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Kansas, Karibe, kansado


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Bike no breu

Cinco da madrugada, Angelana Paula espera obedientemente seguir pela estrada.

Desde a mais tenra infância, eu tinha uma dúvida cruel: por que a gente não pode tomar Redoxon o tempo todo? Tão gostoso! Um copo de água gelada, um tablete, e pronto, um suquinho fraquinho, gostoso e refrescante, com o lúdico de ver o Redoxon se desfazendo. Que injustiça que você só pode tomar quando está resfriado. Não é possível que só eu tinha essa ideia. Mas, sendo uma criança tonta e obediente como sempre fui, nunca resolvi tomar um litro de Redoxon escondido, algo do que me arrependo hoje em dia.

Mas alguns sonhos de infância se tornam verdade. Dra. Luísa Mascarenhas, minha nutricionista, entre várias recomendações de como me manter bem alimentado e não desmaiar na estrada, receitou que eu misturasse tabletes de NUUN com água de hora em hora enquanto estivesse pedalando. NUUN, basicamente, é um tablete tipo Redoxon com os hidrólitos que o Gatorade oferece. Outra utilidade, mas com sabor e ludicidade parecidas. E assim, há já 30 dias, estou tendo a alegria de tomar Redoxon geladinho e refrescante várias vezes por dia. Quando eu consigo fazer o combo de NUUN com gelo e água, então, me sinto num comercial de refrigerante, bebendo e fazendo “AAAAAHHHHH!!!”, com a vantagem de que não engorda nem apodrece os dentes. Claro que, se você esperar quinze minutos, já não está mais geladinho, e dependendo do calor, calha da água ficar QUENTE. Mas mesmo assim, fico feliz.

E o calor, o calor! Implacável. Continuamos tendo temperaturas de 40 graus ou mais à tarde. Se não partirmos às cinco e meia da manhã, fica impossível fazer uma quilometragem razoável sem sofrer uma insolação. As vantagens e desvantagens de se estar num planalto cheio de nada. Estamos num nível de condicionamento que a gente sabe que, se a temperatura fosse razoável, a gente poderia pedalar felizes das cinco e meia às três da tarde, batendo cento e cinquenta quilômetros e devorando o Kansas em poucos dias. Mas o padrão até agora tem sido o mesmo: manhã agradável, meio que ameaçando chover, ventos de mudança de temperatura onze e tanto, e a partir do meio-dia vai esquentando até as mamonas racharem uma a uma.

Tin Man mailbox

No Kansas, o Homem de Lata faz bico segurando a caixa de correio.

Hoje, à nossa frente, tínhamos 200 km em linha reta direção oeste pela frente, o que significa quase elevação nenhuma. Um ventinho a favor, uma temperatura mais baixa, e que alegria seria. Na hora da partida, o vendaval e o jeito de chuva chegou a nos dar esperança de que a gente seria capaz de quebrar nossos recordes de distância. O único problema: depois dos primeiros 100 km, não haveria uma cidadezinha, um posto de gasolina, nada pelos próximos 80 km. Então era tudo ou nada.

A manhã prosseguiu sem incidentes; quando paramos para almoçar, na última cidade antes dos Oitenta Quilômetros Vazios, já começava a ficar bem quente. Estocamos cinco litros de água cada um e vamos em frente, ou paramos logo mais? Quando partimos, Lewis queria seguir. Mas eu sabia que ele ia começar a entrar em pane logo mais, e apontei antes de partirmos que havia uma cidade razoável 5 km mais pra frente, saindo da rota uns 10 km. A gente ainda teria como mudar de ideia até lá. Dito e feito: quando chegamos perto do cruzamento que levava à cidade, Lewis perguntou, meio sem graça, se tinha problema da gente parar na cidade. Claro que não. E assim encerramos o dia em Sterling.

Lewis sleeping over his lunch

Lewis mal resistia e dormia sobre seu almoço.

Quem já leu livros do Gabriel Garcia Márquez já viu ele descrever inúmeras vezes o calor massacrante do Caribe. Como quando o sol está a pino, as cidades se esvaziam e ninguém sai de casa. Pois é, Kansas está virando Karibe. Quando chegamos no parque em Hutchinson onde passaríamos a noite, já não dava mais pra respirar fora da sombra, e eu dei aleluias que a gente tinha se poupado 80 km de sofrimento. Como tinha ficado acordado até tarde na noite anterior atualizando o blog, já estava mais cansado que o normal, e com o calor, então, não conseguia ficar de pé. Encostei a bike no pilhar do telhadinho que achamos, peguei a toalha, improvisei um travesseiro, deitei em cima de uma das mesas sob o telhadinho, dei boa noite pro Lewis e fiz a sesta. Me senti meio mendigo, mas dane-se, não tava fácil.

Entre uma virada pra um lado e outra em cima da mesa, tomando cuidado pra não cair, olhei pro lado e vi Lewis dormindo em outra mesa também. Fique registrado que a indolência não é culpa da genética latina, mas sim do calor.