GOPR1082

Caça e caçador


View Larger Map
Candelabro de chifre de alce

Aqui jazem dezenas de alces, para sua iluminação

Estamos oficialmente na fase Campos do Jordão da viagem. Altitude elevada, temperaturas reduzidas. Lewis, que não queria ficar sem acampar pelo menos uma vez no Colorado, conseguiu realizar seu desejo essa noite. Como o destino é chapinha, obviamente que essa foi a noite mais fria da semana, chegando a 5 graus durante a noite. Meu saco de dormir é uma tostadeira construída pra aguentar até -10ºC, então isso não deveria me preocupar. Fui dormir às dez da noite (ciclista dorme cedo, tá pensando o que?), e desperto à uma e quarenta da madrugada, com frio. “Como assim, não pode ser!”, eu me virava dentro do sleeping bag. Vira pra cá, vira pra lá, descobri o que acontecia: como o saco de dormir tem uns 30 cm a mais do que eu de comprimento, quando eu fico com a cabeça onde ela tem que ficar, o pé sobra. E o pé do saco de dormir estava encostando no chão/parede da barraca, roubando o precioso calorzinho interno. Lá fui eu me enterrar no saco de dormir, deixando um túnel respirável na parte superior. Demorou até conseguir encontrar uma posição que me permitisse respirar e não passar frio, mas quando encontrei, voltei a dormir quentinho.

Desmontar a barraca às seis e meia da manhã foi outro suplício, o frio encheu de orvalho a tenda, em poucos minutos já não dava pra sentir os dedos, meu humor ficou mais destruído que a grama do parque. Lewis ainda resolveu pagar de veloz, em quinze minutos tinha encarapitado tudo em cima da bike dele e falou que ia pro restaurante tomar café da manhã. Eu ainda fiquei mais meia hora arrumando tudo direitinho, conferindo tudo três vezes nessa minha paranoia que até o momento não me deixou perder nem celular nem carteira nem ipod, e segui pro mesmo restaurante que estava com fome.

Cão no carro

Que saudade do Lampinho

Só depois de começar a tomar café e comer french toasts que meu ânimo começou a se elevar. Quando já estava terminando e ia pedir a conta, percebi o porque da velocidade do meu coleguinha: ele ainda estava à paisana, enquanto eu, entre as mil funções matinais, já estava sensual na minha bermuda de lycra desde antes de sair da barraca. Como estou fazendo todo um trabalho pra não ser vingativo, esperei ele se trocar no banheiro do restaurante. Quando ele saiu, surpresa, o pneu da frente tinha furado, ele encontrou três rasgos no pneu, e lá ficou 45 minutos consertando. Eu, magnânimo, nem disse pra ele bem feito que deus castiga, abri o laptop, baixei meus podcasts com o wi-fi do restaurante, fiquei lendo “Brokeback Mountain”, e assim provei que sou o melhor colega de viagem do mundo.

Entrando no Wyoming

Wyoming, eternamente oeste

O grande evento programado para o dia era a chegada de mais um estado: deixaríamos o Colorado, tão lindo, pra trás, e entraríamos na terra de Ennis del Mar, o Wyoming. O caminho até a fronteira foi insosso, mais alguns trechos de estrada-soluço, nada muito marcante. Mas se deparar com mais uma placa de welcome pra um estado sempre é uma alegria a ser comemorada com fotos. Enquanto eu e Lewis nos fotografávamos para a posterioridade, um tiozão parou com o carro e chegou com garrafas d’água pra gente. Disse que já tinha feito a travessia com mais cinco amigos, que o que a gente tinha pra frente era o trecho mais bonito do caminho, e desejou boa sorte. Esse senso de comunidade ciclística é uma alegria sem fim.

Muito disso pode ser efeito psicológico, mas realmente o Wyoming tem mais jeito de rancho. As estradas têm poucas curvas, muitos trechos em linha reta, mas as beiradas são cheias de cavalos e vacas pastando, e no horizonte, montanhas em diversos tons de azul. Morda-se de inveja, Kansas.

Piscinas termais em Saratoga

A hobo pool, em Saratoga, e, lá perto da escada, a lobster pool, um fervo

Parada final: Saratoga, onde ficaríamos hospedados na casa de mais uma pessoa caridosa do WarmShowers, um casal de namorados novinhos, Tom e Sheila. A gente sabia que eles só estariam em casa depois das seis horas, então, ao chegarmos na cidade por volta das cinco, fomos direto para a atração turística local, as lagoas termais – que aqui são abertas ao público, de grátis. Ao lado do rio, ao redor de um vestiário, construíram três piscinas rústicas: uma simplesmente morninha; outra, chamada “piscina do indigente” por ser mais quente e, por ficar aberta 24h por dia o ano inteiro, seria onde os hobos poderiam tomar banho quentinho; e por fim, a “piscina da lagosta”, com água tão quente que quem mergulha nela é cozinhado vivo lentamente, como os crustáceos. Experimentei as duas primeiras, mas não sou trouxa de entrar na terceira. A do indigente já é quente o suficiente, você vai cozinhando até não aguentar mais, cercado por um cheiro sutil de enxofre vindo das entranhas da terra e por americanos gordos com entranhas cheias de batata frita.

Quando já tinha tomado banho no vestiário do local pra me livrar do cheirinho de ovo podre, nosso host Tom mandou um torpedo perguntando se a gente comia alce ou preferia porco, ou se por acaso éramos vegetarianos. Respondi que não era vegetariano, nunca tinha comido alce, e portanto fazia questão de experimentar. Uma vez na casa do jovem casal, apurei que a verdade era ainda mais interessante: tinha carne de alce e carne de antílope, ambos caçados por eles. Por eles, vírgula: caçados pela Sheila. Como as pessoas são mais tridimensionais que a gente pensa: ela, gordinha, garçonete, massagista, tem licença pra caçar, e passou o jantar descrevendo como passa dias no mato seguindo rastros dos bichos, onde você tem que atirar pro bicho morrer sem sofrer, como você faz pra carregar o corpo do mato pra casa (você esquarteja, se livra das entranhas, coloca tudo no lombo do cavalo e corta as peças na cozinha de casa). Como, se você não acerta no lugar certo, você tem que ir atrás do bicho e matar de vez pra não deixar ele sofrendo por dias. E como ela já teve que ir atrás de bichos que outros nós-cegos acertaram no lugar errado e não tiveram a capacidade de terminar o serviço depois.

Tom é editor de um jornalzinho semanal da cidade, que se ocupa de notícias emocionantes como o perfil dos novos professores da high school esse ano. Mas é um cara superbacana, com mente aberta, informado sobre política e curioso sobre o mundo. Fez várias perguntas sobre o Brasil, contou dos planos de largar o emprego em alguns meses pra viajar com a Sheila pra Nova Zelândia e juntos pedalarem por dois meses, e trocou várias figurinhas fotográficas com Lewis. A conversa não parava, Sheila contava de quando morou na República Dominicana fazendo trabalho voluntário, eu recomendando livros em espanhol pra ela… quase que me esqueci de lavar a roupa, algo premente.

Fiquei com uma certa dozinha deles, tão legais, vivendo naquela cidadezinha. Mas suspeito que se quiserem ir pra cidades maiores, eles irão, e vão ser felizes juntos onde quer que estejam. Pedalando e caçando.