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Pode ser só uma impressão de que afinal não gastou mais que algumas horas percorrendo a cidade, mas Dubois, WY, tem uma fixação por chifres. As referências a alces e cervos etc. são bastante constantes aqui na cauboilândia, mas em Dubois elas realmente passam dos limites. Tem viadinhos chifrudos em várias lojas, em graus variantes de fofura ou ferocidade. Tem uma loja que fez uma caveira gigante com chifres ao redor da porta de entrada, só porque achou legal. E tem até uma oficina que se dedica a vender esculturas feitas com chifres de cervos. Conversando com uma tia da loja, me certifiquei que os chifres caem todos os anos, eles não precisam matar os bichinhos pra consegui-los. Mesmo assim acho essa ideia fixa meio esquisita.
O planejamento de hoje era fazer uma quilometragem na média que fazemos nas últimas semanas, entre 100 e 120 km. Acontece que no meio do caminho havia uma montanha, havia uma montanha no meio do caminho. Mais um pass, que é uma passagem pela serra que é menos alta que as montanhas que a cercam, mas mesmo assim é no alto da ladeira. Não há outro jeito além de subir devagar, e ir sentindo o ar ficar frio aos poucos conforme você ganha altitude. Depois de horas na primeira marcha, quando finalmente cheguei no ápice e era hora de começar a rodar ladeira abaixo, nem sequer uma plaquinha de recompensa para registrar mais esse momento kodak. Fiquei chatiado.
Alcancei Lewis num restaurante de beira de estrada depois do fim da ladeira. Ainda tínhamos vários quilômetros pela frente; o dia seria longo, e resignadamente pus uma roda na frente da outra e segui caminho. Pelo menos o Wyoming tinha mais uma surpresa em sua topologia pra gente, as enormes e lindas cordilheiras Teton, cujos cumes ainda tinham neve mesmo no verão, e que são simplesmente um bálsamo para os olhos do ciclista cansado. Pena que isso não faça as distâncias menores. Entramos no Parque Nacional Teton (25 dólares pra uma semana, vale também pra Yellowstone), e seguimos ainda por muita distância até alcançar o camping no meio do parque. Começamos a pedalar às nove da manhã, encerramos às sete da noite. Dureza.
E ainda por cima, pra deixar tudo mais interessante, estamos em “bear country”. Ou seja, existe a chance de você estar andando tranquilamente e trombar com um urso. Quando se entra no camping, os guardas dão mil instruções: qualquer coisa com odor deve ser guardada numa caixa de ferro ao lado da sua área de camping, e isso inclui qualquer comida, sabonete, desodorante, protetor solar, garrafa d’água… Se por acaso um urso surgir na sua frente, afaste-se lentamente, não tente distraí-lo jogando comida pra ele, e muito menos atacá-lo. Qualquer esquecimento pode resultar num urso faminto tentando abrir sua barraca a patadas atrás de comida. E eles não são bacaninhas como o Zé Colmeia ou Catatau.
No lote ao lado do nosso tinha uma galera que nos convocou pra conversar ao redor da fogueira e tomar cerveja. Eu já tinha voltado a ser gente depois de tomar banho e comer, então aceitei o convite, apesar de estar pregado. Os anfitriões eram dois trilheiros, Harris e Dave, e com eles já estavam os ocupantes do lote do outro lado, Matt e Amy, um casal.
As histórias das horas seguintes foram divertidíssimas. Harris e Dave se conheceram quando percorreram trechos da Appalachian Trail no ano anterior, e esse ano resolveram fazer trilhas nesse lado do país. No dia seguinte estavam indo de carona ou ônibus, o que surgisse primeiro, para empregos temporários na cidade de Jackson, onde trabalhariam alguns dias para juntar dinheiro a ser gasto em mais algumas semanas de trilha. Contaram como, na semana anterior, acabaram dormindo no meio de uma floresta, e à noite ouviam uma matilha de lobos correndo ao redor deles, uivando cada vez mais perto. Acordaram assustados e se cagaram de medo até conseguirem acender uma fogueira mequetrefe, com que se defenderam, insones, até o raiar do dia. Numa história mais feliz, Harris contou como um dia ficaram num quarto de hotel e ele “se deu bem”, e Dave, num gesto de amizade infinda, dormiu na banheira da suíte para liberar a única cama do quarto para a noite de volúpia e devassidão do amigo.
Amy e Matt eram motoqueiros e estavam viajando pela costa oeste em suas supermotocas. Eu inicialmente achei que Amy estava de passageira na moto do namorado, mas fiquei surpreso e feliz ao descobrir que ela tem a própria moto e avança pelas rodovias sem deixar nada a dever aos tiozões motoqueiros que já passaram por mim às centenas nessa viagem. E ela também é designer: faz livros, e está terminando jobs enquanto viaja, para a enorme ansiedade de seus clientes. Senti firmeza nela, mas sei como clientes são.
As horas ao redor da fogueira com essa turma improvisada passaram rápidas e divertidas, e fizeram o dia de tanto esforço valer. Foi com o coração apertado que, já piscando de sono, pedi licença e fui para o meu lote dormir. Escovei os dentes com a água que ainda tinha na minha garrafa d’água, cuspindo a espuma no chão antes de voltar a trancar tudo na caixa antiurso. Não sabia, mas estava fazendo algo bem arriscado, mesmo a espuma pode atrair um urso. Felizmente, não tive um tête-a-tête com o Zé Colmeia nessa noite.





