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O maior pico do caminho é o Hoosier Pass, que já tinha ficado para trás, mas isso não quer dizer que a não há mais pirambeiras em nosso caminho. A razão de se escolher Hot Sulphur Springs para a parada no dia anterior era uma só: a gente tinha um outro pico, o Willow Creek Pass (menor, mas ainda sim, alto), pra superar no dia seguinte. Lugar para parar, só uma vilúscula chamada Rand, que dependendo do bom humor do dono tinha uma loja que podia estar aberta ou não.
O café da manhã foi num restaurante chamado Glory Hole Café. Em respeito ao nome do estabelecimento, aqui vai um minuto de silêncio.
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O caminho até o cume do pico do dia era mais um trajeto superbonito do Colorado, com estrada tranquila e serpenteante, subidas suaves, e florestas de pinheiros encostando na estrada. Seria um dia ideal de pedalar, não fosse a chuva que pairava desde o nascer do sol. Quanto mais eu subia, mais negras as nuvens foram ficando, mais forte ficava o vento gelado. Como se fosse um filme, assim que a gente chegou no topo e viu a placa indicando o fim da subida, começou a chover. E chovia FRIO. Frio frio frio de tudo. Coloquei moleton, casaco de ciclista, e a capa de chuva, tudo na esperança de não bater os dentes enquanto descia ladeira abaixo, mas sem sucesso completo. Não foi uma descida recompensadora: além de não poder acelerar muito porque me cago de escorregar no asfalto molhado e perder uns bifes meus na estrada, o vento me deixava cada vez mais com frio, então que bom que eu ia mais devagar pra não enregelar tanto. Quando a descida acabou na vilúscula de Rand, por sorte a loja estava aberta, e lá parei pra fugir da chuva e estar em qualquer situação um pouco mais quentinha.
A loja vendia quase de tudo, mas com especial ênfase em coisas de caubói e Velho Oeste, por conta de sua proximidade com o Wyoming. Entre os livros à venda estava Close Range, da Annie Proulx, no qual está o conto no qual se baseou o filme Brokeback Mountain, e foi assim que me dei conta que o filme se passa no Wyoming. Eu sendo eu, assim que tive a oportunidade comprei esse livro pro meu Kindle, e assim vou traçar o Wyoming lendo contos que se passam nele.
A estrada entre Rand e Walden – tu-dum – era bastante plana, dava pra acelerar, – tu-dum – mas tem um problema: a cada – tu-dum – cinco ou seis metros há uma rachadura – tu-dum – no asfalto. Sua bicicleta vai – tu-dum – passando por eles inúmeras vezes, cada – tu-dum – solavanco agitando a bagagem e arris– tu-dum –cando o equilíbrio razoavelmente delicado das bolsas – tu-dum – todas. Depois de mais de – tu-dum – quarenta dias, o elástico que segura o – tu-dum – casulo da Iracema já não está dos mais fortes; quando – tu-dum – eu vi a barraca já estava quase caindo pelo – tu-dum – lado da bike. Prendi o gancho do elástico – tu-dum – numa posição mais apertadinha, e segui – tu-dum – pela estrada, sempre alerta ao espelho retrovisor – não pra ver – tu-dum – se vinha algum carro, mas pra conferir se Iracema – tu-dum – continuava onde devia. Depois do que parecia uma – tu-dum – eternidade, chegamos em Walden.
Localizamos a piscina pública, pagamos uma taxinha e tomamos banho. Depois encostamos as bikes num restaurante que parecia ser legal e lá almojantamos sem pressa. Começava a escurecer quando pagamos a conta; a moça do parque perguntou onde a gente ia ficar. “Vamos acampar no parque”, dissemos. “Ah, muito bem. Só cuidado, que tem um urso aqui na cidade, ele pode aparecer no parque à noite. Não deixa comida perto das barracas.” Por mais bem-intencionado que fosse o aviso, só fez me deixar mais aflito; à noite, a cada vespa que batia na barraca, eu ficava com medo de que fosse um urso batendo na minha porta.
Mas antes de irmos para o parque, fizemos um pit-stop num boliche onde jogamos três partidas – as três vencidas pelo Lewis, que treina muito no Reino Unido e portanto ganhou de lavada. De volta ao parque, encontramos três primos ciclistas que estavam fazendo uma rota local de duas semanas. Trocamos impressões, comentamos das estradas, e assim falei do meu sofrimento na estrada-soluço entre Rand e Walden. “Você tá sofrendo com seu elástico? Eu tenho um novo sem usar aqui, quer?”. Queria, aceitei. Como já disse mais de uma vez aqui, as pessoas são boas.




