20100508

Jetlag

E quando você pensa que já viajou muito, ainda tem mais nove horas de viagem pela frente.

O bom foi que o voo da Emirates tem uma variedade de filmes imensa, então você consegue assistir numa boa aqueles filmes que queria assistir, mas não achava que valia pagar o ingresso. No caminho para Seul, assisti a Vai chover hambúrguer e ao Fame novo. Os dois bem satisfatórios.

Passei a viagem resfriado por conta de um vento gelado do ar condicionado. Depois de horas sofrendo, descobri a fonte do ar, uma daquelas ventoinhas individuais, a um metro e meio de altura da minha cadeira, lááááá distante, mas surpreendentemente potente. Fechei-a, me encasulei no cobertorzinho da Emirates e tentei dormir, mas continuei sentindo um ar gelado me atacando. Já prestes a pousar, localizei a fonte em outra ventoinha da fileira de trás, apontada para frente, onde eu estava. Malditos passageiros traiçoeiros.

Ao fim do voo, talvez por conta do jetlag, o longo trajeto do avião até a imigração fez eu me sentir dentro do jogo Prince of Persia: uma sucessão sem fim de longos corredores quase idênticos entre si, com uma escada subindo ou descendo no final, até chegar ao fim da fase: a imigração.

Quanta diferença das imigrações europeias, que fazem de tudo pra te mandar de volta pro lugar de onde você nunca devia ter saído. Chegou a minha vez, entreguei o formulário e o passaporte pro atendente, ele pergunta:

– Qual é o endereço do hotel onde você vai ficar?
– Não sei, vou ficar na casa do meu irmão, respondo.
– Ah, tudo bem, coloca o endereço dele então.
– Também não sei o endereço dele, seu moço.
– Hmmmm… coloca então o nome dele e o número do telefone dele.
– O nome tá aqui. O número também não sei não.
– Também não sabe?, suspira ele. OK, coloca a data de nascimento dele aí embaixo.

E assim ele carimbou meu passaporte com um visto de turista de seis meses, e eu segui para o resgate das malas. Sempre uma experiência cheia de emoções, em que viajantes exaustos gastam as últimas reservas de energia para lutarem por um espaço livre ao lado da esteira. Concentre-se na malas que vêm, sem deixar o pavor de ter suas roupas enviadas para o Timbuktu te enfraquecer. Mala avistada, calcular trajetória, arrancá-la da esteira sem acertar com força demais os outros apinhados ao seu redor – se tiver força. Vários eram levados pela esteira, incapazes de erguer as próprias malas.

Ao fim de tudo isso, finalmente, ao cruzar o portão de desembarque, lá estava Litoubrou me esperando, lendo O Senhor dos Anéis. Agora era só mais uma hora e meia de metrô até o hotel onde ele se hospeda. Mas para quem já tinha viajado quase um dia e meio, uma hora e meia é quase nada.