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Estou convencido que deus colocou a costa oeste aqui do outro lado do continente para dar um estímulo aos colonizadores e garantir que eles chegassem ao outro oceano. A costa oeste é tão, mas tão mais bonita que a costa leste que não tem nem graça comparar. Até chegar em Pueblo, eu não passava por momentos em que eu tinha que parar e olhar a paisagem, embasbacado. Desde então, isso meio que acontece a cada dois dias.
Na rota de hoje, o desafio seria uma megassubida que se estendia por uns 30 quilômetros. O primeiro plano tinha sido dividir a subida em duas, parando numa cidade no meio do caminho por uma noite e fazendo a segunda metade no dia seguinte. Mas isso dispensaria o dia de folga. Como paramos para um dia de folga em Missoula, eu propus que, pra voltar para o cronograma original, a gente juntasse os dois dias “pequenos” de 70 e muitos quilômetros num dia grande de 150. Afinal, como acontece com todas as ladeiras, depois de muita subida tinha muita descida. Além disso, na cidade final teríamos mais um WarmShowers onde se abrigar sem ter o trabalho de acampar.
O tempo voltou a esquentar, e com isso eu tenho ido na frente de Lewis, que, ao longo das horas, perde-se de vista. Já menos tonto, agora eu não fico mais esperando de meia em meia hora, a gente combina em que cidade vamos almoçar, e lá vou eu no meu ritmo, se ele não alcança, mais cedo ou mais tarde ele desembarca no mesmo lugar. Eu deixo a bike na frente do restaurante em que estou, o que sempre funcionou na hora que eu tinha que descobrir onde ele tinha parado pra almoçar. Acontece que ele é míope, e muitas vezes não repara na bicicleta, por mais que ela esteja gritando na frente do estabelecimento. Daí passa reto. Paciência. Uma hora a gente começa a se ligar e se localiza. O telefone dele nem sempre pega e está quase sem crédito, mas ema ema.
Depois de eu almoçar numa lanchonete meio riponga mas bastante gostosa em Grangeville, e ele almoçar num chinês na mesma cidade por não ter localizado meu veículo, conseguimos nos encontrar de novo para encarar a segunda metade da subida. O mapa da ACA propunha que a gente pegasse uma estrada antiga que era mais inclinada e mais comprida, por ter menos movimento. Foi mal aí, ACA, mas eu tiro tráfego de letra, e já passei por estradas bem piores nessa viagem. Rebeldemente seguimos pela estrada nova, toda moderna e com um acostamento bacana, até chegar no topo. De onde se via todo o resto da serra, num desses momentos em que você tem que parar para tirar foto. Os americanos, que são super ligados nessas coisas, preparam mirantes na beira da estrada em todos os melhores lugares. Assim, encostei num mirante, estava lá fazendo o meu melhor com o iPhone e a câmera do capacete, quando Lewis, em toda sua miopia, passa reto de novo, por mais que eu agitasse os braços. Comecei a me arrepender de não ter comprado um par de walkie-talkies mês passado.
Mas como o caminho é o mesmo, uma hora a gente se encontrou de novo, depois de muita, muita descida. Daí a estrada era mais uma daquelas que segue na beira do rio, razoavelmente plana e cheia de curvas ao redor dos montes. A tarde foi passando, começou a cair o sol, e a fome apertou. Eu tinha algumas barrinhas, mas não eram o suficiente. Lewis estava pior que eu, já sem água, sem barra, sem força, botando os bofes pra fora. Acho que ter que digerir a boia chinesa também não ajudou muito. Eu tentei ajudar como pude, dei um pouco de água e uma barrinha, mas o inglesinho estava sofrendo. Daí encontramos um motel que não parecia ter restaurante, mas era a única coisa no mapa até o fim do dia.
Paramos, encontramos a responsável e contamos nossa triste história. Ela nos levou para a cozinha e falou que a gente podia comer o que quisesse, free of charge. Como as pessoas são boas, a gente sem querer descolou um café da tarde na faixa que salvou a vida do meu coleguinha. Agora era só seguir até Riggins.
Essas cidadezinhas têm aquela confiança na comunidade que já se esvaiu pelos ralos da criminalidade faz tempo nos lugares onde eu vivi. Richelle, nossa host para aquela noite, tinha me mandado instruções por e-mail de como chegar na casa dela, avisando que talvez não conseguisse chegar em casa essa noite mas que a gente podia ir entrando e ficar à vontade. Chegamos lá e todas as portas da casa estavam abertas, e um bilhete na porta para mim deixava claro que “mi casa su casa”, a gente podia abrir a geladeira e se servir, mas que a máquina de lavar roupa estava com defeito, o ralo da pia, entupido, e tava rolando uma infestação de formigas. E assim nos instalamos na casa, simpática e também meio riponga, com uma bagunça de livros por todas as partes que me fez ir com a cara de Richelle na hora.
Só fui conhecê-la duas horas depois. Ela é mãe solteira, aparentemente o filho fica com o pai durante a semana. Fundou a oito anos um jornalzinho quinzenal de distribuição gratuita, vive da venda dos anúncios, e faz acontecer apesar da equipe quase não existente e do marasmo da região onde vive. Ela deve compensar a pasmaceira por si só, a impressão que dava era que tinha acabado de colocar uma duracell nova, falando falando falando sem parar. Quando soube que eu sou webdesigner, logo trouxe um site que arranjou de fazer para alguém, apesar de não entender muito de HTML ou CSS, para eu explicar por que tal coisa não estava funcionando. E assim passei uma hora ditando pra ela os comandos de CSS pra fazer a coisa toda dar certo. Paguei minha estadia com trabalho.



