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Um dos baratos dessa viagem é conseguir ver ao vivo efeitos recentes sobre a topografia que a gente pensa que só acontecem milhões de anos atrás. Hoje, por exemplo: pela manhã, eu e Lewis contornamos o Earthquake Lake. Em 1959, um terremoto de 7.3 pontos na escala Richter afetou a região, causando desabamentos de terra e desgraças de todos os tipos. O deslocamento de terra represou o rio Madison, e em 10 dias um novo lago tinha se formado. Com medo que o novo lago destruísse uma represa artificial que já existia mais pra cima no rio, o Exército construiu uma brecha no lago, para que ele não ultrapassasse um certo ponto. Agora a previsão é que em algumas décadas o lago deixe de existir, mas até lá a visão é superinteressante: um lago azul entre montanhas, cheio de pontas de antigos pinheiros, já mortos, saindo do meio das águas e apontando desnutridamente para as nuvens.
A primeira metade do dia não tinha um restaurante que fosse na beira da estrada, então quando alcançamos o primeiro, já às duas da tarde, estávamos ávidos por um pouco de descanso e famintos. Mas, nesses azares que acontecem na rota, o lugar estava fechado porque quarta-feira é quando o staff tira folga. FON. Tinha um mercadinho do lado, e para lá fomos, já conformados em enganar a fome com besteiritos e afins.
Mas eis que a dona do mercadinho era também a dona do restaurante. Quando entramos fantasiados de ciclista e começamos a escolher pacotinhos, ela perguntou “vocês gostariam de experimentar um sanduíche novo?”. Opa, experimentar comida é com a gente mesmo! Então ela nos levou de volta pro restaurante, abriu a porta pra gente, nos instalou no balcão e preparou um sanduba de frango com molho tártaro pra cada um. “E aí, vale a pena colocar no cardápio?”. “Sim, está delicioso!”, eu respondia. Tudo bem que, com a fome que eu estava, tudo era delicioso. Mas o que conta é a intenção. E, ainda por cima, por nos “usar de cobaias”, ela deu um desconto na bóia. Quanta bondade.
O resto do dia transcorreu sem incidentes. Eu e Lewis chegamos juntos no ponto final do dia, Ennis. O mapa indicava que havia um camping na cidade; quando descobrimos onde era, fiquei bem desolado. Era basicamente uma área na beira do rio com um banheiro, onde os pescadores se instalavam. Um tio, já acampado em companhia com seu lindo husky siberiano, respondeu minha pergunta mais primordial: “Não, aqui não tem chuveiro.”.
Banho é tudo que nos torna pessoas civilizadas, devo dizer. Até agora eu já passei duas noites sem tomar banho, e devo dizer que foram dias infelizes. Não tinha a menor intenção de fazer desse o terceiro, principalmente quando existem opções por perto. Olhei ao redor e disse pro Lewis: “Não gostaria de ficar aqui, vai ser uma noite miserável”. Meu coleguinha, usando os rose-colored glasses de quem não quer pagar hotel/motel pela segunda noite seguida, respondeu: “Miserável nada! Esse lugar é lindo, olha o rio, olha as árvores…”. Caguei pra rio e árvores, pensei, eu quero chuveiro, enquanto olhava ao redor. Suspiro. “Olha, Lewis, aqui não tem água, não tem eletricidade, não tem chuveiro, não tem onde sentar. Não vou ficar aqui. Estou indo achar um motel.” Subi na bike e já estava partindo quando Lewis cedeu e veio atrás. Ah, me senti bem nesse momento.
E valeu a pena, o dono do primeiro motel em que paramos indicou um outro camping, pouco pra fora da cidade, com chuveiros. Eu estava com vontade de ficar no motel mesmo, mas como sabia que o coleguinha queria economizar, segui com ele pro camping. Em vinte minutos estávamos lá, montando as barracas, com prospecto de chuveiro, wi-fi grátis e até lavanderia, se eu tivesse sabão, o que não tinha.
O único porém é que o único restaurante por perto era um bistrô bem metido a besta, que vendia aperitivos de 18 dólares e pratos de 40. Nesses paradoxos da sovinice que não me entram na cabeça, a mesma criatura que estava disposta a passar a noite na beira do rio sem tomar banho agora estava sentada no bistrô tomando cerveja importando, e considerando pedir uma porção de pernas de rã “porque vai ser engraçado”. Olhei os preços, disse que era tudo muito caro, voltei pra bike e fui até um posto a média distância, comprar besteiritos para enganar a fome até o dia seguinte. Dessa vez, o coleguinha ficou por lá.



