Uma das grandes dicas que eu aprendi quando morei em Londres é que o melhor jeito de se ir de Londres para Paris é de trem. Sempre. Nã importa as promoções das linhas aéreas barateiras; de trem, você sai do centro de Londres e vai direto para o centro de Paris. Por mais baratinho que seja o bilhete de RyanAir, você tem que sair muito antes de casa pra ir pra algum aeroporto distante de Londres a tempo de fazer check-in uma hora antes da decolagem, chegar em outro aeroporto distante, pegar outro transporte para a cidade… o desperdício de tempo é enorme, e os gastos de trem acabam equivalendo (se não ultrapassando) a diferença de preço entre um e outro.
Assim sendo, saí hoje ás seis da matina para pegar o metrô atê a estação de St. Pancras, de onde sai o Eurostar para Paris. Em dez minutos eu estava lá, com tempo de sobra pra passar pela imigração. Fica a dica: se você conseguiu convencer a tiazinha do aeroporto de Heathrow, cê tá feito, porque a mina de St. Pancras não me fez uma pergunta, olhou meu passaporte e carimbou sem abrir a boca.
Meu vagão ficava na extremidade do trem. Na minha frente estava sentada uma família de indianos com uma filha de um ano e pouco de idade. O lugar já não era muito confortável, e quando eu conseguia me ajeitar pra tirar um cochilinho, a menina soltava um grito e me acordava. Nada de compensar o sono perdido na viagem.
Chegando à estação de Paris Nord, foi todo aquele trabalho pra entender a estação e descobrir pra que lado eu ia pra pegar o metrô pra casa do meu anfitrião, o Michael. Acabei comprando um passe de cinco dias, e andei andei andei andei andei dentro daquela estação enorme até chegar na linha que me interessava, láááááá no final. Em compensação, em quatro estações eu já tinha chegado.
Eu conheci o Michael durante uma das vezes que eu fui visitar a Andréia em Barcelona; ele também é designer, a gente acabou ficando amigo, me recebeu durante meu findi relâmpago em Paris em 2005, e desde então a gente mantém contato. Super francês, é perfeito pra se ter uma estadia parisiense que vá além do clichê do turista. Quando eu o conheci, ele morava num apartamentinho térreo sem janelas; agora ele mora num apartamento estilo loft no quarto andar, todo branco e cheio de janelas. Ele disse que uma empresa de fotografia tinha construído o prédio inteiro para ser um conjunto de dez estúdios fotográficos, mas em algum ponto de crise eles resolveram manter só dois e venderam o resto. Ele comprou um, e agora mora e tem seu estúdio de design num lugar lindo e descolado numa área boêmia de Paris.
Depois de colocarmos a conversa em dia um pouco, achei por bem vazar e ir explorar Paris, pra ele conseguir trabalhar sem maiores preocupa&ccecil;ões. Pedi umas dicas de onde ir, botei uns euros na carteira e me fui. A princípio pensei em comprar um mapa, mas nã demora muito pra você perceber que tem um mapa da cidade em cada estação de metrô, no qual você se localiza facinho. Aliás, não demora nada: Paris tem um número absurdo de estações de metrõ, quase uma a cada dois quarteirões, então é inevitável trombar com uma.
Andei andei andei até chegar na Bastilha, e vendo o anjinho no alto do monumento fiquei com o “Il pleut toujours sur le genie de la place de la Bastille” do Chansons d’Amour na cabeça. Caminhando e cantando, fui até Notre Dame, onde meu repertório Disney tomou conta e eu fiquei cantarolando as músicas do Hunchback of Notre Dame. Lá dentro, consegui pegar uma guia em inglês que foi mostrando os cantinhos da catedral e contando histórias. Por exemplo, foi lá que inventaram a segunda parte da Ave Maria, “rogai por nós pecadores” e tal.
Depois de uma hora e meia de tour na catedral (ainda tinha mais 40 minutos, mas eu não aguentei) eu saí e resolvi andar até a Torre Eiffel, seguindo o rio. Nessas caminhadas eu lamento cada vez mais o que os energúmenos de São Paulo fizeram, construindo as marginais. O povo em Paris curte o rio, senta perto da margem pra conversar, corre, toma sol… a gente anda de trem ao longo do Pinheiros. Lamentável.
Levei uma hora e tanto e muitas fotos pra chegar lá (tô ficando craque em tirar autorretrato). Já meio cansado, fui numa banquinha perto da Torre pra comprar uma garrafa d’água. “Quatro euros”, disse o atendente, com a maior cara lavada. “É UM PÂNDEGO, FAZ-ME RIR!”, respondi, e virei as costas. E assim, com fome e sede na área com a comida mais superfaturada do mundo, segui caminhando até algum lugar menos espetaculoso.
Voltei para o apê quando já anoitecia, e Michael me disse todo contente que tinha festa logo mais. Estamos na semana de moda de Paris, e algum amigo dele tinha arranjado um jeito dq gente entrar na festa do Paco Rabane. Eu, Carlos e araraquarense, na festa do Paco Rabane, como esse mundo dá voltas. Aqui em Paris, com roupas folgadas e usadas e um par de tênis sofrido que talvez não aguente atê o fim da viagem. Revirei minha mala e o Michael, com seu estilo parisiense, riu de várias das minhas roupas andarilhas até que encontramos um par de calças risca de giz que eu pus na mala sem achar que jamais as vestiria. Ele me emprestou uma camisa e um par de botas, e foi assim que eu fui pro VIProom, numa festa fashion, com uma calça da praça Benedito Calixto, uma jaqueta da Cancer Research que vamos chamar de vintage e roupas emprestadas. Super hi-lo.
A festa foi simplesmente um arraso, cheia de gente fina e elegante (a sinceridade devia estar em falta, but who cares). A hostess usava um vestidinho de pirâmides metálicas, uma DJ usava outro feito de meias esferas. A champanhe rolou solta, e depois da minha terceira eles passaram a só servir rum com suco, oh well, passa dois. A música era excelente, no meio da festa teve uma apresentação da V. V. Brown, com músicas muito bacanas. Saí de lá tarde da noite, já trançando as pernas, mas contente da vida. Não dava pra ter um primeiro dia em Paris melhor que esse.