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Todos os relatos de pessoas que fazem essa travessia têm um ponto em comum: o momento em que o viajante se dá conta que a viagem virou meio que um emprego. Você já não acha mais excepcional pedalar seis horas por dia, não estranha mais estar acampando, andando de bermuda de lycra por aí, ou ter o guarda-roupa limitadíssimo. A adaptação chega a tal ponto que o pedalar vira rotina. Um serviço do qual você gosta, mas serviço.
Hoje o despertador tocou quatro da manhã. Eu tinha dormido nove horas, então não era falta de sono. Mas não queria levantar. Não estava afim. Estava gostosinho, meu colchonete inflável. Mas a hora é hora, se você demora perde o tempo hábil de pedalar, e como eu disse ontem, tínhamos pela frente 80 km de nada. Então, seguindo os princípios que minha mãe me ensinou desde sempre, levantei sem vontade mesmo, pus o uniforme e cinco e meia da manhã estava de volta à estrada.
Tivemos uma chuvinha rápida de presente antes do sol nascer, tivemos um nascer do sol vermelho e lindo sobre a planura, tivemos uma falta de vento amigável, e nada. Troquei meus tradicionais podcasts por música no iPod, porque estava com sono e dando umas piscadas mais longas que devia. Quando se pedala por dezenas de quilômetros em linha reta, é incrível quanta coisa o seu corpo automatiza, tenho certeza que se eu bobeasse tiraria um cochilo e só acordaria quando meu nariz batesse contra o asfalto, sem jamais parar de pedalar.
Três horas e 60 km mais tarde, o mapa indicava que havia uma cidade de míseros 56 habitantes 1,5 km fora da rota, mas com um restaurante. A solução de como isso pode ser é: nessa altura da estrada, logo depois de um cruzamento com outra estrada maior, tem uma balança de caminhões. Então tem alguns coitados que moram em torno da balança, e um restaurante que vive de atender os caminhoneiros. Como além de tudo não tínhamos ido pro banheiro ainda, eu e Lewis concordamos em parar no restaurante, que uma cafeína fazia bem e um vaso sanitário, mais ainda.
(No processo parei a bike na balança para caminhões, a bike carregada pesa 50 libras, comigo em cima, 210 libras. O que significa que emagreci.)
O restaurante era um misto de café com bar. Só abriria às 11h, mas os donos já estavam lá e foram superlegais de nos deixar entrar e nos servir breakfast. Depois do número 2, comemos sem muita pressa, os donos nos cederam a senha do wi-fi, e eu resolvi ligar pro Felipe.
E foi uma das melhores coisas que fiz. Não dava pra falar muito, mas nos 10 minutos em que conversamos, ele melhorou meu astral de maneiras que só alguém que te conhece muito bem consegue. Me lembrou de como queria fazer isso, como todo mundo me acha muito excepcional por estar encarando essa aventura, e que era pra eu saber que estavam todos torcendo por mim. E podia ligar pra ele sempre que a pilha ficasse baixa. Também sugeriu que eu tirasse mais folgas.
Já melhorou meu ânimo, e segui os próximos 30 quilômetros em linha reta mais contente. Um ventinho praticamente a favor ajudou a acelerar, e me deixou mais alegrinho ainda. Chegamos em Larned, onde a gente queria terminar a epopeia ontem, pouco depois do meio-dia. Paramos num café para almoçar e, analisando o mapa e a temperatura, chegamos à conclusão que até conseguiríamos chegar na próxima cidade sem sofrer muito, que não era tão longe, mas o parque da cidade não tinha banheiro nem chuveiro. Encarar calor e poeira sem a possibilidade de um chuveiro recompensador no final é crueldade, e estava tão fresquinho no café, com ar condicionado, bebidas e wi-fi. Já tínhamos rodado 90 km. Estava bom, né? E lá ficamos.
E lá ficamos até o café fechar, às cinco da tarde. Montei escritório e fiz coisas de banco, mandei e-mails importantes, ajustei coisas no site, e também fiquei desperdiçando tempo no Facebook que ninguém é de ferro. E assim consegui bater um superpapo com Cris Yamazato, que me deu mais força ainda para eu seguir em frente:
aproveite o que você tem agora, curta o presente com intensidade. a sua terra e os os seus amigos são seus. estão sempre com você aonde quer q vc vá. o calor, os quiômetros, a saudade são só um jeito de olhar a coisa. se lembre de quantas histórias, experiências e emocões vc tá acumulando. esteja feliz. essa é a única coisa que a gente veio pra fazer nessa terrinha.
Também consegui conversar com maninho Anselmo, que mesmo abandonado pela família em SP, está acompanhando esse blog avidamente (“ leio todos os seus posts. Adoro. e fico cada vez mais orgulhoso!”) e reforçou mais ainda as convicções levemente abaladas.
Quem está longe pode não se dar conta, mas essas ajudas à distância fazem tanto bem pra quem está nessa situação instável, é uma ajuda inestimável que faz a gente retornar ao ponto de equilíbrio e se lembrar das razões dessa jornada toda, que podem se perder ao longo dos dias. Outros amigos já me ajudaram de longe também: Louis Piereck, Guilherme Piereck, Gui Vonkk, Dani Hirsch, Chris Martinez, Andreia e Mateo Moroni, Kiko Dias… Obrigado mesmo. Sintam-se todos parte dessa viagem.




seulindo
Acho lindo que na hora da perceverança você lembre da sua Mãe,isso é o que eu quero deixar de legado para os meus filhos e acho que consegui, São todos guerreiros,
Te amo !!! beijos orgulhosos!!! Mãinha