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Prezados ventos de todas as direções
Provavelmente, nas rotinas corridas em que vocês levam as vidas, sempre ocupados em percorrer o mundo, vocês não prestam atenção nessas pobres criaturas que vivem presas ao chão. Mesmo quando construímos moinhos, cata-ventos, barcos e outros objetos para ver se vocês reparam em nós, duvido que haja muito resultado. Então senti que seria necessário estabelecer uma comunicação formal para melhorarmos nossas relações.
Se repararem nessas criaturas que ocupam cada vez mais a terra, vocês certamente vão perceber que muitos se movem sem ajuda, uma boa quantidade entra numa caixa de aço e zune pela superfície pensando-se mais velozes e livres que vossas excelências, e uma quantidade muito menor percorre o mundo sobre duas rodas. Desses, um número ainda menor o fazem em um instrumento muito mais frágil, chamado bicicleta.
Creio que vossas ventanias não entendam os efeitos de sua presença constante e intensa em algumas regiões, principalmente sobre os pobres humanos que estão expostos às vossas forças nas já supracitadas bicicletas. Assim, sinto que devo esclarecer que:
- Apesar de ser um excelente meio de transporte, um componente importantíssimo do ato de utilizar as bicicletas é a diversão, tanto que muitos humanos pensam que elas são brinquedos e nada mais.
- Ao contrário de quaisquer outras maquinarias sobre rodas que vossas zefiridades por ventura possam encontrar, seus efeitos sobre esses veículos afetam diretamente o pobre humano que as guia.
Tomemos como exemplo vossas atividades sobre a região conhecida por nós como Montana, na rodovia indicada pelos nativos como 278, na data de 24 de agosto de 2012 (mesmo que tais referências não façam qualquer sentido para vossas sopracências, peço que sejam pacientes). Vossa presença incessante durante todo o dia num trecho que já possui duas serras tornou uma atividade que já não era fácil para os ciclistas num ato praticamente heroico. Setenta e poucos quilômetros, que em outra situação seriam percorridos em três ou quatro horas, foram transcorridos em seis horas e meia. Por mais que aprecie vossas presenças quando agem em moderação, peço para que se contenham no futuro.
Em seu afã de ir e vir, vossas senhorias estão alimentando um incêndio no estado vizinho, Idaho, e trazem consigo toda a fumaça que o fogo lá cria. Além de apagar qualquer beleza que Montana possa ter, isso faz os olhos e as gargantas dos pobres ciclistas arderem, e faz com que criem uma raiva irracional do estado de Montana sem muito motivo do próprio estado para isso.
A exposição constante a suas intensidades por longos períodos de tempo drena toda a alegria e satisfação dos ciclistas. Venho pedalando a cinquenta dias, e nunca antes de hoje tive vontade de sentar na beira da estrada e simplesmente chorar de desespero. Pela primeira vez tive que descer da bicicletas e empurrá-la, não por uma subida íngreme, mas sim para resistir a seus empurrões inclementes.
Vossa empolgação nos rouba da felicidade de deslizar montanha abaixo, e torna subir montanha acima um esforço cruel. Ser forçado a ziguezaguear pela estrada para compensar por seus empurrões de lado é deprimente e perigoso. Fiquei feliz por ter que tirar os fones de ouvido de minha cabeça, outra ação inédita nessa viagem, por não conseguir ouvir nada: assim, não corro o risco de associar qualquer música com os eventos traumáticos de hoje.
Rogo a vossas tufonidades mais consideração no futuro
Grato
M!
Que dia miserável foi hoje.



