O Roger mora num apartamento bem bacana, situado num canto de Central London perto do Barbican. Fica em Bunhill Row, que, segundo ele me explicou, se chamava Bonehill Row até que os vitorianos chegaram à conclusão de que o nome pegava mal, então mudaram como se escrevia. A razão dos ossos no nome da rua é porque ela desemboca onde havia um monte em que se jogava os ossos dos corpos exumados de cemitérios antigos. So now you know.
O prédio dele é cheio dessas características tão britânicas no modo de se fazer construções. O apê fica no quarto andar de um prédio de seis andares. Entre o elevador e a porta do apartamento passa-se por um corredor longo longo e acarpetado, com três curvas e três portas corta-fogo. O apartamento é duplex: para a estranheza dos brazucas, no entanto, a entrada fica no andar de cima, no qual há o quarto de hóspedes e um banheiro (ambos à minha disposição); descendo uma escada, tem outro quarto, outro banheiro e uma sala. A cozinha fica num canto da sala, que também abriga a máquina de lavar roupa. Tudo muito bonito, mas deixaria donas-de-casa do meu lado do equador doidas.
No meu primeiro dia plenamente acordado na ilha, resolvi resgatar minhas noções de Londres. O primeiro compromisso era ir com o Roger para a nova sede do Guardian, que segundo constava era um arraso. E era mesmo. Eles estão num prédio novinho em folha perto de King’s Cross; tão novo que nem postal code havia para eles, o correio criou um sob encomenda, tão novo que metade dos sites de mapa não o localiza ainda. As instalações são de cair o queixo, tudo tão lindo e moderno que deixa o prédio da Abril no chinelíssimo. Eles ocupam quatro andares amplos, sem nada que bloqueie as janelas que vão do chão ao teto. Dezenas e dezenas de macs se enfileiram em bancadas cor de chumbo, interrompidas apenas por uns espaços com sofás coloridos para reuniões rápidas. Ao lado das escadas ficam as salas para reuniões mais formais. Toda a sinalização do prédio é feita com a fonte e as cores do jornal. No último andar ficam umas dez cabines à prova de som para eles gravarem os podcasts e qualquer outro conteúdo multimídia. Realmente impressionante.
Depois do tour pelo Guardian, me despedi do Roger e resolvi ir andando até meu próximo compromisso, uma visita à redação da Runner’s World britânica. Me perdi um pouco no começo, mas logo me localizei e fui andando feliz da vida até Oxford Street, o que levou uns quarenta minutos. Apesar da grande maioria das coisas continuarem iguais, houve bastante mudança nesses últimos três anos. Tenho a impressão de que os jogos olímpicos acabaram servindo de incentivo para que várias obras saíssem do papel.
O almoço com o pessoal da Runner’s foi bem legal. O começo é sempre meio sem jeito, tanto eu como o Andy, editor da revista, não sabíamos direito do que falar, mas com boa-vontade mútua conseguimos ultrapassar logo esse estágio. Eles fazem a revista com pouca gente também, e ao fim do almoço descobri que eles têm várias questões em comum, como o fato de que os leitores deles também não se convencem de que as pessoas na capa são corredores de verdade. Leitores acabam com a paciência dos editores em qualquer lugar do mundo.
Saindo do prédio deles, vi que uma fila enorme virava a esquina do quarteirão ao lado. Cheguei perto pra descobrir o que estava rolando, e no início da fila descobri… o Central Perk. Sim, o café do Friends. Assuntando, descobri que a Warner está fazendo uma ação para comemorar o aniversário de 15 anos da série, em que o Central Perk é instalado em uma capital, fica algumas semanas, e depois se muda para outra. No primeiro dia, tinha até o Gunther servindo café.
De lá, cruzei até o outro lado do centro pra dar um pulo na Jungle Drums e rever o pessoal de lá, mas eles tinham fechado edição na noite anterior e não tinha ninguém lá que eu conhecesse. Então resolvi simplesmente bater perna mesmo, para recuperar a cidade e avaliar os preços das coisas que eu tinha ou precisava comprar. Fui revisitando todos os lugares que eu mais gostava em Central London, e fazendo contas mentais do que queria e poderia comprar. De livraria em livraria, tive que levantar um autoveto a qualquer livro, porque acabaria gastando todo meu contado dinheirinho em coisas que eu poderia mais tarde comprar sem impostos pela Amazon. Mas fiz minha boa ação do dia: consegui ajudar uma inglesa a localizar livros do Spawn e do Hellblazer para ela comprar para seu filho que estava na Turquia.
Ao fim do dia, fui encontrar o Roger num bar, e ele veio me dizer todo animado que o Rio tinha sido escolhido para ser a sede das Olimpíadas. Ficou meio surpreso com minha reação de “só lamento”. Expliquei pra ele como tudo vai ser superfaturado, como vão atrasar as obras de propósito para depois torrarem mais ainda pra conseguir terminar tudo a tempo, e ainda por cima o presidente vai montar em cima disso durante as eleições. O povo aqui não sabe bem o que é isso.