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Sempre sobram emoções para encher de eventos os dias de viagem.
A primeira missão do dia era parar num mercado em Dayville que prometia ter peças de bicicleta, na esperança de que eles teriam câmaras novas para as remendadas câmaras dos pneus da bike dele, que já tinham passado do prazo de validade faz tempo. Decepção: a “seção de bicicletas” que o mapa prometia era apenas uma cesta com algumas partes mais comuns. Havia um número razoável de câmaras para vários tamanhos de roda, mas nada no tamanho das nossas rodas. O que não tem remédio, remediado está, e lá fomos nós Oregon adentro com as mesmas câmaras remendadas de sempre.
Surpreendentemente, a essa altura do campeonato e do ano, a gente ainda está cruzando com ciclistas que estão fazendo a travessia no sentido contrário. Quanto mais perto do fim a gente chega, mais perto do começo eles estão. É inevitável ter aquela sensação de “tadinhos, eles não sabem o que os esperam”. Ciclistas com os olhinhos brilhando cheio de energia, alegria e esperança, como quem vai pra Disneilândia, como nós éramos quando começamos. Jamais imaginam que serão muito mais frios, práticos e menos idealistas quando chegarem no Atlântico.
Rola também uma diferença de timeline. Hoje, quando estava para chegar no topo da montanha do dia, encontrei um desses ciclistas iniciantes. Trocamos as amenidades de sempre, apesar de que eu não passei os conselhos de sempre – a essa altura dar as dicas costumeiras sobre lugares no Missouri ou Kentucky estão tão distantes, que provavelmente serão esquecidas, então por que alongar a conversa com elas? E disse que estávamos, obviamente, na reta final. “Uia, é mesmo”, o cara respondeu, “quanto tempo para chegar ao fim, uma semana?”. “Não, cinco dias”, eu respondi. Ele me olhou espantado. Mas não há razão para tanto espanto; além de que depois de nove semanas pedalando, eu certamente pedalo distâncias maiores que ele, há o fato de que pra gente o caminho agora tem muito mais descida que subida (a gente tem que chegar no mar a alguma altura, no final das contas), enquanto pra ele o caminho é em grande parte escalar ladeira.
Me despedi do rapaz, comecei a pedalar, e uma suspeita que eu já tinha há alguns quilômetros se confirmou: meu pneu da frente estava esvaziando. De novo. Devagarinho, ao longo do dia, mas a essa altura já estava bem murcho; e, por causa da pausa para o papinho de ciclista, tinha esvaziado mais (alguém que entende de física, por favor me confirme a suspeita de que o pneu esvazia mais devagar quando a roda está girando, se o furo for minúsculo; ou me diga que estou viajando na maionese). Para minha sorte, era um dos dias em que Lewis estava pedalando atrás de mim, e em poucos minutos ele me alcançou. Eu queria apenas encher a câmara de novo para conseguir chegar na cidade do pernoite, mas o bico da câmara era curto demais para minha bomba conseguir enchê-la direito. Resolvi tentar trocar a câmara, então, peguei minha espátula pra tirar o pneu do aro da roda e fui me atracar com o pneu. Que não queria largar do aro por nada; depois de algumas tentativas minha espátula quebrou. Lewis veio ao socorro, tentou usar toda sua experiência no pneu renitente, mas tec, acabou quebrando sua espátula também. Eu, já irritadíssimo, me perguntava por que raios tinha resolvido me colocar nessa situação de estar na beira de uma estrada longe de tudo, prestes a ter que empurrar uma bicicleta por quinze quilômetros até uma cidadícula que não teria uma oficina capaz de resolver o problema. E se Lewis estivesse na frente, como sempre? E se eu estivesse sozinho? E se o homem do saco viesse me raptar? Putamerda, olha as situações em que eu me enfio. Lewis, mais acostumado com esses revezes, experimentou utilizar a bomba dele, e depois de algumas manobras conseguiu encher o pneu da frente. Agora era questão de torcer pro pneu segurar até a gente chegar na cidade, e daí a gente via o que fazia.
O pneu aguentou o resto da subida e toda a descida que se seguiu, apesar de já estar começando a ficar meia-bomba de novo quando chegamos em Mitchell. Mais uma cidadeca com um hotel e um restaurante só. Com vários warmshowers engatilhados para o resto da viagem, a gente decidiu pegar um quarto no hotel mesmo, apesar de não ser muito barato. Sinceramente, eu queria algo que deixasse meu dia mais feliz. Poder dormir numa cama quentinha seria a solução para as atribulações do dia. Na manhã seguinte eu dava um jeito no meu veículo.



