do corredor, a gente ouve um grito doído partir da loja: “OOOOOOQUEEEEEEEIIIIIIII!!!”.
Voltamos e lá estava ela, ao lado da entrada, quase se escondendo atrás da arara de roupas, enfiando as bermudas numa sacola como quem pode mudar de ideia a qualquer momento. Paguei o valor em dinheiro, agradeci e saí rapidinho. E assim eu comprei 2 bermudas Abercrombie & Fitch.
Com um brilho no olho, Mari me disse “agora é hora de você ter a outra experiência de compras essencial no Fake Market”. Subimos para o andar dos artigos de couro, rodamos um pouco, desviando dos vendedores, até encontrarmos uma loja que vendia bolsas e carteiras e estava meio deserta. Olhamos tudo com um certo desprezo, e Mari começou a exigir da vendedora: “Good quality! Good quality!”. Depois de um diálogo em chinês, a mocinha olhou para os lados, e nos pediu para a seguirmos pela salinha dos funcionários, no fundo da loja. Serpenteamos entre prateleiras de estoque, esquerda, direita, até que a vendedora chegou numa estante, girou uma maçaneta escondida, e a prateleira na frente dela abriu-se como uma porta: sim, era uma passagem secreta! Do outro lado da passagem, uma salinha com os últimos lançamentos da Louis Vuitton, Dolce & Gabbana, Giorgio Armani, tudo do mais fino. Depois de vermos tudo, Mari começou a pedir por coisas que ela sabia que não teriam, e assim conseguiu sair de lá sem enfurecer a vendedora.
Agora, mais acostumado, sou capaz de negociar sozinho. Ontem fui passear nos arredores dos Jardins de Yuyuan, basicamente alguns quarteirões de calçadões megalotados, com lojas modernas em prédios novinhos de arquitetura tradicional chinesa. Uma Disneilândia do consumo chinês para turistas. Virando de ruela em ruela, ignorando os vendedores que me acossavam (“Ipod! Iphone! Watches! Sunglasses!”), consegui encontrar souvenires para meu pai e minha sogra. E negociei direitinho. Talvez pudesse ter economizado um ou dois reais a mais, mas cheguei num preço que me agradava. Não me importo dos chineses me fazerem de otário. Um pouquinho só.

Oi Marcio,
adorei esse artigo e eu tenho um desejo especial por ele, porque estou indo passar uns dias em Xangai e claro tenho interesse nos bons fakes, então me tira uma dúvida é só dizer que quero ir no Fake Market e lá peço para as vendedoras produtos de Good Quality???? Obrigada.
Oi Liliana! Olha, se você chegar e simplesmente pedir os produtos Good Quality, eles provavelmente vão te dizer que aquilo já é Good Quality, ou te mostrar algo um pouquinho mais escondido. Os Good Quality da passagem secreta apareceram porque a Mari, minha amiga, já era frequentadora do Fake Market há alguns meses e meio que já era reconhecida pela tia da loja. Na época estava rolando a Expo, rolava uma fiscalização maior sobre os fakes, então eles não abriam a passagem secreta pra qualquer um. Não sei se agora está mais tranquilo, mas vale a pena pesquisar! Divirta-se e prepare-se para regatear até dizer chega!
Oi Marcio,
muito obrigada pela resposta, agora estou com mais dúvidas, seguinte qdo se é que vc se lembra custa uma boa bolsa fake??? dá pra comprar celular lá e usar aqui??? a sua amiga Mari é guia?? ela toparia ser minha guia por 01 dia em Setembro em Xangai???
Obrigada
oi Marcio, tudo bem ? tava nevegando na internet planejando uma viagem p shanghai em outubro e achei o seu blog interessante ! entao, sera q vc conhece onde posso fazer camisetas personalizadas com o meu log ? se souber de algum por favor me passe !!!! valeu