Demorou. Custou. Mas consegui sair de férias. Férias quase arrancadas a fórceps, postergadas por dois anos e tanto, sempre com algum evento mais ou menos inesperado atrasando-as para “daqui a uns quatro meses”. Mas finalmente tudo confluiu, e eu consegui largar a editora por um mês para relembrar como é a vida sem um computador na sua frente por 16 horas por dia.
O destino escolhido para minha big trip foi a Europa. Era de se esperar: além dos amigos que eu quero reencontrar, existe tantos lugares no Velho Continente que eu não vi ainda, tudo tão perto e baratinho, que não havia outra opção.
A partida foi ontem à tarde. Mamadi foi supersupimpa, desmarcou todas as consultas do dia e veio de Campinas pra me pegar e me levar pro aeroporto. Chegamos bastante adiantados, apesar do trânsito, almoçamos, e então eu ingressei no portão de embarque. Comprei umas lembrancinhas levemente cafonas no duty free para levar para os amigos que me receberiam em suas casas europeias, e então basicamente fiquei enrolando. Para minha tristeza, fecharam a LaSelva do lado do embarque internacional do aeroporto, agora só os voos domésticos têm o privilégio de comprar revistas e livros enquanto aguardam para entrarem no avião. Não pude comprar algo pra ler no caminho nem ficar fuçando nas revistas.
O voo foi felizmente sem incidentes. Ainda não consigo superar a impressão a cada decolagem de que isso é tudo um absurdo, mas depois passa. Fiquei com um lugar no corredor, o que significava que cada vez que eu ia pegar no sono, alguém passava e esbarrava em mim, me acordando. Dez horas mais tarde, minhas olheiras chegaram no aeroporto de Heathrow.
A chegada teve direito a cão farejador revistando todos que saíam do avião. A imigração teve as enormes filas de costume; a senhora que me atendeu só faltou pedir meu mapa astral, porque no fim da entrevista ela sabia da minha família, da minha intimidade, do meu trabalho, do meu itinerário, da minha conta no banco e pra que time eu torcia. Por fim, consegui recuperar minha mala, e fui encontrar o Roger no desembarque.
O Roger foi meu chefe quando eu trabalhei no Guardian, ficamos muito amigos durante o ano e meio que trabalhamos juntos, então ele topou me hospedar em Londres sem pensar duas vezes. Tomamos o trem expresso do aeroporto para a cidade conversando animadamente, contando de todas as novidades e mudanças que aconteceram desde que eu voltei para a Americadossul. Ele tinha mudado de casa, o jornal tinha mudado de sede, metade do povo não trabalha lá mais por conta da crise (mas só demissões voluntárias, porque o Guardian não pode despedir ninguém, por contrato). Enquanto a conversa rolava, a paisagem tão típica da Inglaterra ia passando pela janela, e eu ia ficando todo contente.
O metrô deu altos problemas no caminho para a casa do Roger, mas eu ia ainda me aguentando por conta da conversa e da alegria de ouvir “mind the gap” de novo. Depois de despejar minha bagagem na casa dele, resolvemos ir até o Tate Modern para que eu não dormisse e assim me ajustasse mais rapidamente ao fuso horário. Um metrô e uma caminhada depois, estávamos cruzando o Tâmisa, a caminho do Tate, para ver uma exposição sobre artistas contemporâneos chamada Pop Life.
Nela estão uma série de obras de artistas contemporâneos que não têm o menor pudor de usar a arte para ficarem ricos ricos ricos e usar a mídia para ficarem famosos famosos famosos. Vi obras do Warhol (que começou tudo), Keith Haring (que eu AMO) e muitos outros. Entre os destaques está um artista que, resampleando o Warhol e suas obras que repetem a mesma imagem várias vezes, fez dois quadrinhos de bolinhas quase iguais e botou debaixo deles dois gêmeos idênticos vestidos iguais. Cada dia um par de gêmeos vai lá e ficam lá o dia inteiro, cada um sentado debaixo de um dos quadros. Outra obra se destaca por sua ausência: um retrato da Brook Shields pelada aos dez anos fazendo boca de desejo foi retirado da exposição depois que o Daily Mail reclamou que aquilo era pornografia infantil. Na sala ao lado, tem uma sala cheia de fotos explícitas do Jeff Koons transando com a Cicciolina.
O Roger tem carteirinha de sócio do Tate, então entramos na exposição sem pegar fila, vimos tudo e depois fomos para o bar exclusivo para sócios no quinto andar. Tomei um expresso tão forte que faria o Maroja chorar para tentar me manter acordado, enquanto via as pessoas passarem pelas margens do Tâmisa.
Já mal me aguentando de pé, ainda me arrastei até minha ex-universidade para conversar com meu ex-orientador de mestrado. Devia estar na cara minha falta de sono, porque ele perguntou na hora que me viu se eu tinha chegado naquele mesmo dia. Depois de meia hora de conversa, voltei para a casa do Roger e finalmente dormi algumas horinhas, antes que eu me encostasse num ponto de ônibus e dormisse com os indigentes.
“(…) it’s ok she says, you don’t have to pay because he’s a member, wearing nothing but a peanut in the middle of December.” – Noah’s Toilet por Coldcut.
É tão inglês isso de ser membro de um lugar. Parece que todos os estabelecimentos, de todos os tipos, oferecem a possibilidade de se tornar um membro e ter vantagens exclusivas. Adoro que o seu amigo é membro da Tate Modern, o quinto andar foi mesmo o único que eu não visitei, já que eu não era um membro.
Saudades de Londres e de você também. Divirta-se!