Em geral, a reação das pessoas quando você se dá o trabalho de explicar é “nossa, nunca imaginei que alguém fizesse isso!”. O que descompõe a gente ainda mais. As pessoas são capazes de imaginar que um repórter escreva as matérias, mas supõem que a revista fica linda e organizada por si só. Tudo bem, grande parte do sucesso de um designer é medido do fato que está tudo tão claro e compreensível que o leitor nem nota. Mas mesmo assim é desconcertante que os leigos se surpreendam tanto.
Depois que eu consegui fazer o salto devoniano de reles designer para editor de arte, minhas atividades ficaram mais variadas e mais inusitadas para quem não sabe como uma revista funciona. Tem dias em que, por bem ou por mal, eu fico o tempo todo mandando e-mails e telefonando e não encosto numa matéria. Afinal, se a página já não fica linda sozinha, aquelas lindas fotos e ilustrações também não surgem do nada.
A natureza mensal e cíclica das revistas exige que você goste do que faz mesmo – ainda mais quando é uma revista segmentada, em que tudo gira em torno do mesmo assunto e você tem que quebrar a cachola pra mostrar aquilo que é “o mesmo” de um jeito diferente. Tem muita gente que na terceira vez que tivesse que passar um dia inteiro fechado num estúdio acompanhando foto de produto ia querer cortar os pulsos.
Tem sempre o lado não-glamuroso do trabalho. Quando eu era designer 1, já tive que passar horas recortando um urso panda fofinho e peludinho, ou trocando todas as milhares de onomatopéias em inglês dos quadrinhos do Dexter para suas versões em português. Agora eu tenho que encarar planilhas de custo da arte, e descobrir porque o fotógrafo ainda não foi pago, e se o ilustrador liberou os direitos de sua ilustra pros gringos usarem. E ainda volta e meia recortar um corredor malhadinho e suadinho.
E tem o lado que causa inveja alheia, claro. Tipo fazer casting de capa. Curto horrores passar horas recebendo os (e as) modelos no dia marcado, ver book, ficar fazendo papinho furado, tirar foto deles, repeat. Depois chamar os finalistas pra tirar foto correndo. E depois coordenar fotógrafo, maquiador, locação, modelo, pra fazer a foto. Adoro fazer capa.
É claro que nem tudo são rosas: eu tive que começar a aprender a lidar com os inesperados, e com gente que simplesmente não entende o que você pede, colaborador que atrasa a entrega dos trampos, e gente que tenta dar truque. Essa última edição mesmo teve um ilustrador que tentou me dar um migué entregando um serviço bem bem porco. Eu fico num estado que seria capaz de ir lá e amputar os dois braços dele a machadadas, mas como não posso só me resta torcer para que a Yakuza confunda ele com alguém e corte seus dez dedos fora com uma tesoura de jardim.
Mas enfim, como já dizem os sábios da editora, até hoje nunca saiu uma revista com uma página totalmente em branco, então a edição sempre tem final feliz. Por mais que eu passe 14 horas trabalhando e me estresse e tudo mais, na hora que eu mandei a revista toda pra gráfica e vejo ela lá impressa no quadrinho, me dá um orgulho do que eu fiz que vale tudo o que aconteceu no último mês.
E logo no dia seguinte tudo começa de novo!

Aê, Manobroda, você é o meu orgulho! Pelo jeito fazer revista não é fácil mesmo, mas o importante é a gente fazer o que gosta, e a gente consegue ver o quanto você gosta do que faz pela ótima qualidade de tudo que sai de suas mãos!
“até hoje nunca saiu uma revista com uma página totalmente em branco”. esse é meu novo, marcio. certeza!