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Quando eu comecei essa viagem de bicicleta, 75 quilômetros era uma distância mais que razoável para se pedalar num dia. Seguindo o guia dos ciclistas preguiçosos no qual eu baseava as minhas diárias, aos 70 eu já estava procurando abrigo para descansar o resto do dia. Então é com um misto de ironia e alegria que eu vejo que 75 km se tornou “um dia curto” para mim, já que o padrão agora é de cem quilômetros para cima.
A programação de hoje era ir de Hamilton para Missoula, onde havia outra casa de WarmShowers nos esperando, já combinado para nos abrigar por dois dias para que a gente tirasse o último dia de folga da jornada. Cientes da “pouca distância” a ser percorrida no dia, passamos um dia sem pressa pra nada. Tomamos um café da manhã demorado com o Warren, que preparou pra gente panquecas integrais com o mel que ele mesmo colhe de suas abelhas. Peggy tinha saído mais cedo pra ir pra igreja, mas conseguimos tirar uma foto de todos juntos antes dela ir.
Uma hora e meia de estrada depois, Lewis me pergunta se eu não topo parar pra comer alguma coisa, porque as panquecas não tinham enchido o bucho. Com certeza. Então paramos num Subway. Uma hora de almoço adiantado, de volta pra estrada. De curioso, só uma ciclista que pedalava ao lado do cão – com um gancho especial pra correia do dogue quando ele queria correr ao lado da bike, e puxando um vagão atrás da magrela para ele ir dentro, na moleza, quando se cansava.
Mais duas horas pedalando e já estávamos quase em Missoula, mas ainda era cedo demais para chegar na casa onde íamos ficar. Então fizemos uma horinha no McDonald’s (sempre válido, pelo wi-fi grátis) e seguimos para a cidade, ainda no meio da tarde. O que fazer? Só enrolar mais. Esse domingo era o segundo dia de um festival de música grassroots, com palcos e tendas de comidas nas ruas. Sentamos em um bar na frente de um palco e ficamos ouvindo os den-denguedéins dos banjos. Lewis pediu cerveja, como sempre, e eu resolvi acompanhar: pedi uma cerveja local chamada “Pig’s Ass”, só pelo nome. Me dei mal, tinha mesmo gosto de bunda de porco. No menu ainda tinha “Moose Drool” e “Dead Guy Ale”, mas daí perdi a coragem de escolher cerveja pelo nome.
Já quase seis da tarde, nossos hosts responderam nossos torpedos e deram o sinal verde pra gente despencar na casa deles. Paramos para comprar umas cervejas de presente e lá fomos nós. Nossos benfeitores dos próximos dias são três estudantes universitários que abrem a república para ciclistas viajantes. Os três são ciclistas e são bem o padrão de moradores de república, ou seja: na sala de estar tinha suportes para quatro bicicletas, mas a única mobília era uma mesa para as tranqueiras diárias. Falaram pra gente se espalhar pela sala mesmo, sentamo-nos todos no chão, eles com cervejas, eu na água de torneira, e passamos o resto da noite falando as besteiras divertidas que ocupam o mindset de quem está prestes a se formar da faculdade: sexo, provas e festas. Pode não ser uma casa que nos serve comida como outros WarmShowers, mas isso é mais que compensado pelas gargalhadas das conversas noite adentro.





