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Pra ver a olimpíada encerrar


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Randy e Roberta, se despedindo da gente na frente de casa

Randy e Roberta, se despedindo da gente na frente de casa

Manhã de domingo. Os aposentados acordam mais tarde, quem sabe abrem o jornal, e coçam de pijama até o almoço, certo? Talvez, mas não nossos hosts Randy e Roberta. Quando nós chegamos fantasiados de ciclistas, às sete e meia da matina, na cozinha deles para tomar café da manhã, lá estavam os dois, acordadíssimos e pirilampos, com umas roupas bacanudas para fazer trilhas. “A gente gostaria de tomar café da manhã com vocês, mas temos um brunch para ir daqui a pouco, então não vamos comer duas vezes. Mas fizemos um mingau de aveia pra vocês”, explicou Roberta. Pança cheia, bikes carregadas, eles nos levaram até fora para tirar uma foto nossa, e aproveitei pra tirar essa foto com eles. Tão legais, quero ser assim quando me aposentar.

O Colorado continua se mostrando o estado mais lindo de se pedalar até agora. As estradas são boas, sempre floridas, e a geografia é simplesmente de tirar o fôlego. Lagos, montanhas, florestas, tudo vai se combinando e se alternando pra criar paisagens cada vez mais lindas. Dá alegria de ver, mesmo quando se tem que pedalar ladeira acima.

Lewis, por alguma razão inexplicada, foi ficando mal-humorado conforme o dia foi avançando. Desde que a gente começou a andar junto ele diz que não vê a hora de encontrar alguma menina ciclista pra ver se rola algo. Hoje, quando contornávamos um lago (muito bonito, infelizmente seco pela metade), cruzamos com duas garotas e ele acenou e continuou pedalando. Eu parei, conversei, descobri que as duas são inglesas também, e só não tricotei mais porque lá se ia meu colega ao redor do lago. Desse jeito meu coleguinha não vai conseguir se dar bem, prestatenção!

Lago no Colorado

Colorado, seu lindo

 

Na hora do almoço, levemente ranzinza, ele insistia que não queria gastar com hospedagem essa noite e que a gente devia acampar num campo da guarda florestal, a 15 km de Hot Sulphur Springs. Eu achava isso a economia mais besta que se pode fazer, mas resolvi não criar caso. Uma hora e meia de estrada depois, paramos num bar de beira de estrada pra beber qualquer coisa. A cinzânia já tinha evoluído pro ponto que ele queria acabar o dia logo, como eu suspeitava que aconteceria, e assim habilmente eu propus que a gente parasse na cidade e acampasse por lá. Ele concordou.

Rio Colorado

Olha o Rio Colorado, que simpático

Percorremos os oito quilômetros restantes felizes pelo final próximo; serpentear o rio Colorado, cercados de penhascos de rocha laranja, também ajudou. Quando chegamos na cidadícula, pus o resto do meu plano secreto em ação. O camping da cidade não tinha banheiro ou chuveiro; o motel mais barateiro estava lotado, não dava nem pra só pagar pra tomar banho. “Mas vocês podem ir pras termas na entrada da cidade, pagam 18 dólares cada um, nadam nas águas quentes e depois tomam banho no vestiário”, sugeriu a moça do motel. Lewis já estava prestes a ir pras termas quando eu apontei que, por 18 cada um, se cada um desse mais delão a gente pegava um quarto no motel mais caro, com cama quentinha, chuveiro e wi-fi. Ele teve que concordar, e assim, aos pouquinhos, me livrei de acampar no meio da floresta.

E mais feliz, tinha TV a cabo, consegui assistir a cerimônia de encerramento das Olimpíadas e conferir a participação superbacana dos artistas brasileiros na festa.

O tio que fez meu check-in no motel, ao conferir que a gente estava fazendo a Transamérica de bicicleta, compartilhou que também já tinha atravessado os Estados Unidos de bicicleta. Duas vezes. “A primeira foi quando eu tinha 14 anos”, ele contou. “Saí sozinho. Pedalava 100 milhas, parava numa fazenda ou bar qualquer, e pedia para trabalhar lá por alguns dias. Assim eu ganhava dinheiro para os próximos dois dias e um lugar pra dormir. Não tinha esses mapas bacanas que vocês usam, então eu fui anotando onde era legal de ficar e onde não era. Depois que terminei o colegial, peguei minhas anotações e as segui pra percorrer o país pela segunda vez.” Fiz minha cara de janela enquanto pensava que tipo de pais deixam um menino de 14 anos atravessar o país de bicicleta sozinho, sem dinheiro. Jamais descobrirei.