Chuta a boca

Acho que não sou o único a ter um certo medo da polícia. Parada policial, camburão estacionado, "seo puliça" vigiando, pra mim só pode acabar em problema e quanto mais longe eu estiver mais feliz eu fico.

Hoje estou eu voltando de uma reunião com a Katchu sobre um novo projeto da Alavanca e, ao chegar de bike na frente do meu prédio, dou de cara com uma ambulância um pouco mais à frente do meu prédio, cercada de carros de polícia e PMs perambulando ao redor. Como realmente não gosto desse circo todo, entrei logo na garagem do prédio e subi pro meu apartamento.

Mal cheguei no meu andar e me lembrei que tinha deixado a chave na portaria. Então tive que descer para resgatar minha chave, e encontrei o térreo em polvorosa. O porteiro estava quase na calçada, todo animado como se estivesse participando da gravação do Aqui Agora. Um puliça pediu pra usar a torneira do prédio "pra molhar o pano, que a cara do home lá está destruída".

Como eu ainda faço parte da raça humana, não consegui resistir à vontade de perguntar pro porteiro o que que tinha acontecido. "Foi um estuprador que ficava aqui em volta, atacando as meninas que saem da escola aqui atrás depois da aula. Já tinha atacado umas duas esse mês. Ele foi atacar outra, mas ela saiu correndo e gritando, uns caras ouviram ela, cercaram ele, botaram ele de quatro e encheram ele de porrada. Bateram de verdade, viu? Até chegar a polícia e parar eles."

Na entrada do elevador, dois dos meus colegas de prédio subiram junto, aparentemente com suas curiosidades também saciadas. "Cara, que pena que eu estava de chinelo", dizia um, "porque se eu estivesse de tênis tinha ido lá ajudar a chutar a boca dele." Até chegar no meu andar, além de me assustar um pouco que existe toda uma rotina de crimes na minha vizinhança, fiquei pensando como realmente estupro é foda, como talvez ele até merecesse apanhar tudo, mas como também é horrível essa consciência coletiva que toma as pessoas e fazem elas baterem em desconhecidos porque os outros disseram que ele é estuprador.

Sendo depois da meia-noite, o Lampião estava já ansiosíssimo e subindo pelas paredes, então depois de acalmá-lo um pouco desci com ele pra passear. Só me dei conta que ia ter que passar pelo furdúncio todo quando estava para passar por ele, e como todo mundo não consegui não olhar. Do lado do ponto de ônibus, na sarjeta perto da ambulância, cercado de PMs e paramédicos, o homem estava com a camiseta branca cheia de sangue e o rosto bem estragado. O pessoal que esperava o busão comentava o que tinha visto, praticamente contentes que tinham algo emocionante na rotina de sempre.

O pessoal da pizzaria mais à frente comentava como tinham ouvido a menina e como ele merecia tudo. O povo do bar ao lado estava totalmente impassível, como se nada tivesse acontecido. No retorno do xixi do Lampião, o ponto de ônibus ainda comentava como tinham feito rodinha no sujeito, enquanto a polícia tentava dispersar a atenção toda. Espiei dentro da ambulância, e o cara estava com o rosto cheio de hematomas, na maca, com cara de choro. Nem sinal da menina que tinha sido a vítima dele. O porteiro, sorrindo, recontava a história para o porteiro da garagem.

Cheguei em casa, liguei a TV e comecei a assistir Law & Order: Special Victms Unit enquanto colocava as leituras internéticas em dia.

Isso tudo é muito mais feio (estética e moralmente) quando sai da TV e acontece ao vivo.