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Ciclistas associados


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Na entrada da ACA

É aqui que fazem os mapas pra gente se jogar pelo continente!

Como sempre, o dia de folga passou rápido. Missoula é uma cidade muito bacana, superuniversitária, cheia de gente jovem e descolada. Aproveitei o dia de gente normal pra corrigir inconsistências de datas no blog, levar a bike pro conserto a fim de fazer o freio da frente funcionar novamente, e depois fui pro cinema assistir Paranorman. O desenho é bem legalzinho, e muito melhor que as opções: Total Recall e The Expendables II.

Quando voltei para a república, encontrei o povo todo jogado no chão da sala em torno de um laptop, rolando de rir. A Universidade de Montana está sob investigações de estupro no campus, e como resposta agora quer que todos os seus estudantes assistam vídeos institucionais educativos sobre o assunto. Meus hosts estavam no processo de assisti-los, e se mijavam de rir com as instruções: “antes de uma relação íntima, pergunte à parceira se ela realmente quer fazer isso”, “ao ver uma amiga alcoolizada sair de uma festa acompanhada, corra até ela e confira se ela sabe o que está fazendo” e por aí vai. Todos procedimentos que tiram expontaneidade da vida, soam ridículos na prática e resolvem muita pouca coisa.

No dia seguinte, acordamos cedo e saímos da república dos nossos hosts pouco depois deles saírem para as aulas. Mas ainda não saímos de Missoula, pois tínhamos uma última missão: visitar a sede da Adventure Cycling Association, a ONG que prepara os mapas que usamos em nossa viagem. O convite para que os ciclistas a visitem está no próprio mapa, prometendo carinho, água e sorvete. É claro que a gente não ia deixar de ir.

E realmente as promessas todas foram cumpridas. Fomos superbem recebidos, ganhamos uma membership grátis da associação, fomos levados por um tour da sede e o sorvete estava lá nos esperando. Pudemos ver dezenas de fotos históricas das viagens mais importantes já feitas pelos associados, muitas ao lado das bicicletas usadas no evento – inclusive da primeira e importantíssima pedalada Transamerica, também conhecida com BikeCentennial, realizada em 1976 com centenas de ciclistas e depois da qual se estabeleceu a rota que estou seguindo.

Dois belgas chegaram pouco antes da gente, montados em Segways. Sim, não são bikes, mas a história é interessante: um deles era ciclista, mas sofreu um acidente grave e não tem mais o movimento completo de uma das pernas. Agora tem que usar bengala, mas não deixou que isso o afastasse do sonho de percorrer a rota de costa a costa: descolou um amigo e um Segway pra cada um, e, de 100 em 100 quilômetros por dia, consumindo três baterias por dia, eles estão completando o trajeto.

Greg Siple e Lewis Davison

Greg Siple tirando o meu retrato enquanto Lewis aguarda sua vez

Um dos fundadores da ONG, Greg Siple, vem fotografando os ciclistas que passam pela sede desde 1970. Ele mesmo já realizou várias viagens de bike, incluindo a mais maluca ainda travessia do Alasca ao sul da Argentina, atravessando os Andes. Vários dos retratos nas paredes foram feitos por ele, exibindo ciclistas de todos os tipos, muitos com aquele look boogie nights de 40 anos atrás. Entre os retratos mais divertidos: pessoas que conseguem deitar em cima da bicicleta; um cara que acendeu tufos de incenso para a foto, tanta fumaça que mal se vê a bike; outro que fazia números de pirofagia; uma banda de quatro pessoas, que levavam consigo todos os instrumentos, inclusive uma bateria. Tanta história, tanta bike, deixa o coração dos ciclistas mais quentinho.

Greg levou Lewis e eu para o fundo da sede e, contra o mesmo fundo em que tirou todos os outros retratos, tirou os nossos. Ele me disse que eu sou o segundo brasileiro nesse tempo todo a aparecer na sede, o que me surpreendeu um pouco. Ao fim da visita, penduraram nossas bicicletas com todo seu equipamento em balanças muito mais precisas que as de caminhão em que tínhamos pesado elas anteriormente, e assim descobrimos o peso oficial de nossas magrelas: 39,5 kg a minha, 51 kg a do Lewis.

Idaho border

Entrando em Idaho. A luz amarelada é por conta de um incêndio florestal logo ali.

E assim, carregados de história ciclística, retomamos a viagem. Voltar para a estrada depois de um dia de folga nunca é fácil, o corpo se desacostuma tão rápido, minha urbanicidade toda se revolta contra se enfiar nos grotões da América novamente. Pela frente, mais um pass para ultrapassar, que acabou sendo mais gradual do que eu esperava e resultou numa subida sem drama. No topo da ladeira, a fronteira de Montana com Idaho, o penúltimo estado dessa viagem, e a transição para o fuso horário do Pacífico, o último. Sim, essa travessia está chegando na reta final.

O fim do dia tinha que ser no resort de Powell, na beira da interstate 12, de qualquer jeito: depois daquele ponto, são 105 km até a próxima vendinha de beira de estrada que seja, nada de comida ou água. Esses vazios demográficos são dureza. A gente pretendia parar lá, jantar, comprar comidas para o dia seguinte e ir acampar num camping da guarda florestal um pouco mais pra baixo, mas o dono do mercadinho do resort foi legal, deixou a gente acampar de graça atrás de sua loja e liberou os chuveiros do resort pra gente por míseros 5 dólares. De quebra, garantiu mais dois clientes.

One Response to “Ciclistas associados”

  1. Jorge Ramiro

    Hey,Man!!
    Comecei por aqui!
    Muito legal esse primeiro contato com seu trabalho e sua grande aventura by bike!
    Virei mais,claro!!
    Adorei a multiplicidade de temas no EXCLAMANSÃO(onde vc foi “arranjar” esse nome??!!Rsrsrsr!!Muito Bom!!!Rsrsrsrsr)
    Grande Abraço!!