Crianças e Darwin

O primeiro programa de hoje era visitar a menina que morava comigo quando eu estava aqui em Londres, a Fransje. Ela é uma bióloga molecular que vive de pesquisar o virus HIV, muito gente boa e nerd o suficiente pra ter jogado mais RPG na vida do que eu – e olha que isso não é fácil. Desde que eu deixei a casa que a gente compartilhava, ela se casou com o namorado e os dois tiveram um filho, batizado Johannes.

Os dois estão morando na metade inferior de uma casa no mesmo bairro em que morávamos antes. O apartamento é pequenininho, mas simpático all things considered. Fiquei com aquela impressão de que eles não têm muita grana sobrando, o que meio que é de se esperar para casais jovens com filhos na Europa – hell, no mundo inteiro. O marido dela arranjou um emprego fiscalizando os níveis de radiação em hospitais; ela continua pesquisando. Ela adora o que faz mas agora dá mais atenção pro filho; ele não aguenta o próprio emprego, mas tem que colocar dinheiro em casa.

Johannes, o rebento dos dois, está com um ano e é um desses bebês extremamente loirinhos que raramente acontecem no Brasil. Ainda encantado com sua recém-descoberta habilidade de andar, passou a hora e meia que eu fiquei em sua casa carregando brinquedos de um lado para outro, caiu uma vez, chorou, parou de chorar e continuou brincando. Enquanto a Fransje e seu marido me contavam como tinham sido os meses na casa de Fremantle Street depois que eu saí, como foi o casamento, como estão os avanços da pesquisa contra a AIDS e como foi viajar para o Japão, Johannes participava batendo cubos e puxando as roupas dos pais. Apesar de nenhum dos dois ter o menor pudor de interromper qualquer assunto pra dar atenção pro filho, eles são bem práticos com ele: segundo contaram, quando resolveram que já era hora dele parar de acordar à noite para comer, simplesmente pararam de dar comida à noite e deixaram ele se esgoelar por dois dias. No terceiro dia, ele cansou e passou a dormir a noite inteira. Parabéns para eles, conheço vários casais que não têm culhão pra fazer isso.

Depois da visita, fui encontrar o Roger e um de seus amigos em South Kensigton, para visitarmos o recém-inaugurado Darwin Centre dentro do Museu de História Natural. O Natural History Museum em si já é um espetáculo, com ossadas de dinossauro e mais N coisas divertidas e científicas que eu infelizmente não vi. Fomos direto para o Darwin Centre, uma estrutura de 4 andares dentro do museu, toda dedicada a mostrar como os cientistas trabalham, como os seres vivos são classificados, como as espécies se relacionam e como disso pode-se entender a evolução. Nas extremidades de cada andar dá pra ver através de janelas os cientistas trabalhando naquilo que a exposição acabou de explicar. Lindo e lúdico como todos os museus de Londres, faz você querer virar cientista pra você se divertir como eles enfiando alfinete em besouro e comparando folha de samambaia. Sim, é bom nesse nível.

Quando anoiteceu, fui com o Roger para a Union Chapel assistir a um show de uma dessas bandas que ele fica conhecendo antes de todo mundo. Os amigos do Roger dizem que ele tem um programa que mistura duas ou três palavras aleatórias e imprime um ingresso, e eu quase acredito. Foi ele que me apresentou a Antony and the Johnsons, The Magic Numbers, The Arcade Fire e Sufjan Stevens. A de hoje era Joan as Policewoman.

Enquanto esperávamos o ônibus, o Roger apontou pra uma igreja do outro lado da rua, e me disse que naquela igreja havia sido fundada a Igreja Metodista. So now you know. E então chegou um cara com uma cara de sofrimento, pediu um dinheiro para pegar um ônibus para casa e levantou a manga de sua blusa, mostrando um corte horroroso cheio de sangue que atravessava seu antebraço da mão ao cotovelo. Ele dizia que estava OK mas que na queda de bicicleta que tinha causado o acidente ele tinha perdido toda a grana e precisava de uma ajuda pra conseguir voltar pra casa. Era um negócio tão impressionante que demos as moedas que tínhamos no bolso. Depois, quanto mais a gente pensava, mais chegamos à conclusão de que era golpe: a blusa estava inteira, afinal, não rasgada conforme o corte, e ele estava até que bem racional para quem tinha capotado de bike e feito um corte de 20cm no braço. Não se pode confiar mais nem em vítimas do trânsito.

A Union Chapel é uma igreja da Church of England que está caindo aos pedaços, então seu vigário, bastante moderninho, resolveu alugar o espaço à noite para shows, e assim juntar dinheiro para restaurar a igreja. Acaba sendo um espaço super legal, de ótima acústica, lugares bem dispostos e visão privilegiada do artista – que acaba cantando na frente do altar e não pode subir no púlpito, mas fazer o que, não se pode querer tudo. Minha educação em colégio de freiras fazia eu me sentir meio herege o tempo todo, mas os brits não têm essa culpa cristã toda e não passam o show com medo de que um raio fulmine todos.

O show em si foi OK. Joan as Policewoman é basicamente uma mulher que tinha trazido um colega para tocar baixo ou bateria. Quando ele tocava baixo, eles punham uma fita cassete com os sons de batera. Ela de roupa de oncinha verde, ele com uma roupa básica preta e um vestido de onça por cima. Meio estilo perua bêbada, mas com boa presença de palco.

Mais uma vez fiquei meio passado com como não se exige virtuosismo nenhum aqui na Europa pra você montar uma banda e ter fãs. As músicas eram passáveis, a moça tinha habilidades na guitarra comparáveis às do meu tio Zé Roberto, mas cantava com vontade e tinha uma voz bonita. Como só tinha uma guitarra, passava um tempão mudando a afinação do instrumento entre uma música e outra. Mesmo assim, Roger e suas amigas presentes saíram do show achando ela muito boa. Eu fiquei sem graça de dizer o que tinha achado. Não dá pra ser sincero em tudo.

One Response to “Crianças e Darwin”