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Vento vento, mano velho


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Nós, ciclistas, com Sheila, a caçadora

Nós, ciclistas, com Sheila, a caçadora

Nas fases emocionais dessa viagem, suspeito que já cheguei na da aceitação. Eu vou chegar no fim disso, não tem mais dúvida, negociação, negação, nada. Estou com uma postura quase fatalista. Pode cair o que cair na minha frente, e eu vou ultrapassar e seguir rumo ao Pacífico. Com mais ou menos esforço, com mais ou menos tempo, não tem fuga. Bring it on.

Acordamos cedo na casa de Tom & Sheila, sem grandes dramas. Tom tinha que ir trabalhar e saiu mais cedo, Sheila nos presenteou com um café da manhã reforçado de breakfast burritos feitos na hora. Nenhuma carne que ela tivesse caçado com as próprias mãos, mas mesmo assim muito gostoso.

Pouco depois que caímos na estrada, deu pra perceber que mais uma vez o dia seria uma luta contra o vento. Ele vinha com força na diagonal esquerda da minha trajetória. “Ah, mas meio de ladinho, não é tão ruim, vai”, você vai dizer. É bem ruim. Tem que ficar equilibrando a bike, que é empurrada pro lado. Mas, pior ainda, essa diagonal esquerda era exatamente a direção que eu teria que tomar quando mudasse de uma estrada para outra.

Foram horas sofridas até chegar no cruzamento das duas estradas. Nesse cruzamento há um posto, e ele foi praticamente um oásis depois de pedalar na oposição tanto tempo. Lewis já tinha chegado lá uns dez minutos antes, terminou de comer uma banana, disse que queria zarpar logo e me largou lá, tomando gatorade com Snickers na sombra da bomba de gasolina. O vento soprava rodamoinhos de pó do asfalto para a área do posto, as pessoas iam, vinham, e eu recuperava minhas forças o melhor que podia.

Você não vê, mas tá ventando pra chuchu

Você não vê, mas tá ventando pra chuchu

Como não fiz estágio com a Fundação Cacique Cobra Coral, não sabia a mandinga pra fazer o vento virar, e, como eu já sabia, quando entrei na nova estrada o vento estava totalmente contra mim. E uma estrada movimentada ainda, com um baita acostamento, mas cheia de caminhões, carros, pedaços de pneu caídos no acostamento, mais aventura do que eu precisava nesse dia. Mas dessa vez eu não fiz troça do vento, não mandei ele supositar nada, simplesmente mudei o iPod de podcasts pra música (o barulho do vento não deixava ouvir frases inteiras), baixei a marcha e fui.

Na saída da rodovia-pesadelo para uma estrada menor havia outro restaurante de posto de gasolina. Eu estava bem pra trás do Lewis, mas apertei o control-F (também conhecido como botão do foda-se) e resolvi que ia parar lá pra comer de qualquer jeito. Mas ele também tinha parado, vi pela bicicleta estacionada ao lado da entrada. Entrei, localizei-o entre as mesas e desabei na cadeira. Eu estava exausto. Aquela exaustão que dá melancolia. Pedi um hambúrguer sem entusiasmo, daí propus que a gente parasse na próxima cidade, Rawlins, que não era muito longe dali, e que tinha mais um voluntário do WarmShowers já contatado que poderia nos abrigar. Meu coleguinha britânico disse que tinha pensado a mesma coisa, ficou feliz de eu ter um WarmShowers na manga, e assim reduzimos a jornada planejada pro dia em 40 km. Liguei na hora para Kevin, o host, pedi desculpas por não ter avisado que ia chegar no dia anterior, mas será que rolava de ficar na casa dele? Ele soou como quem foi pego meio desprevinido, mas disse que sim, claro. Alívio.

Fat Tire no frasco de geleia

Fat Tire no frasco de geleia

Chegamos em Rawlins uma hora e meia de luta depois, ainda antes da hora que Kevin e sua esposa Lucy deveriam voltar do trabalho. Procuramos uma bicicletaria que deveria existir lá, segundo o mapa, para Lewis comprar pneus novos, mas ela tinha fechado. Então fomos para um bar bem ajeitado e ficamos fazendo hora, fazendo durar um copo de Fat Tire cada um, aqui servidos em potes de geleia.

Quando deu a hora, seguimos para o endereço do nosso host, que nos recebeu superamavelmente, como todos os chuveiroquenteiros até agora. Foi o tempo de tomar banho e ficar limpinho para comer um macarrão com vários legumes preparados por Lucy, uma janta vegetariana, saudável e com os carboidratos que a gente precisava. A casa era pequena mas bacana, e Kevin deixou a gente se espalhar pela sala, onde dormiríamos.

Ao longo da noite, enquanto eu escrevia no blog, conversamos com Kevin e descobrimos um pouco de sua história. Ele era gordo, casado com uma mulher feiosa. Resolveu pedalar ao longo da Costa Oeste, do sul ao norte. A mulher acompanhou por parte do caminho, depois largou pra andar de carro pelo país. Ele chegou até em cima, daí ainda resolveu seguir um pouco mais pro meio do país, com ela acompanhando motorizada. Os entrementes não foram ditos, mas o resultado é que ele perdeu 20 quilos, se divorciou, arranjou uma outra esposa BONITONA (e ciclista – vai pedalar uma prova de 100 milhas esse fim de semana), se mudou pra cidade dela, arranjou outro emprego e agora está casado pela segunda vez há um ano. Bicicleta dá resultado, viu?