Cinco horas trabalhando na segunda-feira, dia 23, enquanto toda a família já estava comendo chocotone e jogando baralho na casa da vó.
Meia hora até chegar em casa e buscar ítens de primeira necessidade que o estúpido tinha esquecido, mas uma hora até ônibus e metrô levarem até a rodoviária.
Quinze minutos de fila até conseguir que trocassem meu bilhete para outro ônibus que saísse mais cedo, mais trinta minutos enrolando até a hora da saída. Mais vinte e cinco minutos de espera até o ônibus certo conseguir chegar, as pessoas pararem de se estapearem e o motorista tomar rumo para Araraquara City.
Quatro horas de viagem, quase todas dormidas. Dez minutos de espera até que o Anselmo mais Ana Paula, Marcelinha e Dieguinho viessem me buscar na rodô.
Quinze minutos até cumprimentar todo mundo que ainda estava batendo um carteado e compreender as piadas internas que tinham surgido na minha ausência, como o poder do dedo da Luciana Gimenez sobre o Mick Jagger e as bicadinhas de cerveja que evitavam discórdia. Uma hora de carteado até recebermos a ligação da prima distante dos meus tios, que queria que alguém a buscasse na rodoviária, apesar de ter sido avisada por três pessoas diferentes que não devia vir porque não tinha lugar pra ela.
Seis horas de sono. Cinco minutos pasmo de descobrir que a prima indesejada tinha dormido na rodoviária, vindo encontrar minha vó na padaria de manhã, e agora o pai dela, irmão do finado vô, que tinha dito que ela podia vir que a gente se ajeitava, estava tentando arranjar um lugar pra ela dormir. Quatro horas de nada fazer, finalmente, seguidas de duas horas de compras de roupas novas, mais duas horas de nada fazer de novo. Meia hora de banho, uma hora de televisão, uma hora de cantoria com o Danilo e com o Anselmo.
Uma hora comendo churrasco com bolo salgado e suco de cenoura com limão, que é a melhor ceia de Natal que alguém pode pedir. Meia hora assistindo ao especial de Natal da Globo sobre o menino preto que toca violino, muito comovente mas engraçado, porque não adianta, o menino ainda é o Saci por mais que ande com duas pernas. Quarenta minutos de enrolação, dois minutos para colocar o chinelo debaixo da árvore de Natal, dez minutos segurando as crianças no quintal pro Papai Noel chegar, e quinze minutos comemorando os presentes. Uma hora de disputa entre os DVDs adquiridos, até o tapetinho de dançar da Xuxa ganhar a primazia sobre a televisão, deixando todos os marmanjões chupando o dedo.
Quatro horas de sono, até ser acordado pelo tio-avô inconveniente, que de manhãzinha já estava no portão gritando "Abre a pôrta!".